Quebra de expectativas

1251 Palavras
O silêncio no quarto agora era outro. Não pesado. Não tenso. Era… confortável. Mariana estava deitada sobre o peito de Leonardo, o corpo ainda aquecido, a respiração já mais tranquila, enquanto os dedos dela desenhavam linhas distraídas pela pele dele. O braço dele estava ao redor dela, firme, como se não quisesse soltar. Por alguns minutos, nenhum dos dois falou nada. E, pela primeira vez… O silêncio não incomodava. — Você sempre dorme assim? — murmurou ela, com um pequeno sorriso. — Assim como? — respondeu ele, a voz rouca, baixa. — Sem roupa… e com essa cara de quem não se importa com nada. Ele soltou uma leve risada pelo nariz. — Só quando vale a pena. Ela ergueu o rosto para olhar pra ele, o sorriso ainda ali. — Convencido. — Realista — corrigiu ele. Mariana riu de leve, apoiando o queixo no peito dele. — Eu nunca imaginei isso — disse ela, mais tranquila agora. — Isso o quê? Ela hesitou por um segundo, mas respondeu. — A gente… assim. O olhar dele ficou mais sério, mas não pesado. — Eu imaginei — disse ele. Ela arqueou a sobrancelha, surpresa. — Imaginou? — Muitas vezes. O coração dela deu um pequeno salto. — E nunca fez nada? Ele soltou o ar devagar. — Porque eu sabia que, se começasse… não ia conseguir parar. O silêncio voltou, mas agora carregado de outra coisa. Mais íntima. Mariana sorriu de leve, encostando o rosto de novo nele. — Ainda bem que não parou — murmurou. Ele não respondeu. Mas o braço ao redor dela apertou um pouco mais. E isso foi resposta suficiente. Eles ficaram assim por um tempo, conversando sobre coisas leves, lembranças antigas, histórias que só eles entendiam. Riram juntos, sem peso, sem conflito, como se por algumas horas tudo tivesse voltado ao lugar certo. Como se fosse possível. Como se fosse simples. Mas não era. — Quando Mariana acordou, o quarto estava silencioso. Claro demais. Ela piscou algumas vezes, ainda sonolenta, sentindo o espaço vazio ao lado antes mesmo de abrir completamente os olhos. E então percebeu. Estava sozinha. O sorriso que começou a surgir morreu ali mesmo. O peito apertou de leve enquanto ela se sentava na cama, passando a mão pelos cabelos soltos. O lençol ainda carregava o calor recente, mas ele já não estava ali. — Claro… — murmurou, quase sem voz. A mente dela foi rápida em preencher o vazio. Arrependimento. Distância. Frieza. Ela puxou o ar fundo, se levantando devagar. Vestiu a primeira coisa que encontrou — a camisa social branca dele, larga no corpo, caindo sobre as coxas — e caminhou até a porta. Não queria pensar. Não queria sentir. Mas já estava sentindo. Quando saiu no corredor, vozes vindas de baixo chamaram sua atenção. Uma feminina. Forte. Imponente. Mariana franziu a testa e caminhou até o topo da escada, parando antes de descer. E então viu. Leonardo estava lá embaixo. E não estava sozinho. A mulher à frente dele era bonita. Elegante. Postura firme, olhar direto, daqueles que não pedem espaço — ocupam. O jeito como falava, alto e seguro, deixava claro que não era qualquer uma. — Você não pode simplesmente me dispensar assim — dizia ela, irritada. Leonardo estava tenso. — Já foi resolvido — respondeu ele, seco. — Resolvido pra você — retrucou ela. — Porque até ontem isso aqui tava bem resolvido pra mim também. O estômago de Mariana revirou. — Isso acabou — disse Leonardo, firme. A mulher deu uma risada curta, descrente. — Engraçado… você nunca teve problema com isso antes. Foi então que ela levantou o olhar. E viu Mariana. Parada na escada. Vestindo