HEITOR
A empresa do meu pai basicamente trabalha com itens valiosos, como vinhos selecionados e envelhecidos, também outras bebidas artesanais, mas sem dúvidas os vinhos são os mais famosos. Meu pai também faz outros investimentos e eu preciso cuidar de tudo agora que ele partiu.
A fazenda que visitarei tem um vinhedo e é um dos fornecedores do melhor vinho que oferecemos aos nossos clientes.
A empresa é antiga. O meu pai foi o responsável por levar o nome da família Becker para o mundo do luxo, mas começou no meu tataravô e existem vinhos com mais de 65 anos na nossa adega.
Estes sem dúvidas são os mais caros.
A fidelidade da família Ferrari com a família Becker também é de longa data. Meu pai nunca me levou para conhecer o vinhedo e só agora, depois de sua morte, que estou indo conhecer o lugar.
Fui no no meu Bugatti Veyron preto, para causar uma boa impressão.
É um dos meus favoritos. O meu primeiro, na verdade. Os 16 milhões mais bem dados, sem dúvidas.
Esperava chegar na fazenda na hora do almoço. Sem atrasos. Odeio atrasos. Não sou neurótico por isso, mas meu pai sempre disse que tempo é dinheiro e errado ele não estava.
A viagem foi ótima até eu chegar no trecho sem pista. Estrada de terra.
Me deu vontade de chorar por estar judiando o meu bem tão precioso. Deveria ter vindo com o meu Jeep Sport, mas a burrice foi minha, por ignorar o fato de que uma fazenda não fica dentro da cidade.
O meu GPS dizia que eu estava perto do meu destino final.
— 200 metros para chegar ao seu destino final.
Desliguei o GPS e com isso me dispersei da direção. Ao voltar a olhar para a estrada, um cavalo saltou e seu cavaleiro tentou se segurar, mas caiu no chão.
Pisei no freio com toda força e meu carro parou de imediato. Assim que desliguei o carro, saí e corri para ver o cavaleiro.
Será que fui eu quem causou o acidente?
Eu não estava em uma velocidade tão alta. Na verdade, 20 km por hora.
O cavalo ficou parado ali e o cavaleiro, quer dizer, a cavaleira, levantou, se limpando.
Quando os meus olhos encontraram aquela bela garota, eu tive a certeza de que a queria para mim.
É como acontece com tudo de valioso que atrai a minha atenção.
Mas poxa! Eu não esperava encontrar uma cavaleira tão bonita como essas por aqui!
— Sim. Estou viva. Obrigada por perguntar. — ela falou, limpando as bochechas e ajeitando o boné na cabeça.
Não era um sonho. Eu voltei à terra.
— Desculpa, eu fiquei impressionado com a sua beleza.
Ela riu. — Eu quase morri e você ao invés de me ajudar ficou impressionado com a minha beleza? — ela pegou as cordas do cavalo. — Com certeza não poderia trabalhar como segurança de uma agência de modelos.
— Acho que por lá não deve ter uma modelo bonita como você e também não tem acidentes como esse. Você está bem? — apoiei a mão no carro.
— Estou. — ela subiu no cavalo. — O que faz por aqui?
— Estou indo para o vinhedo dos Ferrari. Você pode me dizer onde fica?
— Não está longe. Mais a frente.
— E você pode me levar até lá? Pode ser a minha companhia. Você é solteira?
— Companhia? — ela parecia curiosa.
— Eles estão me esperando. Acho que não vão se incomodar se eu levar uma bela cavaleira comigo. Você não respondeu a minha última pergunta.
Ela sorriu. — Pode ser.
— Eu te ofereceria uma carona, mas...
Se fazendo de desentendida…
— Não será dessa vez que vou andar na sua máquina, mas de qualquer forma eu prefiro o meu cavalo. — ela falou sorrindo e saiu da estrada, passando por uma porteira que estava aberta. — Me acompanhe, cavalheiro. Isso, claro, se esse seu carrinho for capaz.
Eu ri. Ela definitivamente não entende de carros.
— Está bem. — entrei no meu carro e o liguei. Ela saiu na frente, pelo campo e eu dirigi pela estrada. Seus cabelos voavam e ela saltava na sela.
Novamente me distraí da direção. Não conseguia parar de olhar para a mulher cavalgando.
Estou completamente atraído por ela. Ouso dizer que me apaixonei. Olhei segundos suficientes para isso.
Eu quero essa mulher pra mim.
Quero saber mais dela.
Quero ela em meus braços.
Eu seria capaz de colocar esse cavalo na minha mansão se fosse preciso.
Há tempos que não olho para uma mulher e sinto um desejo desses.
Eu sou do tipo afobado. Não sou de ficar em dúvida com relação ao que quero ou não. Ou eu quero ou não quero. Não é difícil ter uma resposta dessas. Às vezes prolongamos e colocamos as dúvidas no meio, mas no fundo sempre sabemos a resposta.
Eu quero essa mulher pra mim.
Pisei no acelerador e acompanhei o cavalo dela.
