"Tupi or not tupi? That's the question."
(Oswald de Andrade – Manifesto Antropofágico)
Quando encaminhei o original deste livrinho, por e-mail, para minha editora, ela reclamou da localização da história. Na visão dela — excelentíssima profissional, quero deixar mais que claro aqui — uma história como essa deveria se passar no Rio de Janeiro. Primeiro, por estar associada à obra Dom Casmurro, que é ambientada inteiramente na cidade. Segundo, por questões comerciais.
“O Rio é o cartão postal do país”, ela disse. “Vai ser muito mais fácil você ganhar algum reconhecimento lá fora”, ressaltou quando ofereci resistência. Enfim, tivemos amplas e inúmeras discussões a respeito, mas — ao contrário do que aconteceu em outras ocasiões — desta vez eu bati o pé.
Nada contra o Rio de Janeiro, cidade animada, que eu adoro, mas esses acontecimentos tiveram outro lugar como cenário. Neste caso, leitor, deixo a você a responsabilidade de me dizer o quão interessante é (ou não) uma história que se passa em Campinas, no interior de São Paulo.
Mas por respeito à minha editora, vou dar um jeito de enfiar o Cristo Redentor ou qualquer outra paisagem carioca aqui. Seja por flashback, seja por cartão postal.
Chega de enrolação agora! Tudo isso que vou contar aconteceu em 2014. Guarde bem essa data na memória, para depois não me acusar de não tê-lo avisado, hein? Mas então, a festa que Milena daria naquela noite era o assunto em pauta por trás dos muros de granito róseo do Colégio Santa Virgínia, na Rua Machado de Assis (olha só), no elegante bairro campineiro do Taquaral.
Milena ocupava o topo da Escala de Popularidade do colégio. Filha adotiva de uma das famílias que dominavam o mercado imobiliário campineiro. n***a, tinha um corpo esguio de modelo e beleza que empregava certa altivez. Era praticamente a mais rica do Santa Virgínia e, consequentemente, a mais popular.
Por muitos anos Milena tinha sido líder e capitã das Meninas do Vôlei do colégio. Misteriosamente, no começo do primeiro ano, deixou tanto a liderança do grupo quanto o posto de capitã do time. Foi inesperado quando ela desfilou pelos corredores do colégio com os cabelos, na época sempre alisados, raspados e cobertos por um turbante.
Mesmo assim, foi com certa reticência que a patricinha respondeu quando questionada a respeito de ter convidado todas as Meninas do Vôlei, seu antigo grupo, para a festa que daria naquela noite.
— Ué, gente, eu não tenho nada contra elas e nunca tive. — Milena fez questão de esclarecer, na defensiva. — E além disso a festa é minha, né? Eu chamo quem eu quiser.
— Ai, tá bom, Mi, não precisa vir armada pra cima de mim. Eu só perguntei…
Lara Campadelli, minha amiga desde o maternal, era dessas que só comentava ou só perguntava. Quase sempre sem um pingo de filtro ou cuidado nesses comentários ou perguntas despretensiosas. Falava o que pensava, mesmo suas opiniões sendo desagradáveis na maior parte das vezes. Apesar desse traço difícil de personalidade, era confiável e boa conselheira.
Eu era muito mais amigo de Lara do que das outras meninas. No entanto, naquele contexto, eu e ela estávamos brigados e não nos falávamos mais, mesmo na presença um do outro. Isso já vinha durando alguns dias, até que minha ex-amiga me abordou no intervalo de turnos entre o período matutino e vespertino daquele dia.
— Posso falar com você? — Ela perguntou e se sentou ao meu lado.
— Tá falando já.
— Ah, Otávio, até quando você vai ficar assim?
— Minha filha, eu vi você e o Nicolas saindo juntos do elevador e você quer que eu fique como?
Preciso abrir um parêntese para dizer que o “elevador” era uma obra inacabada nas dependências do colégio, projetada para levar os alunos com deficiência física aos andares superiores. Foi "paralisada" depois da visita de um órgão competente, que afirmou não ser prudente ter uma caixa de aço subindo e descendo pelas entranhas do caquético Santa Virgínia. Até que um novo alvará fosse liberado, muitos alunos aproveitavam o espaço para trocar amassos e beijos furtivos.
— De novo esse papo?! Menino, eu tentei te explicar aquele dia no whats, mas você nem me deixou falar nada e já foi me bloqueando. — Lara se justificou, em tom resignado.
