Tempestade

930 Palavras
A porta da sala de Leonardo se abriu. Juliana saiu primeiro. Postura impecável, expressão controlada… mas o sorriso no canto da boca denunciava outra coisa. Vitória. Ou, pelo menos, a tentativa de parecer que tinha saído por cima. Ela caminhou devagar até a mesa de Mariana. Parou. — Toma cuidado — disse, inclinando levemente o rosto, como quem dá um conselho amigável… mas não era. — Ele adora mulheres que só servem pra diversão. O olhar dela foi afiado. Calculado. E então ela se afastou, indo embora sem olhar pra trás. Mariana ficou em silêncio. Os dedos sobre o teclado, imóveis por um segundo. Mas ela respirou fundo… e voltou a digitar. Como se não tivesse ouvido. Como se não tivesse sentido. Mas tinha. E muito. — Leonardo saiu logo depois. O olhar foi direto nela. Parado. Pesado. — Vem aqui — disse ele, indicando a sala. Mariana nem levantou o rosto. — Tô ocupada — respondeu, seca. O silêncio veio na mesma hora. Ele ficou ali por um segundo. Dois. — Mariana… — Eu tenho muita coisa pra fazer — repetiu ela, agora olhando rapidamente para ele. — Depois a gente vê isso. O olhar dele endureceu. Mas ele não insistiu. Dessa vez… Ele recuou. — Tá — disse, por fim. E voltou pra sala. Sem forçar. Sem piorar. Mas claramente… Sem gostar. — O expediente terminou arrastado. Pesado. Quando Mariana saiu da empresa, a chuva já caía forte, batendo no chão com intensidade, formando poças por toda parte. Ela parou na entrada, puxando o celular e chamando um carro. Esperou. Cinco minutos. Dez. Quinze. Nada. A chuva começou a diminuir, virando uma garoa leve. Mariana olhou para a rua, pensou por um instante… e tomou uma decisão. — Eu vou andando — murmurou. Guardou o celular e começou a caminhar. Mas não deu nem cinco minutos. A chuva voltou. Forte. Mais intensa do que antes. — Ótimo… — resmungou, já sentindo o cabelo e a roupa começarem a encharcar. Foi então que um carro diminuiu ao lado dela. — Mariana? Ela se virou. Miguel. — Entra — disse ele, abrindo a porta do passageiro. Ela hesitou por um segundo. Mas estava molhada. Cansada. E… precisava de um respiro. Entrou. — Obrigada — disse, fechando a porta. — Você tá maluca de sair andando com esse tempo? — perguntou ele, rindo de leve. — Eu só queria ir embora. Ele olhou de relance pra ela. — Dia difícil? Ela soltou um suspiro. — Nem imagina. O silêncio se instalou por alguns segundos, quebrado apenas pelo som da chuva batendo no carro. — Quer ir direto pra casa? — perguntou ele. Mariana olhou pela janela. Pensou. Sentiu. E respondeu. — Não. Ele arqueou levemente a sobrancelha. — Não? Ela balançou a cabeça. — Eu não quero ir pra casa agora. Miguel hesitou por um instante. — Então… — disse ele — você pode ir lá pra casa. Nada demais. Só… pra esfriar a cabeça. Mariana pensou. Mas, naquele momento… Parecia melhor do que voltar. — Tá — disse ela. — O apartamento de Miguel era simples. Aconchegante. Nada extravagante, mas confortável. Mariana entrou, tirando os sapatos molhados, olhando ao redor. — Gostei daqui — disse ela. — É pequeno, mas dá pro gasto — respondeu ele, sorrindo. Ele trouxe uma toalha pra ela. — Toma… você vai ficar gripada. — Obrigada. Ela secou o cabelo, respirando fundo, sentindo o corpo finalmente relaxar um pouco. — Quer alguma coisa? Água? Café? — Água tá ótimo. Ele entregou o copo, e os dois se sentaram no sofá. O silêncio, dessa vez, não era desconfortável. Era… tranquilo. — Você quer falar sobre o que aconteceu? — perguntou ele, com cuidado. Mariana ficou alguns segundos em silêncio. — Só… foi um dia r**m — respondeu. Ele assentiu. Respeitando. Mas o olhar dele demorou um pouco mais nela. Mais atento. Mais próximo. — Você merece coisa melhor, sabia? — disse ele, mais baixo. Mariana sentiu. Percebeu. — Miguel… Ele se aproximou um pouco. Devagar. Sem pressa. Sem pressão. Mas claro. — Eu sempre quis tentar — disse ele. E então… Tentou. Mas, antes que pudesse encostar nela— Mariana se afastou. Rápido. Firme. — Não — disse, balançando a cabeça. O silêncio caiu na mesma hora. — Eu não sinto isso — completou ela, mais suave, mas ainda firme. — E eu não quero te magoar. Miguel travou por um segundo. Mas logo assentiu. — Tá… — disse ele, respirando fundo. — Desculpa. — Não precisa pedir desculpa. — Preciso sim — respondeu ele. — Eu devia ter respeitado melhor. Mariana deu um pequeno sorriso. — Tá tudo bem. O clima ficou um pouco mais leve novamente. Mas diferente. Mais consciente. — Algum tempo depois, ele a levou para casa. A chuva já tinha diminuído bastante, restando só o chão molhado e o ar frio. O carro parou em frente ao portão. Mas nenhum dos dois saiu imediatamente. — Obrigada por hoje — disse Mariana. — Sempre que precisar — respondeu ele. Ela sorriu de leve. — Você é um bom amigo. Ele sorriu de volta. Mas havia um leve peso ali. — Boa noite, Mariana. — Boa noite. Ela desceu. Caminhou até a porta. Entrou. — E não viu. Mas Leonardo viu. Da janela. O carro. Os dois conversando. O tempo que ela demorou pra descer. O sorriso. Tudo. O maxilar dele travou na mesma hora. O peito apertou de um jeito familiar. Perigoso. O ciúme voltou. Mais forte. Mais difícil de controlar. E, naquele momento… Ele sabia. Aquilo ainda estava longe de acabar.
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