Era seu aniversário de 26 anos. Melissa acordou com uma ideia simples: andar pelo parque, como fazia todos os anos. Ela tinha um combinado com o marido, no dia do seu aniversário, durante o dia ela se permitia a uma pequena fuga do mundo em que viviam. Pela primeira vez em meses, ela sentia leveza. Vestiu uma blusa clara, prendeu o cabelo num coque solto e saiu sem avisar, como era muito cedo toda a casa dormia.
Após caminhar pelo parque, tomar um copo de caldo de cana do vendedor ambulante, ela teve uma ideia, surpreender Jairo com um bolo de chocolate, o mesmo que ele dizia lembrar a infância. Já que ele iria trabalhar em casa naquele dia.
Na confeitaria da esquina, escolheu o bolo com cuidado. Pediu que colocassem “Feliz aniversário, amor” em letras brancas sobre o glacê. Sorriu ao ver o resultado. Pegou o pacote com delicadeza e dirigiu de volta para casa, o coração batendo em ritmo esperançoso de ter um dia especial com ele.
Ao chegar, o silêncio da casa parecia comum. Nenhum funcionário à vista, o que ela achou estranho. Nenhuma movimentação e nem a mesa posta para o café. Subiu as escadas devagar, equilibrando o bolo com uma das mãos. Foi então que ouviu algo que fez seu corpo congelar.
Risos abafados. Uma voz feminina. Uma gargalhada conhecida, o som vinha do quarto do casal.
Melissa parou diante da porta do seu quarto. O coração acelerou. A mão tremeu. Ela girou a maçaneta suavemente e empurrou a porta com delicadeza.
O mundo parou. Nada na vida lhe preparou para cena que viu naquele momento.
Jairo estava na cama. Rafaela também, ambos nús.
Os dois se viraram, congelados. O lençol escorregou, revelando mais do que palavras poderiam explicar.
— Mel... — Começou Jairo, tentando se cobrir, para então levantar.
— Isso não é o que parece. — Disse Rafaela, com a voz trêmula e com um toque de dissimulação.
Melissa não respondeu. O bolo escorregou de suas mãos e caiu no chão, espalhando glacê e chocolate pelo tapete bege do quarto.
Ela olhou para os dois. Não havia lágrimas. Não havia gritos. Apenas um silêncio ensurdecedor e uma vontade de sumir.
Virou-se e saiu, pensando consigo mesma: “então era esse o seu compromisso hoje”.
Desceu as escadas como quem flutua. Pegou as chaves do carro. Entrou. Ligou o motor. E dirigiu tudo no automático, o telefone não parava de tocar, e ela simplesmente o silenciou.
As ruas de Curitiba passavam como borrões, mas não havia lagrimas em seu rosto. Apertava o volante entre os dedos. O rádio desligado. A mente em colapso, agora muitas coisas se encaixavam, pequenas falas da irmã, a ausência do marido em alguns momentos.
Ela não sabia para onde ia. Só sabia que não podia ficar mais ali.
Depois de quase uma hora dirigindo sem rumo, parou numa padaria simples na Rua 31 de Março. A fachada era desbotada e com falhas na pintura. O cheiro de pão fresco escapava pela porta entreaberta, o que a fez lembrar da sua infância na casa da mãe.
Entrou. Sentou-se num canto. Pediu um café.
— Com leite ou puro? Perguntou a atendente, que deveria ter a sua idade.
— Puro.
— Algo para comer?
Ela olhou a vitrine no balcão e viu fatias de um bolo de fubá, e pediu um pedaço. Sentou-se um uma mesa, e no minuto seguinte, a atendente a serviu o café preto em um copo americano, a fatia do bolo em pires duralex marrom.
O atendente assentiu, sem fazer perguntas. Melissa ficou ali, olhando para o líquido escuro, sentindo o calor subir pelo vidro do copo. O mundo parecia distante, como se ela estivesse fora do próprio corpo.
Foi então que o movimento de três mulheres entrando na padaria chamou a sua atenção, vestindo uniformes verdes. Coturnos pretos amarrados firmes, cabelos presos e alinhados, olhares decididos de quem sabiam o seu lugar no mundo. Conversavam entre si com naturalidade, mas havia algo nelas que chamou a atenção de Melissa.
Força. Direção. Propósito.
Ela ouviu uma delas comentar sobre o concurso para sargento do Exército. As inscrições estavam abertas, naquele dia. Era possível começar do zero? Recomeçar de onde parrou?
Melissa pegou o celular, ignorou as mais de trinta ligações perdidas por parte do marido. Abriu o navegador e digitou “concurso sargento Exército Brasileiro”. Leu os requisitos exigidos. Verificou a idade limite para o concurso, e ela ainda estava no prazo.
— Ainda dá tempo. — Murmurou para si mesma.
Ali, entre o cheiro de pão e o som de vozes de mulheres militares, Melissa tomou uma decisão.
Ela não seria mais a esposa traída. Não seria a vítima. Nem a filha decorativa. Ninguém nunca mais iria falar o que ela deveria fazer, como se portar ou vestir.
Naquele momento era morria como a filha do senador e renascia como a recruta Sampaio.