— Explicar o quê? Que você tá ficando escondida com um menino que me zoou a vida inteira? E pior ainda, você, que sempre disse que confia em mim, não me contou nada. O seu azar é que eu não sou trouxa, percebi seu jeito estranho e te segui até ver você com aquele escroto.
— E você acha que tá certo em se meter na minha vida desse jeito? Bom, deixa pra lá, vai. Não sei se faz diferença agora, mas eu me encontrei com o Nicolas porque ele meio que quis me usar como ponte pra chegar em você.
Hã?! Em mim?!
— O Nicolas sabe do esquema do uísque. — Ela continuou. — Não sei como, mas sabe. Aí ele quis conversar comigo e me pediu pra falar com você se tem jeito de você pegar uma garrafa pra ele levar na festa da Milena hoje.
— Chamou pra conversar no elevador? — Eu estava bem desconfiado. — Sem falar que não faz o menor sentido eu ajudar esse cara.
Lara ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Pelo que eu conhecia dela, isso era um sinal de impaciência. Mas minha amiga não perdeu o tom e disse, calmamente, que Nicolas tinha oferecido um valor considerável por uma das garrafas de uísque da minha tia.
Valor considerável?
Fiz um pouco de cu doce antes de aceitar. Afinal, não queria deixar tão na cara meu desespero por dinheiro. Tá certo que ter esquema com o Escroto-mor do Nicolas não era a melhor coisa do mundo… Mas, pelo valor que ele iria me pagar, até seria rentável abrir uma exceção. No fim, aceitei.
Prometi uma porcentagem à Lara como forma de agradecimento por ser minha correspondente, mas ela recusou.
— Fica tranquilo, Tavinho. — Seu tom era dócil e pouco aderente à sua personalidade. – Pode ficar com tudo. Já que a gente tá de bem agora, acho que é o mínimo que eu posso fazer por ter dado mancada. Prometo que daqui pra frente eu não vou ter mais segredo com você! — Ela beijou os dedos cruzados.
Foi nesse contexto que os meus laços com Lara se restabeleceram. De novo. Era um eterno “ata e desata”, como Tia Dóris dizia antes de ter sido internada. Apesar de esses laços em questão às vezes darem nó, se embaraçarem igual às ocasiões em que a gente mete os fones de ouvido no bolso de qualquer jeito… Uma hora ou outra eu e minha amiga voltávamos aos beijos e abraços.
E falando em Tia Dóris, foi a partir dela que se desenvolveu o Esquema do Uísque. Não sei como dizer isso do jeito mais gentil e sensível, ainda mais se tratando de um parente tão querido por mim. Mas deixando as cerimônias e eufemismos de lado, em português claro, minha tia era uma bela pinguça.
E ela pagou por isso. Certo dia, bateu o carro por estar dirigindo de cara cheia. Foi pega no teste do bafômetro e perdeu a carteira de motorista. Acho que isso foi o que faltava para meu pai metê-la de vez em uma clínica de reabilitação.
Só que Tia Dóris deixou uma valiosa adega pessoal para trás. Em seu quarto, em casa, o estoque de garrafas de uísque ficou trancado aos cuidados do meu pai, que ameaçou vendê-las ou — vejam, que absurdo — jogá-las fora. Não deixei isso acontecer. Fiz uma cópia da chave e me apropriei daquela herança involuntária.
Desde então, passei a levar escondido as garrafas de uísque para as festas que íamos. Nessas ocasiões, o plano era manter a bebida só entre meu grupinho e não exatamente utilizá-la para fins comerciais. Só que graças à boca grande de uma das meninas, a informação se espalhou e aconteceu de eu vender algumas doses. E foi assim que acabei fazendo negócio com Nicolas naquela fatídica sexta-feira.
E foi na noite daquele mesmo dia que eu me olhei no espelho e conferi meu visual para a festa. É, eu estava razoavelmente parecido com o Ferris Bueller do filme “Curtindo a Vida Adoidado''. Quer dizer, numa versão de pele mais amorenada e estatura menos chamativa que a dele. E talvez meus grandes olhos pretos não fizessem jus ao olhar puxado do ator Matthew Broderick. Mas havia, sim, alguma semelhança ali. Nem que fosse no branco dos olhos!
