Uma criança aqui?

2003 Palavras
De alguma forma, a mulher ficou completamente paralisada me olhando visivelmente confusa, mas assim que voltou a si, retomou a sua postura enquanto descia as escadas vindo ao meu encontro. — Repete. Acho que entendi errado o que acabou de dizer. — A senhora que era visivelmente bem arrumada e claramente a dona da casa me perguntou. Fiquei com medo de colocar a minha tia em risco, mas ainda assim, eu repeti, não por maldade, mas por falta de opção. Não havia como ou para onde retornar. — Vim até aqui a pedido da minha mãe, Serena. Eu me chamo Eduarda. Estou aqui procurando por minha tia, Joana Sales. Peço desculpa todo transtorno, mas é urgente. Assuntos de família. — Óbvio que não ia contar que estava fugindo da polícia e me escondi aqui. Nem muito menos que tinha intensão de me vingar das pessoas que mataram a minha mãe. — Penélope e as outras, voltem ao trabalho de vocês. Vejam se o meu marido precisa de algo e resolvam. E limpem o quarto da minha filha, ela está voltando hoje. E você, Eduarda, me siga. Vamos conversar no meu escritório. — A senhora acenou para as funcionárias, enquanto caminhava até o escritório. O lugar era repleto de livros. Bem a biblioteca da escola que eu estudei era assim. Me senti em outro mundo. O resto da sala era bem comum, um estofado, duas poltronas, havia a mesa com alguns porta-retratos. — Eu sou Joana Sales, a pessoa eu você procura, mas deve ser uma confusão, garota. Eu não conheço essa tal de Serena. Vejo que está com algumas dificuldades. Pedirei que o meu motorista leve você até em casa. Não sei o que está acontecendo, mas não posso ajudar. — Joana não me olhava nos olhos. E era óbvio que se tratava de uma mentira, afinal, assim que ouviu o nome da minha mãe ela travou na escada. — Não sei a razão da sua mentira, mas eu confio plenamente na minha mãe. Ela não cometeria um erro desse. — Sim, eu me irritei. Era a irmã dela. Mesmo assim, ainda estava negando que conhecia ela. — Essas foram as últimas palavras da minha mãe antes dela falecer. Me pediu para que procurasse você. Confiou a minha segurança e da minha irmã a você. E ainda assim, você a n**a, como se fosse uma vergonha ou um erro. Quando ela claramente não apenas gostava de você, como confiava fielmente a ponto de enviar as suas filhas até aqui. Você não se sente envergonhada? — O quê? Serena faleceu? Isso não pode ser verdade... — O semblante de Joana ficou dar cor de papel, se apoiando, como se estivesse a ponto de desmaiar, ela sentou no sofá, me olhando completamente chocada com a notícia. — Infelizmente, houve um incêndio na fazenda, a nossa casa foi consumida pelo fogo. Cheguei a tempo de tirar ela da casa, mas já era tarde demais. Ela não resistiu. — Expliquei sentindo um nó na garganta. A dor da partida ainda era enorme. Sempre que eu pensava, o sentimento se abria dentro de mim, como um enorme abismo. Me consumindo completamente. — Não posso acreditar. Faz alguns anos que não vejo minha irmã. Acho que a última vez, trocando algumas cartas, ela me mandou foto de você e da sua irmã. Estava feliz que as duas estavam crescendo saudáveis. No passado, passei por muita dificuldade, a sua mãe me ajudou muito. Éramos boas irmãs. Se não fosse por ela, não sei como estaria a minha vida agora. Me sinto completamente destruída por saber da sua partida. — Joana parecia realmente sincera, embora ainda me incomodasse bastante o fato dela ter negado a minha mãe. — Você veio aqui para me contar a notícia? — Na verdade, não foi bem isso. Após a morte da minha mãe, fui expulsa e demitida da fazenda. Não tenho onde ficar. E eu só tinha minha mãe para me ajudar. Sendo sincera, eu nem sabia que ela tinha uma irmã. Só descobri porque minha irmã me falou. — Expliquei triste. A minha situação era terrível. Talvez eu não fosse qualificada nem para conseguir um bom trabalho na capital. — Não entendo. O que você fez para ser expulsa? Tenho certeza que o chefe da família tinha muito carinho e respeito pela mãe de vocês. Jamais que deixaria que as filhas dela ficassem nessa situação. — Joana me olhou de forma suspeita, como se tivesse desconfiando de mim. Que piada, né? Ela n**a a minha mãe e ainda me olha desconfiada. Contei cada detalhe do que havia acontecido na fazenda nos últimos dias com o falecimento do senhor