O limite invisível

999 Palavras
O silêncio que ficou entre eles depois daquelas palavras não era confortável. Era pesado, carregado de tudo que nenhum dos dois estava disposto a dizer completamente. Mariana permaneceu parada, sentindo o próprio coração acelerar de forma descompassada, consciente demais da proximidade entre eles. Era como se o espaço tivesse diminuído, como se cada centímetro entre os dois carregasse uma tensão difícil de sustentar. Ela sabia que deveria se afastar. Sabia que aquilo estava ultrapassando um limite perigoso, um limite que, se fosse quebrado, talvez não tivesse volta. Ainda assim, não se mexeu. Parte dela não queria se mover. Leonardo também não. O olhar dele permanecia fixo, intenso, como se estivesse tentando decifrar até onde ela iria, até onde ela permitiria que aquilo chegasse. Havia algo diferente ali, algo menos controlado do que antes, e isso tornava tudo ainda mais instável. — Você devia ir — disse ele por fim, a voz mais baixa, mas ainda firme. Mariana franziu a testa, incomodada com a mudança repentina. — Você acabou de dizer que não quer mais ignorar isso… e agora tá me mandando ir? — respondeu, sem esconder a irritação. Leonardo soltou o ar devagar, passando a mão pelos cabelos, claramente tentando retomar o controle que parecia ter escapado por um momento. — É exatamente por isso — disse ele. A resposta só piorou as coisas. Mariana deu um pequeno passo para trás, finalmente criando espaço entre eles, como se precisasse respirar de novo. — Você faz isso o tempo todo — continuou, mais firme agora. — Fala como se fosse perder o controle, como se fosse atravessar um limite… e depois age como se nada tivesse acontecido. Ele a observou em silêncio, absorvendo cada palavra, sem interromper. — Eu não sei o que você quer — acrescentou ela, cruzando os braços. — E isso tá começando a me cansar. Leonardo demorou alguns segundos antes de responder. Quando falou, o tom já não era o mesmo de antes. Estava mais contido, mais sério. — Eu sei exatamente o que eu quero. Mariana sustentou o olhar dele, desafiando. — Então qual é o problema? O silêncio voltou, mas dessa vez havia hesitação. E aquilo, vindo dele, era raro o suficiente para chamar atenção. — O problema é que você também sabe — respondeu ele. Aquilo a pegou desprevenida. Por um instante, ela não conseguiu reagir. O olhar vacilou, e isso foi o suficiente para ele perceber. — Não começa — disse ela, tentando retomar o controle. — Não joga isso pra mim. — Eu não tô jogando — retrucou ele, firme. — Eu tô sendo claro. — Claro? — ela soltou uma risada breve, sem humor. — Você nunca é claro, Léo. Você sempre fala pela metade. Ele deu um passo na direção dela, mas dessa vez com mais cautela, como se estivesse medindo cada movimento. — Então vou ser agora — disse. O corpo de Mariana reagiu antes que a mente pudesse organizar qualquer defesa. A respiração ficou mais presa, o coração acelerou de novo, mas por um motivo diferente. Havia algo naquele momento que parecia prestes a mudar tudo. Mas não mudou. Um barulho forte vindo do andar de baixo interrompeu tudo de forma brusca. O som seco de algo batendo ecoou pela casa, seguido por vozes alteradas. Não era uma visita comum, nem um simples toque na porta. Era insistente, agressivo, urgente demais para ser ignorado. Os dois se viraram ao mesmo tempo. Mariana sentiu o corpo gelar instantaneamente. Leonardo reagiu primeiro. A expressão dele mudou por completo, voltando àquela postura fria e alerta que ela já tinha visto antes. — Fica aqui — disse ele, direto. — Não — respondeu ela imediatamente, o coração acelerando outra vez. — Eu não vou ficar sem saber o que tá acontecendo. Ele a encarou por um segundo, avaliando, mas não discutiu. Apenas fez um gesto curto com a cabeça. — Então fica atrás de mim. Dessa vez, ela não questionou. Desceram juntos, o clima da casa completamente diferente. Dois seguranças já estavam próximos à entrada, tensos, posicionados como se esperassem por algo. As batidas continuavam, mais fortes, acompanhadas por uma voz masculina do lado de fora, alterada e impaciente. Quando chegaram à sala, Mariana conseguiu ver melhor. Um homem discutia com a segurança do outro lado do portão, claramente irritado. — Abre essa m***a! Eu sei que ele tá aí! — gritou. O coração dela disparou. — Quem é? — perguntou, mais baixo, sem tirar os olhos da cena. Leonardo não respondeu de imediato. Ele parecia analisar tudo com cuidado, como se estivesse tentando prever o que viria a seguir. — Fica aqui — repetiu, mais baixo agora. Mas Mariana não ficou completamente afastada. Avançou o suficiente para continuar vendo e ouvindo. O portão foi aberto. O homem entrou com passos firmes, postura agressiva, como se já tivesse decidido que não sairia dali sem o que queria. Ele parou assim que viu Leonardo, e um sorriso lento surgiu em seu rosto, carregado de ironia. — Finalmente — disse. — Tava começando a achar que você ia se esconder. Leonardo permaneceu imóvel, a expressão completamente fechada. — Você não devia estar aqui — respondeu, frio. — E você devia ter atendido minhas ligações — retrucou o homem, avançando alguns passos. Os seguranças se moveram, mas Leonardo fez um gesto discreto, impedindo qualquer intervenção. — O que você quer? — perguntou, direto. O homem inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando a situação. E então o olhar dele mudou de direção. Passou por Leonardo. E encontrou Mariana. Ela sentiu o impacto na hora. O sorriso dele se alterou, ficando mais lento, mais interessado, como se tivesse encontrado exatamente o que procurava. — Então é ela — disse, com um tom carregado de intenção. O estômago de Mariana revirou. Leonardo se moveu imediatamente, ficando na frente dela, bloqueando completamente a visão. Mas já era tarde. Porque, pela forma como aquele homem olhou para ela, ficou claro que aquilo não era coincidência. Era escolha.
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