Assim que meu salto acertou entre as pernas dele, o homem largou tudo que estava segurando e caiu no chão, se contorcendo de dor e gritando. A cena chamou a atenção de todos na rodoviária, exatamente o que eu precisava: um bom público que gostasse de fazer justiça com as próprias mãos.
— Socorro! Me ajudem. Esses homens estão tentando me sequestrar! — gritei desesperadamente, me encolhendo no chão. Não era medo, mas precisava parecer o mais convincente possível para não ser levada antes que a população capturasse todos eles.
Senti um desespero momentâneo ao sentir uma mão puxando meu braço, mas continuei gritando, colocando toda a minha força para me manter no lugar e orando por ajuda. Não demorou muito para que a situação se invertesse. Em questão de segundos, os homens foram pegos pela multidão, que os chutava sem piedade enquanto os arrastavam até um poste para prendê-los. Sempre acontecia isso quando um ladrão ou estuprador era pego na cidade.
Assim que percebi que todos haviam sido capturados, aceitei a ajuda de algumas senhoras que tentavam me acalmar e me tirar do chão, preocupadas com minha situação. Por sorte, ainda havia pessoas boas naquela pequena cidade. Olhei para minha irmã, que me observava aliviada de longe e já vinha em minha direção. Acenei para que não viesse. Sem pensar duas vezes, entrei no ônibus.
Não havia mais lugar para mim naquela cidade. Chorar por ter perdido tudo não iria adiantar. Eu tinha que fazer como minha irmã disse e recuperar tudo o que perdi. Sentei na poltrona ao lado da janela, completamente decidida. Se havia alguma dúvida sobre aquele plano, a facada que levei mudou tudo.
Achei que iria chorar, podia sentir o nó na garganta, mas ver aqueles homens apanhando da população enquanto gritavam algo que não conseguia ouvir por conta da distância, com a polícia assistindo sem fazer nada, me fez entender que aquela cidade não tinha mais lugar para mim e que a vingança era necessária, já as lágrimas não.
Engoli o choro com um remédio para dor e a água de uma garrafinha que carregava. Fui ao banheiro para estancar o sangue e trocar de roupa. Como havia poucas pessoas no ônibus, e a maioria estava com sono demais para notar qualquer coisa, ninguém percebeu que meu vestido estava encharcada de sangue.
Finalmente, o ônibus partiu. A multidão ainda estava reunida fazendo justiça. Minha irmã assistia a tudo atenta. Pensei que a dor diminuiria depois de tomar o remédio, mas estava enganada; ela só aumentou. Além disso, comecei a me sentir muito fria e tonta. Tentei dormir um pouco, pensando que os sintomas tinham relação com o enjoo da viagem e que só precisava de um cochilo, mas estava errada.
Foram longas e intermináveis duas horas de viagem. Nem acreditei quando o ônibus parou na rodoviária. Ao me levantar, senti o mundo girar ao meu redor. Mesmo assim, continuei andando em direção à porta, me apoiando nos bancos e dando um passo de cada vez. Eu só precisava encontrar uma farmácia.
Desci do ônibus e olhei ao redor. A rodoviária era imensa e completamente lotada, bem diferente da cidade onde nasci. Meu coração acelerou. Não sabia ao certo o que fazer primeiro. Em todos os meus 20 anos, nunca havia estado ali.
Dei um passo à frente, tentando ver melhor o lugar, mas minha visão ficou turva. Senti alguém esbarrar em mim com força. Minhas pernas e meu corpo inteiro estavam fracos, e não consegui evitar cair no chão.
— Hey! Hey! Você consegue me ouvir? — ouvi uma voz masculina desconhecida gritando por mim. Ao mesmo tempo que parecia estar perto de mim, eu tinha a impressão que estava bastante distante. Não conseguia ver quem era, minha visão estava escurecendo. Minha consciência já estava me abandonando pouco a pouco. — Chamem uma ambulância! Ela está ferida. Meu Deus, quanto sangue...
Queria gritar que estava bem, que não era necessário nada disso, mas não tive forças. Eu não estava bem, era óbvio. Não havia como negar naquela situação. Apenas peguei no sono completo enquanto um desconhecido me carregava nos braços. Essa foi a última lembrança que tive antes de perder completamente a consciência. Deixando minha vida nas mãos de uma pessoa completamente desconhecida para mim. Não que eu tivesse alguma escolha naquele momento.
Não sei quanto tempo dormi, mas quando despertei, estava em uma cama desconhecida. O cheiro característico de hospital e todos os equipamentos ao meu redor deixavam claro onde eu estava, embora ainda fosse confuso como acabei ali.
— Onde estou? — perguntei a uma senhora sentada em uma cadeira à minha frente, tomando soro.
— Você está na UPA. Seu marido te trouxe. Ele estava bem nervoso — explicou a senhora com um sorriso animado. — Ele é bem bonito. Combina com você. É raro ver mulheres com cabelos castanhos tão cacheados. Hoje em dia, todo mundo alisa o cabelo. É raro encontrar uma mocinha com uma beleza tão natural.
