Estou segura?

1224 Palavras
Sentia-me como um alienígena, com os olhares curiosos e fascinados de Ivy. Era como se a jovem estivesse observando um documentário da vida selvagem no Animal Planet; qualquer ação minha provocava olhares surpresos e sons de espanto. Com minha visão periférica, conseguia observar suas expressões faciais. Ela era realmente muito espontânea, e seu rosto denunciava seus pensamentos. Diferente de muitas pessoas que conheci na vida, não sentia maldade nem malícia em sua observação. Era mais algo curioso, como se ela nunca tivesse visto outra pessoa antes. Algo irônico, pois até onde eu sabia, ela pertencia a uma espécie chamada "alcatéia". — Ivy... Querida. – Meu tom de voz calmo chamou sua atenção. Larguei meu prato de sopa e a encarei antes de lançar um olhar sarcástico. – Não acha melhor tirar uma foto? Vai durar mais! Ivy inclinou a cabeça para o lado, como um pequeno cão tentando entender as ordens de seu dono. Sua expressão confusa era extremamente adorável, quase me fazendo sentir culpa pelos pensamentos cruéis que tive durante minha refeição. Soltei todo o ar dos meus pulmões lentamente, em busca de organizar meu corpo e mente. Precisava achar as palavras certas e não ser grosseira com essa criatura adorável. — Não entendi. – Sua voz saiu de forma delicada. A confusão em seu rosto deixava claro que ela não fazia a mínima ideia do que eu acabara de dizer. – Foto? — Nunca ouviu essa expressão? – Fiquei incrédula ao vê-la negar com a cabeça. – É algo que geralmente as pessoas dizem quando alguém fica as encarando por muito tempo. Ivy balançou a cabeça em concordância, finalmente entendendo a referência. — Ah, entendi. – Seu sorriso fez suas bochechas ficarem mais gordinhas do que o habitual. Suspirei aliviada, pois estava começando a achar que eles eram algum tipo de malucos. – Mas o que seria essa tal de foto? Meu sorriso desapareceu, dando lugar a uma expressão de puro desespero. Acho que isso ficou evidente dada a sua reação preocupada. — Senhorita Violet, você está bem? – Sua voz preocupada diminuiu minha incredulidade. – Aconteceu alguma coisa? — Você não conhece uma fotografia? – Ivy negou com a cabeça. – Smartphones? Chromebook? – Seu olhar confuso me causou uma risada nervosa. – Nada? — Lamento, senhorita. – Ivy sorriu satisfeita ao ver que eu havia conseguido comer todas as frutas e a sopa. – Esses conhecimentos do mundo dos humanos não são ensinados a nós, moonhowlers. Informações do mundo exterior sempre são passadas primeiro aos mais velhos, e qualquer informação sobre os humanos é proibida de ser fornecida a um filhote. Abri e fechei minha boca várias vezes. Não sabia como reagir à sua resposta. Isso era algum tipo de culto hippie? Seria Dylan um líder? Minha cabeça estava fervendo com tantas informações e teorias. Eles eram loucos, isso era um fato incontestável; como poderia alguém em sã consciência se isolar no meio de uma floresta perigosa? Pior ainda, como poderiam não se considerar humanos? De repente, uma coisa me chamou a atenção. Ivy disse "filhotes", então, ela era uma criança ou algo do gênero? Isso não podia estar certo, sua aparência era de uma mulher adulta, com esses olhos encantadores, sorriso cativante e corpo repleto de curvas. — Ivy, quantos anos você tem? Ela fez uma expressão como se estivesse tentando se lembrar e depois riu envergonhada. — Aqui medimos nossa idade por ciclos lunares. – Ivy se afastou da cama levando minha bandeja de comida até a cômoda. Ela serviu um copo de água e me entregou, sorri agradecida antes de bebê-lo. Ela se sentou na beirada da cama e começou a verificar minha perna. – Eu já passei por 186 ciclos lunares. Fiquei em silêncio por alguns minutos, enquanto fazia esse cálculo em minha mente. — Espera, você tem 15 anos? – Meu grito a assustou, e Ivy esbarrou em minha perna, me fazendo gemer de dor. — Desculpa... Eu não quis machucá-la. – Suas bochechas coraram. – É que me assustei. — Me desculpe, Ivy. Não foi minha intenção reagir daquela forma. – Suspiro profundamente, tentando me acalmar da dor em minha perna. – É que... bem, você tem uma aparência de corpo bem desenvolvido para a idade. Por isso, achei que você fosse mais velha do que eu. Ivy ri suavemente, mas sua risada é gentil e não parece zombar de mim. — Entendo o que você quer dizer. – Ela sorri com simpatia. – Mas aqui, o desenvolvimento do nosso corpo é diferente dos humanos. Aos 15 anos, os moonhowlers têm uma aparência mais madura. Nosso processo de crescimento é acelerado de certa forma. Eu fico quieta por um momento, processando as informações. Olho para Ivy, que parece tão sincera em suas palavras, e começo a considerar que talvez a história deles não serem humanos possa ser real. Enquanto pondero sobre tudo isso, começo a ouvir vozes alteradas do lado de fora. Sons de discussões, gritos e rosnados chegam até mim. Olho para Ivy, preocupada. — O que está acontecendo lá fora? – Pergunto, sentindo meu coração acelerar. Ivy suspira tristemente e olha para baixo por um momento antes de responder. — Todos estão muito tensos ultimamente. A maldição tem tornado as coisas mais difíceis a cada dia. E o adoecimento de Ayla só piorou a situação. As coisas não têm sido fáceis para nenhum de nós. Enquanto Ivy fala, ouço sons de objetos quebrando e gritos mais intensos. Meus olhos se arregalam e eu me viro na direção do barulho. Parece que a situação está ficando fora de controle lá fora. — O que está acontecendo? – Pergunto, alarmada. Ivy olha para a porta com uma expressão triste. — Parece que as coisas estão piorando. – Ela pareceu lutar contra suas próprias emoções antes de continuar. – As tensões estão altas e, às vezes, isso acaba resultando em confrontos. Conforme os sons de tumulto aumentam do lado de fora, meu nervosismo cresce. Eu não sei exatamente o que esperar, mas a atmosfera tensa está me deixando apreensiva. — Ivy, você acha que eu estou segura aqui? – Pergunto, minha voz trêmula. Ivy olha para mim, seus olhos refletindo uma preocupação genuína. — Nós não queremos te machucar, Violet. Você está sob a proteção de Alaric e ele não permitiria que nada acontecesse com você. Mas... – Ela pareceu escolher as palavras cuidadosamente. – É melhor você ficar aqui por enquanto, até que as coisas se acalmem lá fora. Sinto meu coração bater mais rápido. A situação está cada vez mais intensa e não sei ao certo como lidar com tudo isso. Olho para Ivy, buscando algum tipo de conforto em seu olhar. Ela parece estar passando por um conflito interno entre suas próprias emoções. Então, um som alto de algo quebrando e um grito de raiva ecoam pelos corredores. Ivy suspira pesadamente. — Eu preciso ir lá fora e tentar acalmar as coisas. – Ela se levanta, mas antes de sair, ela olha para mim com uma expressão triste. – Por favor, fique aqui e se mantenha segura. Eu voltarei assim que puder. Com isso, ela sai do quarto, deixando-me sozinha com meus pensamentos e preocupações crescentes. Enquanto os sons do caos lá fora continuam, eu me sinto mais uma vez como uma estranha em um mundo completamente diferente do que eu conhecia.
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