Era preciso admitir: Milena tinha sido bem criativa ao exigir que os convidados comparecessem, na sua festa de 16 anos, fantasiados conforme o tema "Filmes Adolescentes Americanos". Ela era obcecada por esse tipo de filme; talvez por isso se comportava como se estivesse em um… Ainda mais quando saía classificando os outros de acordo com seu “populômetro”, dividindo os demais alunos em populars e losers.
Eu vou tentar traduzir a Escala de Popularidade dela para vocês, beleza? Então vamos lá! No topo está a própria Milena. Ela é a famigerada garota mais bonita e popular do colégio. A típica Rainha do Baile, sabe?
Tipo, quando eu e Lara chegamos à festa de aniversário dela, vimos a própria Milena de longe, descendo as escadas quase em câmera lenta. Estava linda como sempre. A coroinha singela no topo da sua cabeça e uma faixa onde se lia “Prom Queen” deixavam evidente qual era o personagem clássico que ela remetia.
Logo abaixo estavam as Meninas do Vôlei. Comandadas por Alana Maciel, a capitã do time desde que Milena abandonara o posto. Elas costumavam ser excessivamente esnobes (especialmente depois de terem ganhado medalha de ouro no último campeonato intercolegial). Andavam sempre juntas, balançando os rabos de cavalo como pêndulos mortais. Alimentavam-se de egos alheios destruídos e pareciam ter um apetite bastante insaciável.
Todas as Meninas do Vôlei estavam fantasiadas, em comum, como as líderes de torcida do filme “As Apimentadas''. Quer dizer, nem todas. Alana não se encontrava junto ao grupo. Lara e eu não a tínhamos visto desde que chegamos na festa.
Os Meninos do Futsal vinham logo abaixo na Escala de Popularidade. Liderados pelo Escroto-mor Nicolas Leme (que todo mundo dizia ser "filho de traficante", mas na verdade seu pai era mesmo dono de uma rede de farmácias). Cinco caras baderneiros e bocas-sujas, cujo código de masculinidade padrão envolvia arrotar e coçar o saco em público. Ao contrário das Meninas do Vôlei, nunca tinham ganhado nenhum campeonato. Mas a ausência de prêmios não impedia que eles mantivessem uma postura predatória com caras desfavorecidos fisicamente como eu.
A exemplo das Meninas do Vôlei, os Meninos do Futsal também estavam fantasiados em comum. Todos usavam jaquetas de couro preta e topetes, que claramente remetiam aos, não menos masculinos, valentões do filme “Grease - Nos Tempos da Brilhantina”.
Aí no meio da tabela estávamos nós: os N.A.D.A. (Ninguém Aparentemente Digno ou Aclamado). Eu, Lara e pelo menos 75% do Santa Virgínia éramos dessa posição. Nada de beleza estonteante, nada de pais exageradamente ricos. Meros coadjuvantes dos alunos mais celebrados.
Como já falei, fui para a festa todo de Ferris Bueller. Achei que a fantasia de um personagem tão rebelde e questionador do sistema casava bem com minha posição de outsider em relação aos populares. Comigo, Lara estava uma graça de “menina nova e estranha no colégio”, em clara alusão ao personagem da Brittany Murphy em “As Patricinhas de Beverly Hills''.
Sempre achei que Lara poderia facilmente ser confundida com um menino, de costas, por causa de sua altura e porte troncudo. Mas naquele dia ela estava indiscutivelmente linda. Não era à toa que tinha um canal de maquiagem, considerando seu grande domínio dessa técnica. Não só isso, mas a jaqueta de moletom e a calça jeans de sua fantasia / figurino valorizavam as formas robustas do seu corpo. Apesar de os Meninos do Futsal chamarem Lara de Javali, ela nunca pareceu se incomodar com esse apelido m*****o.
Fomos pegar bebida. Ao chegar à espremida e lotada mesa na lateral direita, entendi porque Nicolas fazia tanta questão da garrafa de uísque. Não tinha nada alcoólico para beber; só uma grande tigela cheia de um líquido amarelo-abacaxi e pedaços de frutinhas, de onde mais corajosos se serviam com uma concha de cozinha.
Lara se aproximou da mesa, afastando alguns convidados com cotoveladas certeiras. Voltou toda decepcionada. "Mancada da Milena", reclamou para mim, que procurava manter a garrafa de uísque protegida dentro da mochila de carteiro, que era tão útil naquele momento quanto fazia parte da minha fantasia.
