No limite da perda

1214 Palavras
A casa estava em silêncio. Era madrugada, e tudo parecia finalmente calmo depois de um dia pesado demais. Mariana estava deitada, mas não dormia. O corpo estava cansado, mas a mente continuava acelerada, presa em tudo que tinha acontecido. A conversa, o homem, o jeito como Leonardo reagiu… nada saía da cabeça. Ela virou na cama, encarando o teto, soltando um suspiro frustrado. Sabia que precisava descansar, mas havia algo inquieto dentro dela, como um aviso que não se calava. E então o barulho veio. Seco. Violento. O som de algo sendo forçado. Mariana se sentou na cama na mesma hora, o coração disparando antes mesmo que ela entendesse o que estava acontecendo. Outro barulho veio logo em seguida, mais alto, seguido de passos rápidos e vozes abafadas. Não era normal. Não era nada normal. Ela levantou da cama quase no impulso, indo até a porta e abrindo com cuidado. O corredor estava escuro, mas o movimento no andar de baixo era evidente agora. Gritos contidos, ordens rápidas, o som metálico de algo sendo puxado. Armas. O sangue dela gelou. Antes que pudesse pensar melhor, desceu as escadas, o coração batendo forte demais no peito. Quando chegou à metade do caminho, ouviu claramente a voz de Leonardo. — Ninguém deixa passar! O tom era completamente diferente. Não havia controle emocional ali, apenas comando. E então o primeiro disparo ecoou. O som atravessou a casa inteira. Mariana parou no mesmo instante, o corpo travando, mas só por um segundo. Porque, logo depois, vieram mais. Dois. Três. Rápidos. Ensurdecedores. — LÉO! — gritou ela, sem conseguir se segurar. Ela começou a descer as escadas de vez, ignorando qualquer lógica, qualquer perigo. Só conseguia pensar nele. Mas não chegou longe. Dois seguranças surgiram, segurando ela com força antes que alcançasse a sala. — Me solta! — ela tentou se desvencilhar, desesperada. — Me solta, eu preciso ir! — Senhora, não pode! — disse um deles, firme, segurando ela pelos braços. — ELE TÁ LÁ FORA! — gritou, a voz falhando. — ME SOLTA! Outro disparo ecoou. Mais próximo. O coração dela pareceu parar por um segundo. — LÉO! — gritou de novo, agora com a voz quebrando. — Por favor… me solta… — implorou, já com lágrimas escorrendo. — Eu preciso ir até ele… Mas eles não soltaram. Seguraram mais firme. E ela só conseguia ouvir. Os tiros. Os passos. O caos. Até que… Silêncio. Repentino. Pesado. Insuportável. Mariana prendeu a respiração, o corpo inteiro tremendo. — Acabou…? — sussurrou, quase sem voz. Ninguém respondeu. Mas então vieram passos. Rápidos. E, segundos depois, a porta se abriu com força. Dois homens entraram carregando Leonardo. O mundo dela parou. — NÃO… — a palavra saiu quase inaudível. Ele estava consciente, mas o corpo tenso, a camisa manchada de sangue na lateral. Não era um ferimento profundo, mas era o suficiente para fazer o coração dela disparar ainda mais. — Léo… — sussurrou, já se soltando dos seguranças sem nem perceber como. Dessa vez, ninguém tentou impedir. Ela correu até ele. — Deita ele aqui! — disse um dos homens, colocando Leonardo no sofá. Mariana já estava ao lado, as mãos tremendo enquanto tentava entender onde estava o ferimento. — Foi de raspão — disse ele, a voz baixa, mas ainda firme, como se estivesse tentando minimizar. — Cala a boca — cortou ela na hora, a voz embargada. — Você tá sangrando. Ele a olhou. E, pela primeira vez… não respondeu. Deixou. Mariana correu até um dos armários, pegando um pano limpo e o kit de primeiros socorros. Voltou rápido, ajoelhando-se na