a camisa dele. O silêncio caiu por um segundo. E então o sorriso da mulher mudou. — Ah… — disse ela, lentamente. — Agora eu entendi. Mariana sentiu o corpo enrijecer. — Então é isso — continuou a mulher, analisando. — Mais uma. Aquilo bateu direto. — Não é isso — cortou Leonardo na hora. Mas Mariana já estava olhando. E já estava entendendo do pior jeito. — Claro que é — disse a mulher, sem desviar o olhar dela. — Você só trocou de distração. Mas pelo visto resolveu inovar… agora é uma menininha com cara de inocente. Aquilo doeu. Mais do que devia. Mais do que Mariana queria admitir. Antes que Leonardo pudesse reagir, a mulher deu um passo à frente e, sem aviso, puxou o rosto dele, beijando à força. Rápido. Mas suficiente. Suficiente pra quebrar tudo. Mariana sentiu como se o chão tivesse sumido. Leonardo a afastou na mesma hora. — Já chega — disse ele, irritado. — Relaxa — respondeu a mulher, com um meio sorriso. — Eu já entendi meu lugar. Ela voltou a olhar para Mariana. — Boa sorte — disse, antes de sair. A porta bateu. O silêncio ficou. Mas agora era insuportável. Mariana desceu as escadas devagar, o coração apertado, a expressão completamente diferente da noite anterior. — Mariana… — começou Leonardo. — Não — cortou ela na hora. A voz saiu firme. Mas carregada. — Você não precisa explicar — disse ela. — Preciso sim — retrucou ele, se aproximando. — Não é o que você tá pensando. Ela riu sem humor. — Não? — rebateu. — Então o que é, Léo? Porque pra mim tá bem claro. Ele passou a mão pelo cabelo, irritado. — Aquilo não significa nada. — Exatamente — disse ela, mais alta agora. — Não significa nada. Igual provavelmente nunca significou com nenhuma. O olhar dele endureceu. — Você não é “nenhuma”. — Eu sou o quê então? — desafiou ela. — Só mais uma que você resolveu pegar… e depois fingir que não aconteceu? Aquilo atingiu. — Não fala assim — disse ele, mais sério. — Por quê? — insistiu ela. — Porque dói ouvir? Imagina viver isso então. O silêncio ficou pesado. — Eu não vou ser mais uma na sua lista, Leonardo — disse ela, firme. — Você não é — respondeu ele na mesma hora. — Então prova — retrucou ela. Ele travou. Por um segundo. E foi o suficiente. Mariana assentiu devagar, como se tivesse entendido tudo ali. — Esquece — disse ela, a voz mais baixa agora. — Esquece o que aconteceu ontem. — Mariana— — Esquece — repetiu, já virando as costas. E subiu. Deixando ele ali. Sem resposta. — Mais tarde, a campainha tocou. Mariana abriu a porta e encontrou a mãe. Cláudia. O alívio veio rápido, mas não durou muito. — Mãe… — disse ela, abraçando. — Minha filha… — respondeu Cláudia, apertando ela. Elas se afastaram, e Mariana franziu a testa. — Por que você demorou tanto pra vir? Cláudia suspirou, entrando. — Eu fiquei em um hotel… — disse. — Ainda não me sinto pronta pra voltar pra essa casa. O olhar dela percorreu o ambiente. — Tem muita coisa aqui… muita lembrança do seu padrasto. Mariana assentiu, entendendo. — Eu imaginei. Cláudia voltou o olhar para ela, mais atenta agora. — Você não tá bem. Mariana forçou um pequeno sorriso. — Impressão sua. A mãe estreitou levemente os olhos. — Eu te conheço. Mariana desviou o olhar. — Eu tô bem, mãe. Cláudia suspirou, mas não insistiu. — Pelo menos eu sei que você tá segura aqui — disse. — O Leonardo pode ser muita coisa… mas ele sempre protegeu você. Aquilo atingiu. Fundo. Mariana engoliu em seco. Porque, naquele momento… Ser protegida… Era exatamente o que mais doía.
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