A mesa estava posta com perfeição. Talheres de prata, taças de cristal, guardanapos dobrados como origamis. O jantar na mansão Sampaio era uma tradição política mais encenação do que afeto, o pai exigiu que ela viesse jantar com a família.
Melissa chegou pontualmente, vestida com discrição. Um vestido preto simples, cabelo preso, maquiagem leve. Jairo chegou junto com ela entraram juntos, ele estava visivelmente tenso. Rafaela, como sempre, parecia saída de uma revista: vestido justo, sorriso ensaiado, olhos brilhantes demais. Helena a esposa do pai aparentava ser mais parte da decoração do que uma pessoa presente.
Vitor Sampaio ocupava a cabeceira. O senador observava todos com a calma de quem já havia decidido o rumo da noite.
— Vamos começar. — Disse ele, erguendo a taça de vinho. — Tenho algo importante a dizer.
Todos se calaram. Os empregados se afastaram discretamente.
— Melissa, Jairo... — começou Vitor, com voz firme. — Sei que estão passando por... turbulências. Mas isso precisa acabar. Vocês não vão se separar, não aceito aquele papel que vocês assinaram.
Melissa franziu o cenho.
— Isso não é uma decisão sua, pai. — Ela falou firme e pela primeira vez encarrando o pai nos olhos.
— É sim! — E respondeu ele, sem alterar o tom. — Vocês são o casal perfeito, símbolo do amor jovem. A imagem pública de vocês é valiosa demais, para mim, para o nosso partido para ser destruída por um capricho emocional, sem sentido de vocês.
Jairo abaixou os olhos. Rafaela sorriu, como quem espera o próximo ato.
— E mais... — Continuou Vitor. — Essa história de Exército... Melissa faça o meu favor, você não vai se alistar. Isso é absurdo. Você tem um papel a cumprir com essa família. E não é marchando em campo, brincando de ser soldado.
Melissa respirou fundo. A taça em sua mão tremia levemente.
— Eu já fiz minha inscrição, como o senhor já sabe. E já vou bem crescida para pedir sua permissão, Pai.
O silêncio caiu como uma bomba, desde que passou a morar com o pai, Melissa nunca o respondeu, nunca falou sem ser perguntada e principalmente nunca falou com o pai de igual para igual.
Vitor apertou os lábios, visivelmente furioso. Jairo olhou para ela, surpreso como se não acreditasse que era a mesma mulher que um dia foi sua esposa. Rafaela, então, se levantou, com aquele ar superior e mimado de sempre.
— Já que estamos sendo sinceros... — Disse ela, com um brilho estranho nos olhos. — Eu também tenho algo a dizer.
Todos se viraram para ela.
— Eu estou grávida.
O silêncio se transformou em choque.
— Grávida? — Perguntou Vitor, confuso.
— Sim, pai. O senhor será avó. — Respondeu Rafaela, com um sorriso triunfante. — E Jairo, amor você será papai.
Melissa congelou. O mundo girou. Jairo empalideceu.
— Rafaela, pelo amor de Deus... — Murmurou Jairo num fio de voz.
— Ah, não se faça de santo agora, Jairo. — Disse ela, com voz cortante. — Você nunca resistiu a mim. E nos transamos feito coelhos, não tem mais como esconder.
Vitor se levantou, derrubando a taça de vinho sobre a tolha branca.
— Isso é uma piada? Rafaela!?
— Não pai é a mais pura verdade. — Respondeu Rafaela, com um brilho narcísico nos olhos. — Melissa e Jair não viviam como marido e mulher a muito tempo. E talvez seja hora de pararmos de fingir que somos uma família perfeita, e sermos apenas nós.
— Não posso acreditar... — Helena finamente se pronunciou.
— Que tipo de filha você criou Helena? Vitor perguntou furioso a esposa.
Melissa se levantou devagar. Olhou para o pai, para o marido, para a irmã e por ultimo para a madrasta.
— Obrigada. — Disse ela, com voz firme. — Vocês acabaram de me dar mais certeza do que nunca, agora eu sei que tomei a decisão certa, eu nunca me encaixei nessa família e em sua forma de viver.
Virou-se e saiu, sem olhar para trás.
Naquela noite, Melissa não chorou. Não gritou. Apenas caminhou até o quarto, abriu o armário, pegou a mochila que já estava pronta.
Ela não era mais parte daquele teatro.
Ela se tornaria na recruta Sampaio.
E o mundo que a moldou acabava ali.