frente dele, o coração ainda acelerado. As mãos tremiam, mas ela tentou se concentrar. — Isso vai arder — murmurou, limpando o ferimento com cuidado. Leonardo soltou um leve ar pelo nariz, como se aquilo fosse o menor dos problemas. — Já passei por coisa pior. — Eu sei — respondeu ela, mais baixa, focada no que fazia. O silêncio que veio depois foi diferente. Mais calmo. Mais próximo. Mariana terminou de limpar o ferimento e começou a fazer o curativo com cuidado, concentrada demais para perceber o quanto estavam perto. Ou talvez percebesse, mas escolhesse ignorar. — Você sempre foi assim — disse ela depois de alguns segundos. — Assim como? — Achando que aguenta tudo sozinho. Ele soltou um leve sorriso de canto. — Sempre funcionou. — Nem sempre — retrucou ela, olhando pra ele agora. Os olhos se encontraram. E, dessa vez, não havia confronto. Havia algo mais leve. Mais antigo. — Lembra quando eu caí da bicicleta? — disse ela, de repente, um pequeno sorriso surgindo. Ele arqueou levemente a sobrancelha. — Você chorou por meia hora. — Eu tinha oito anos! — rebateu, rindo de leve. — E me culpou — completou ele. — Porque foi você que me soltou — respondeu ela, ainda sorrindo. Ele soltou uma risada baixa. De verdade. E aquilo… aquilo mexeu com ela de um jeito inesperado. Porque fazia tempo. Tempo demais. O clima mudou sem que nenhum dos dois percebesse exatamente quando. Ficou mais leve. Mais íntimo. — Léo… — começou ela, mais séria agora. — Me fala a verdade. Ele a observou, atento. — Quem era aquele homem? O sorriso dele desapareceu. Mas, dessa vez… ele não desviou. — Alguém que eu devia ter eliminado há muito tempo — disse, direto. O coração dela apertou. — Por quê? Ele hesitou. Mas respondeu. — Porque ele sabe demais sobre mim… sobre os negócios… e agora sobre você. O silêncio caiu. Pesado. Mas não afastou. Pelo contrário. Aproximou ainda mais. Mariana respirou fundo, absorvendo aquilo, e quando levantou o olhar de novo… já estava perto demais. Perto o suficiente para sentir a respiração dele. Perto o suficiente para não ter mais espaço seguro. E, dessa vez… Nenhum dos dois recuou. Foi ela quem se moveu primeiro. Ou talvez tenham sido os dois. Não importava. O beijo aconteceu. Intenso. Urgente. Carregado de tudo que vinha sendo contido há tempo demais. As mãos dela subiram para o rosto dele, enquanto as dele seguravam firme a cintura dela, puxando ainda mais para perto. Não havia dúvida, não havia hesitação. Era desejo, era tensão acumulada, era tudo explodindo de uma vez. Quando o beijo terminou, Mariana ainda estava próxima, a respiração acelerada, um sorriso pequeno e sincero surgindo no rosto. — Demorou — murmurou ela, leve, quase feliz. Mas Leonardo não sorriu. O olhar dele mudou. E aquilo foi imediato. — Isso não devia ter acontecido — disse ele, a voz mais baixa, mas fria. O impacto foi como um choque. — O quê? — ela piscou, sem entender. Ele se afastou um pouco. — Foi um erro. O sorriso dela desapareceu na hora. Os olhos se encheram de lágrimas quase instantaneamente. — Uau… — disse ela, engolindo em seco. — Demorou pra você voltar a ser o b****a de sempre. Ele não respondeu. E isso doeu mais ainda. Mariana se levantou rápido, passando a mão no rosto antes que as lágrimas caíssem mais. — Fica aí com o seu controle — disse ela, a voz falhando. — Eu já entendi. E virou as costas. Subiu as escadas sem olhar pra trás. Deixando ele sozinho. Mas, pela primeira vez… Não era só ele que estava em conflito. Ela também estava.
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