— Ah! Obrigada — respondi. Eu não tinha muito do que reclamar sobre minha aparência: pele impecável, longos cílios, um corpo bonito, e meus cachos eram lindos, quando acordavam de bom humor. Esse não era o problema, mas quem diabos era o meu marido?
— Aretuza, sua vez de fazer o raio-x. Podemos ir? — perguntou uma mulher baixinha, facilmente confundida com uma criança, usando jaleco e crachá, ao entrar na sala.
— Claro — disse a senhora, me olhando com um sorriso. — Melhoras, minha querida. Bem, com um marido daqueles, acho difícil não melhorar.
Fiquei sem jeito. Não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo. Apenas sorri e acenei, como aprendi com os pinguins de um desenho animado. Olhei ao meu redor. Todos os outros pacientes do quarto estavam dormindo. Na verdade, parecia mais o espaço da enfermeira do que um quarto.
— Senhor policial, não há muito o que fazer sobre a situação. Não sei quem é aquela mulher. Eu estava passando quando a vi desequilibrar ao trombar com um homem na rodoviária. Não tenho certeza se foi ele que a esfaqueou, mas com toda certeza a ferida na barriga dela foi causada por uma faca. E, sendo sincero, parecia que ela tentou estancar com um pedaço de tecido. O sangue parecia ser antigo. Se eu tivesse que dizer, tenho certeza que é uma ferida antiga. Talvez tenha se ferido no ônibus — ouvi uma voz que parecia familiar, mas não conseguia identificar de onde.
— Talvez ela estivesse fugindo ou sendo vítima de agressão, talvez roubo. Ainda não temos como dizer se ela é inocente. É estranho alguém ferido não buscar socorro e viajar dentro de um ônibus. Assim que ela acordar, nos chame. Iremos recolher o documento dela e também suas informações, para investigar e descobrir o que realmente aconteceu — respondeu outro homem com a voz bem mais grossa.
Levantei na mesma hora, sentando na cama e tirando o soro do braço sem pensar duas vezes. Procurei ao redor uma janela para sair, mas não achei nada. Havia apenas uma porta de saída e outra do banheiro.
— Vale a pena tentar — murmurei, puxando minha bolsa que estava em cima de um móvel e partindo em direção à porta do banheiro, na esperança de encontrar uma janela.
Entrei no banheiro com os olhos fechados, mas os abri assim que ouvi as vozes dos homens entrando no quarto onde eu estava. Nervosa, olhei ao redor buscando por uma janela. Havia uma exatamente ao lado do vaso sanitário. Era bem alta e estreita.
— Ela desapareceu? — perguntou a voz conhecida, soando preocupada. — Para onde ela foi? Ela não deveria estar em condições de andar.
— Talvez tenha acordado e fugido, isso prova que ela realmente não é a vítima aqui, mas ainda assim, estávamos na porta. Não tinha como passar por nós. Espera, talvez ela esteja no banheiro — disse o homem com voz grossa, e pude ouvir os passos pesados se aproximando.
Olhei para a porta nervosa. Tranquei e coloquei um móvel na frente. Não ia demorar muito para eles conseguirem abrir, mas eu esperava ter tempo suficiente para pular aquela janela. Sem pensar duas vezes, subi no vaso, me agarrei na janela e puxei meu corpo para o outro lado. Pude sentir algo rasgando na minha barriga.
Consegui passar, mas acabei caindo com tudo no lixo que estava debaixo da janela. Por um lado, diminuiu o impacto da queda; por outro, acabei cortando minha mão com um caco de vidro. Ao ouvir uma pancada forte vindo do lado de dentro, me levantei rapidamente.
— Ela não está aqui. A janela está aberta. Acho que escapou por aqui. Vamos! Temos que ir atrás dela — gritou o homem.
— Cuidado! Ela está ferida. Precisa de tratamento e não pode fazer esforço. Perdeu muito sangue. Ela levou quatro pontos. Tenham cuidado — disse a voz familiar, parecendo estar na janela.
Não olhei para trás. Tinha amor à vida. Corri como nunca correra antes. Nem sabia que tinha tanto potencial para atletismo, mas, em questão de segundos, estava no ponto de táxi.
— Licença! Pode me levar até este endereço? — pedi, mostrando o endereço na tela do meu celular.
— Ah, claro. Fica bem longe daqui. Já fui deixar um deputado lá um dia desses. É um condomínio de granfinos, né? Não tinha como esquecer o nome. Condomínio Boa Vista, mas a vista é realmente linda! — disse o taxista animado, depois me olhou dos pés à cabeça e sorriu. — Vamos! Entre. Vai ser uma longa viagem.
Entrei na mesma hora. Quanto mais tempo ficasse do lado de fora, maior o risco de ser pega. Dentro do carro, não pude deixar de pensar: será que minha tia trabalhava nesse condomínio de rico? Para ser sincera, não sabia muito sobre minha tia, apenas que ela era casada, tinha filhas gêmeas e odiava a família Lima com todas as suas forças. m*l sabia eu que o que me esperava naquele lugar mudaria completamente o rumo de toda a minha vida.