A porta da sala de Leonardo se abriu.
Juliana saiu primeiro.
Postura impecável, expressão controlada… mas o sorriso no canto da boca denunciava outra coisa. Vitória. Ou, pelo menos, a tentativa de parecer que tinha saído por cima.
Ela caminhou devagar até a mesa de Mariana.
Parou.
— Toma cuidado — disse, inclinando levemente o rosto, como quem dá um conselho amigável… mas não era. — Ele adora mulheres que só servem pra diversão.
O olhar dela foi afiado.
Calculado.
E então ela se afastou, indo embora sem olhar pra trás.
Mariana ficou em silêncio.
Os dedos sobre o teclado, imóveis por um segundo.
Mas ela respirou fundo… e voltou a digitar.
Como se não tivesse ouvido.
Como se não tivesse sentido.
Mas tinha.
E muito.
—
Leonardo saiu logo depois.
O olhar foi direto nela.
Parado.
Pesado.
— Vem aqui — disse ele, indicando a sala.
Mariana nem levantou o rosto.
— Tô ocupada — respondeu, seca.
O silêncio veio na mesma hora.
Ele ficou ali por um segundo.
Dois.
— Mariana…
— Eu tenho muita coisa pra fazer — repetiu ela, agora olhando rapidamente para ele. — Depois a gente vê isso.
O olhar dele endureceu.
Mas ele não insistiu.
Dessa vez…
Ele recuou.
— Tá — disse, por fim.
E voltou pra sala.
Sem forçar.
Sem piorar.
Mas claramente…
Sem gostar.
—
O expediente terminou arrastado.
Pesado.
Quando Mariana saiu da empresa, a chuva já caía forte, batendo no chão com intensidade, formando poças por toda parte.
Ela parou na entrada, puxando o celular e chamando um carro.
Esperou.
Cinco minutos.
Dez.
Quinze.
Nada.
A chuva começou a diminuir, virando uma garoa leve. Mariana olhou para a rua, pensou por um instante… e tomou uma decisão.
— Eu vou andando — murmurou.
Guardou o celular e começou a caminhar.
Mas não deu nem cinco minutos.
A chuva voltou.
Forte.
Mais intensa do que antes.
— Ótimo… — resmungou, já sentindo o cabelo e a roupa começarem a encharcar.
Foi então que um carro diminuiu ao lado dela.
— Mariana?
Ela se virou.
Miguel.
— Entra — disse ele, abrindo a porta do passageiro.
Ela hesitou por um segundo.
Mas estava molhada.
Cansada.
E… precisava de um respiro.
Entrou.
— Obrigada — disse, fechando a porta.
— Você tá maluca de sair andando com esse tempo? — perguntou ele, rindo de leve.
— Eu só queria ir embora.
Ele olhou de relance pra ela.
— Dia difícil?
Ela soltou um suspiro.
— Nem imagina.
O silêncio se instalou por alguns segundos, quebrado apenas pelo som da chuva batendo no carro.
— Quer ir direto pra casa? — perguntou ele.
Mariana olhou pela janela.
Pensou.
Sentiu.
E respondeu.
— Não.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Não?
Ela balançou a cabeça.
— Eu não quero ir pra casa agora.
Miguel hesitou por um instante.
— Então… — disse ele — você pode ir lá pra casa. Nada demais. Só… pra esfriar a cabeça.
Mariana pensou.
Mas, naquele momento…
Parecia melhor do que voltar.
— Tá — disse ela.
—
O apartamento de Miguel era simples.
Aconchegante.
Nada extravagante, mas confortável.
Mariana entrou, tirando os sapatos molhados, olhando ao redor.
— Gostei daqui — disse ela.
— É pequeno, mas dá pro gasto — respondeu ele, sorrindo.
Ele trouxe uma toalha pra ela.
— Toma… você vai ficar gripada.
— Obrigada.
Ela secou o cabelo, respirando fundo, sentindo o corpo finalmente relaxar um pouco.
— Quer alguma coisa? Água? Café?
— Água tá ótimo.
Ele entregou o copo, e os dois se sentaram no sofá.
O silêncio, dessa vez, não era desconfortável.
Era… tranquilo.
— Você quer falar sobre o que aconteceu? — perguntou ele, com cuidado.
Mariana ficou alguns segundos em silêncio.
— Só… foi um dia r**m — respondeu.
Ele assentiu.
Respeitando.
Mas o olhar dele demorou um pouco mais nela.
Mais atento.
Mais próximo.
— Você merece coisa melhor, sabia? — disse ele, mais baixo.
Mariana sentiu.
Percebeu.
— Miguel…
Ele se aproximou um pouco.
Devagar.
Sem pressa.
Sem pressão.
Mas claro.
— Eu sempre quis tentar — disse ele.
E então…
Tentou.
Mas, antes que pudesse encostar nela—
Mariana se afastou.
Rápido.
Firme.
— Não — disse, balançando a cabeça.
O silêncio caiu na mesma hora.
— Eu não sinto isso — completou ela, mais suave, mas ainda firme. — E eu não quero te magoar.
Miguel travou por um segundo.
Mas logo assentiu.
— Tá… — disse ele, respirando fundo. — Desculpa.
— Não precisa pedir desculpa.
— Preciso sim — respondeu ele. — Eu devia ter respeitado melhor.
Mariana deu um pequeno sorriso.
— Tá tudo bem.
O clima ficou um pouco mais leve novamente.
Mas diferente.
Mais consciente.
—
Algum tempo depois, ele a levou para casa.
A chuva já tinha diminuído bastante, restando só o chão molhado e o ar frio.
O carro parou em frente ao portão.
Mas nenhum dos dois saiu imediatamente.
— Obrigada por hoje — disse Mariana.
— Sempre que precisar — respondeu ele.
Ela sorriu de leve.
— Você é um bom amigo.
Ele sorriu de volta.
Mas havia um leve peso ali.
— Boa noite, Mariana.
— Boa noite.
Ela desceu.
Caminhou até a porta.
Entrou.
—
E não viu.
Mas Leonardo viu.
Da janela.
O carro.
Os dois conversando.
O tempo que ela demorou pra descer.
O sorriso.
Tudo.
O maxilar dele travou na mesma hora.
O peito apertou de um jeito familiar.
Perigoso.
O ciúme voltou.
Mais forte.
Mais difícil de controlar.
E, naquele momento…
Ele sabia.
Aquilo ainda estava longe de acabar.