Ela olhou para mim de relance e sorriu. As janelas do meu carro estavam abertas. Se eu diminuísse a velocidade, inevitavelmente a nuvem de poeira feita pelo próprio, iria invadi-lo. Por isso, quando avistei a fazenda e ela deu sinal de que estava ali, fechei as janelas e diminuí a velocidade.
Meu carro deve estar muito estragado por causa dos paus e pedras que passei por cima nesta corrida entre ele e o cavalo? Provavelmente, um prejuízo milionário, mas eu não poderia deixar de me exibir por causa disso.
Cheguei em 20km/h na fazenda e parei ali na porteira. Ela abriu a porteira para mim ainda em cima do cavalo e me perguntei se ela tinha essa permissão e se trabalhava ali. Passei pela porteira e mais uns 20 metros parei na frente do casarão.
Desliguei meu carro e saí de dentro dele. A cavaleira desceu de seu cavalo e o amarrou em um poste que tinha ali.
Ela veio até mim sorrindo com um olhar apaixonante e um homem de 1,80 e com mais ou menos a idade do meu pai, entre 45 e 55 anos também se aproximou.
Como um bom profissional, prestei atenção nele, apesar de meus olhos me traiam a todo momento, indo na direção da garota.
— Encontrei este turista a caminho daqui.
"Turista".
Eu ri.
— Estava a caminho da fazenda Ferrari e esta bela cavaleira me ajudou, apesar de eu lhe causar um tombo no cavalo.
— Caiu do cavalo, Clarisse?— o homem logo se preocupou.
— Foi só um tombo. O cavalo se assustou com o carro. Eu estava atravessando distraída também...
— Eu também estava distraído, desligando o GPS. Peço desculpas.
— Tranquilo. Isso sempre acontece.
— Isso nunca aconteceu. — o senhor corrigiu e ela virou o rosto, disfarçando o rindo com a mão. — Mas está viva, é o que importa. Não é mesmo? — ele sorriu para mim e estendeu sua mão. — Sou Vitório Ferrari e você deve ser Heitor Becker. O herdeiro dos Becker.
Apertei a sua mão, sorrindo. — Um dos herdeiros. Ainda tem duas cruzes e uma carrada de mulheres.
Ele deu risadas.
— Esta é a minha filha, Clarisse.
Me virei para ela, surpreso. — Sua filha?
Agora ela riu olhando para mim e estendeu a sua mão. — Prazer.
— O prazer é meu. — segurei a sua mão e beijei.
— Está cheia de areia. — ela avisou.
— Sem problemas. — me recompus depois do cumprimento e meus lábios estavam com grãos de areia mesmo. Mas eu soube disfarçar.
Suas mãos não são tão delicadas como as que estou acostumado a tocar. A cara dela também não é de uma garota frágil.
— Venha conhecer a minha casa. — Vitório chamou e eu fui atrás dele. Clarisse veio ao meu lado.
— Por que não me disse que morava aqui e que era da família? Eu achei que você era uma empregada.
— E se você fosse um ladrão e me sequestrasse ou me roubasse? O meu cavalo é muito precioso.
— Ah é? — a curiosidade me fez rir.
— É. Milhões. É campeão de corrida.
— O meu carro também. Milionário demais para um ladrão.
Entramos na casa sorrindo.
Por fora uma simples casa de fazenda, por dentro uma mansão tão elegante quanto a mansão onde eu moro.
— Bela casa.
— Foi a Clarisse que decorou. Ela é apaixonada por designer de todo o tipo.
— Uma vez ela desenhou uma sela diferentona e o cavaleiro acabou no hospital com as bolas esmagadas. — um rapaz com mais ou menos a minha idade e vestes de peão, comentou, com uma xícara de café perto da boca.
Clarisse sorriu com o olhar estreito para ele. — Deveria ter lhe dado de presente.
— Heitor, este é meu filho Eduardo. Ele cuida da fazenda comigo.
— Muito prazer. — o cumprimentei.
— Seja bem vindo a nossa fazenda. Sinto muito pelo seu pai.
Eu lamentei, apertando os lábios numa reta.
— O seu pai era um ótimo sócio e um grande amigo. — Vitório completou. — Deve estar num lugar bom.
— Provavelmente no mesmo para onde vou, visto que tenho seguido os mesmos passos que ele. — comentei com certo deboche e rimos.
— Elisa. — Vitório chamou e logo uma mulher mais velha e bonita apareceu, secando as mãos no avental. — Heitor Becker. E esta é a minha amada esposa Elisa.
A cumprimentei da mesma forma que fiz com Clarisse.
— Seja bem vindo.
— Obrigado.
— Vamos almoçar? Depois te mostro a fazenda e o vinhedo.
— Sim. — aceitei sem demora. Afinal, esse foi um dos motivos para chegar neste horário na fazenda.
Fui até o lavabo lavar as minhas mãos e a bela Clarisse sumiu de vista.
Espero que volte logo. De tudo que tem de bonito aqui, ela é a melhor das visões.