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921 Palavras
Alguns dias depois Cecília Gonçalves Acordei cedo, e fui procurar alguns lugares para eu fazer o meu curso, estava bem animada e com o meu coração acelerado. Passei por quatro escolas profissionalizantes para finalmente encontrar o lugar aonde iria começar a fazer o meu curso. Não era tão longe assim, e de uber seria bem rápido, e andando era uns 30 minutos por aí, mas te falar eu amei o lugar e o preço mais ainda. Consegui fazer um acordo com a diretora do lugar, mostrei os meus boletim e tal e consegui uma bolsa de 60%,foi ótimo pra mim né, eu ia economizar bastante. Então saí de lá pulando de alegria, p***a finalmente eu iria começar a embarcar no meu maior sonho, iria ser uma caminhada bem longa, mas te falar? Não vou desistir não, vou lutar para ter o que é meu, e um dia conseguir ter a minha própria marca de roupas. Depois que saí da escola, fui direto para o correio buscar as roupas que havia chegado de São Paulo, parei em uma lanchonete no caminho por que eu também não era de ferro né. Depois disso chamei um uber para ir pra casa. Já iria dar umas 14h da tarde e já estava mortinha de cansaço, com os pés doendo dentro do tênis, e uma fome de três elefantes e toda suada. Eu precisava urgentemente de um banho. Mas mesmo assim estava realizada, e meu peito faltava sair pela boca. Eu ainda não estava acreditando que eu consegui uma bolsa com um desconto do caramba, e eu já começava na próxima semana, por que a escola estava em uma reforma, nem reclamei até por que vou ter tempo para comprar o material, e arrumar os meus horários. O curso era apenas três vezes na semana, e os duas eu poderia escolher. Faço um sinal para o uber e ele já para em frente a calçada que estava, e eu respiro fundo aliviada por ele ter aceitado a corrida, por que já tinha pedido uns três uber e eles cancelaram a corrida por verem que era para o vidigal que estava indo. Entro no uber pedindo licença depois de conferir a placa do motorista e eu escuto um "Fiquei a vontade" do senhor no volante enquanto ele dava partida no carro, eu arrumo as sacolas e as caixas no banco. — Obrigada por não ter cancelado a corrida, o senhor é o terceiro uber que eu peço. — falo e escuto a risada dele que me olha rápido pelo retrovisor e volta a olhar para a frente. — Será que é por causa do destino? — ele pergunta me olhando. — Pode ser, a maioria dos uber não aceita por medo. — Ah minha filha, eu já estou acostumado em levar gente para o complexo, não tenho medo não, eu sou do morro da maré sabe? Eu trabalho como borracheiro, mas o uber da um dinheiro bom quando estou precisando. — Ele fala e sorri no final fazendo eu sorrir também. — Que bom né, esse aplicativo veio para salvar a vida de muita gente que as vezes não consegue emprego. — ele assente concordando. — Mas e você menina? O que faz? — percebo ele olhar para as caixas pelo retrovisor e depois olhar para a frente novamente. — Eu trabalho com roupas, tenho uma loja de roupas no vidigal, e hoje fui buscar algumas roupas que comprei — falo e ele sorriu. — Que bom, é bom ver os jovens de hoje em dia assim tão focados no trabalho, e não só ficar preocupado em sair, beber, e dar perdidos nos pais. — ele ri de leve e eu acompanho ele. Ele para no sinal e vejo uma família sentada em baixo de uma árvore, tinha uma mulher, três crianças e uma bebê, e eles estavam com as roupas sujas e rasgadas. Vejo um dos meninos vir correndo até o carro enquanto a menina vai no carro de trás. — Tia, você pode me dar um trocado para eu comprar comida para os meus irmãos e a minha mãe? — ele fala com as mãos para trás e então sorri mostrando as janelinhas dos dente, dou um sorriso e abro a minha capinha do celular e pego duas notas de 20 e vendo ele olhar com os olhos brilhando enquanto eu sorria. — Toma, pode ficar. — Obrigada tia, obrigado mesmo e que Deus te abençoe. — Ele sorri pegando as notas e eu ergo a mão pra ele que bate na minha sorrindo e então saí correndo para aonde a mãe estava, vejo o menor pegar o dinheiro da mão dele olhando sorrindo e logo olha para o carro que estava e sorri acenando. Dou um sorriso também e me viro para a frente vendo o motorista me olhar com um sorriso admirado, e quando eu via pessoas assim sem ter o que comer e o que vestir, meu coração ficava bem pequeno. Dava até uma falta de ar em pensar o que essas pessoas devem sofrer dia após dia. E um flash rápido vem na minha cabeça do dia em que o Heitor me contou o que ele mesmo passava na rua, a dor de ficar sem comer nada, o nojo que as pessoas tinham de ver ele daquela forma e a alegria de ganhar um mísero pacote de bolacha ou algum dinheiro para comprar algo pra comer. O meu coração ficou mais pequeno ainda e eu suspiro tentando me livrar desses pensamentos.
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