— Até que enfim achei vocês! — Letícia se aproximou da gente, trazendo um rapaz cabeludo a tiracolo, e tentou gritar mais alto do que a música.
Letícia Donelly era nossa amiga e N.A.D.A. como a gente. Irlando-brasileira, chamava atenção pelos cabelos ruivos, que encortinavam o rosto branquelo e sardento. Viciada em tecnologia, gostava de programação e era meio hacker também. Naquela noite, vestia-se como a Julia Stiles em “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você'', enquanto seu namorado fazia referência ao visual largado do Heath Ledger, inclusive com os cabelos enrolados soltos em um penteado rebelde.
Letícia nos apresentou seu namorado, que se chamava Pedro. Achei ele simpático. Estudante de Ciências da Computação na PUC, com cara de nerd do bem. Devia estar na casa dos 22 anos e a diferença de idade dos dois era bem visível. Fiquei com medo de Lara fazer algum comentário desagradável, mas ela se segurou.
Milena se juntou ao grupo também, bem no meio das apresentações. “Vocês estão muito lindos, meus chuchus!”, comentou enquanto distribuía abraços de um em um. Parecia feliz em ver a gente.
— Vem cá, Milena, como é que você me dá uma festa onde não tem nada para beber? — Lara quebrou o clima, berrando para dar ainda mais corpo à sua indignação. — Na mesa de bebida só tem um mijo de égua estranho.
Milena riu. De todos nós, ela era a única que parecia se divertir verdadeiramente com os comentários de Lara, por mais absurdos que eles fossem.
— Chuchu, isso é ponche. — Esclareceu a nossa amiga e anfitriã. — Eu achei legal oferecer pro pessoal da festa pra ficar com mais cara de filme teen americano, sabe?
— Tá batizado? Porque hoje eu quero ficar louca!
— Não tá... Meus pais são evangélicos, eles não liberam nem vinho, que é sagrado. Mas deixa eu falar uma coisa... Eu separei uma garrafa de Vodka só pra gente, que tá lá na cozinha, escondida no balcão do armário. Mas discrição, hein? — Milena recomendou aos sussurros e em tom maternal. — Pega um pouco de ponche e despeja a Vodka dentro pra não dar na vista.
Lara não precisou ouvir aquelas instruções duas vezes. Anunciou que ia atrás da Vodka, mas antes pegou a minha bolsa de carteiro e levou com ela. Provavelmente pretendia encontrar Nicolas no processo. Livre daquele peso, dei uma olhada nos alunos presentes na festa. Uma garota alta do primeiro ano vestida como a Megan Fox em “Garota Infernal'' dançava com um rapaz de cabelos espetados, cujo rosto coberto de ** branco denunciava que ele pretendia ser o Robert Pattinson em “Crepúsculo”.
Da mesa de ponche, finalmente avistei Alana, que chamava bastante atenção. Não por ser alta e loira, mas por sua fantasia curiosa que remetia à personagem Regina George, de “Meninas Malvadas'', com toda a estrutura ortopédica que a personagem usou no baile de formatura, depois de ter sido atropelada por um ônibus. Ela conversava animadamente com Anderson, cujos oclinhos de aro fino, terno e gravata eram próprios de “Sociedade dos Poetas Mortos''.
Era até estranho ver uma Menina do Vôlei e um Menino do Futsal fantasiados daquele jeito. Alana parecia ser tão fútil, eu pensava que ela iria aparecer na festa de sua atual rival com uma fantasia no mínimo glamourosa. Se bem que aquela escolha podia ser um tipo de provocação à Milena.
Eu me virei para minha amiga anfitriã e procurei fazer algum comentário sobre aquilo. Mas as palavras morreram na minha boca, porque acabei me entretendo com o papo entre ela, Letícia e Pedro. “O meu filme favorito sempre foi ‘Ela é Demais’, sabe? Então eu resolvi vir de Laney Boggs vestida de rainha do baile, mas eu fiquei na dúvida porque não sei se as pessoas vão curtir uma menina n***a representando uma personagem branca… Mas eu sou a dona da festa, né? Então quem não gostou que morra!”.
Todos rimos e Letícia comentou que só estava faltando um rei do baile para fazer par.
— Quem disse que falta? — Milena arqueou a sobrancelha e colocou a mão na cintura. — Olha meu Rei do Baile lá… O mais lindo da festa.
Acompanhei o olhar de Milena e então o vi. Não pode ser verdade, por favor, não pode! Mas era… Ele.