Pedro. Assim como a morte do chefe da casa. Quem tinha assumido a fazenda havia sido Heitor, e também quem a expulsou. — E por acaso você tinha algum problema com Heitor? — Joana me perguntou. Até pensei um pouco sobre o assunto, mas era impossível. Não tinha contato com nenhum dos netos. Era raro ver qualquer um deles. O que me fez pensar ainda mais que a razão da demissão também estava relacionado com o que aconteceu antes da morte da sua mãe. — Na verdade, não. Soube da demissão por um outro funcionário, eu havia acabado de enterrar a minha mãe. Não tinha qualquer justificativa para a demissão. E quanto mais penso nisso, mas eu acho que tem algo de errado. No dia do incêndio, a minha mãe chegou mais cedo visivelmente nervosa, me contou que tinha descoberto histórias horríveis sobre a nora e o neto do senhor Pedro, mas ela não conseguiu me contar, já que Heitor chegou gritando e batendo na porta desesperadamente. A minha mãe insistiu que eu fosse na cidade. Como tava desconfiada fui e voltei o mais rápido possível. Quando voltei a casa já estava completamente dominada pelo fogo. — Expliquei sem dizer com todas as letras que desconfiava do envolvimento de Heitor na morte da minha mãe. — Espera. Espera. Está me dizendo que o Heitor, herdeiro e novo chefe da família Lima é o culpado pela morte de sua mãe? Quer dizer que a maldita família Lima tem culpa da morte da minha irmã? — Joana me olhou surpresa. Ela conhecia muito bem aquela família. Muito mais do que eu podia imaginar, mas logo descobriria quantos segredos tentaram esconder com a morte da minha mãe. Era apenas uma questão de tempo. Tinha apenas a suspeita do envolvimento da família Lima na morte da minha mãe, não havia prova. Se eu tivesse, a primeira coisa que eu faria era ir à delegacia. Mesmo assim, eles são poderosos o suficiente para comprar a polícia. Assim como a minha irmã disse, a única forma de vencer eles é jogar no mesmo nível. — Não tenho certeza, mas algo com toda a certeza estava errado naquele dia. A minha mãe estava muito assustada e nervosa. E eu tenho certeza que ouvi ela dizer que havia descoberto algo horrível relacionado ao Heitor e mãe dele. Não parece estranho? Depois de dizer isso, um homem que nunca foi na nossa casa e que desde de pequeno ignorava a minha mãe surgir batendo na nossa porta gritando por ela com um tom irritado? Um pouco antes da nossa casa pegar fogo misteriosamente? — Precisava da minha tia ao meu lado. Para isso, tinha que deixar claro as minhas suspeitas. Sem acabar comprometendo a confiança que tinha em mim. Se é que ela tinha alguma. — Sim, a história realmente parece estranha. — Joana estava completamente incrédula com o que estava ouvindo. Era evidente a sua dificuldade para aceitar o que estava ouvindo. — De toda a forma, você deve estar cansada. Suba e descanse um pouco. Verei o que podemos fazer mais tarde. São muitas informações. Eu preciso respirar um pouco também e digerir tudo que me disse. Enquanto caminhava até a porta para falar com a funcionária que estava no outro cómodo — Penélope, acompanhe Eduarda até o quarto de hóspedes. Faça o que for necessário para que ela se sinta confortável. Pegue algumas roupas da minha filha e empreste para ela. Vejo que ela está apenas com uma bolsa de mão. — Sim, senhora. Irei fazer isso agora. Precisamos que a senhora defina o jantar. O seu genro deve jantar essa noite aqui. — Penélope respondeu se aproximando de Joana. — Farei isso agora. Licença, Eduarda. Conversamos mais tarde sobre o assunto. — Joana estava completamente desnorteada. Embora odiasse a família Lima desde o começo, nunca pensou que eles poderiam ir tão longe. Penélope me levou até o quarto de visita. Não é brincadeira. Nem acreditei. Ele era maior que a minha casa. Enquanto eu me deslumbrava no quarto. A funcionária surgiu colocando algumas roupas em cima da cama. — Aqui estão algumas roupas. Acredito que seja do seu tamanho. Caso não funcione, podemos mandar comprar algumas. Precisa de ajuda com algo mais? — Penélope me pergunto em um tom mais formal que antes. A razão era óbvia, eu não era mais uma sem teto imunda, agora posso ser considerada uma visita da dona da casa. — Posso dar uma volta pela casa? Ela parece tão grande. — Eu não estava cansada. Na verdade, estava prestes a explodir. Queria caminhar sem precisar fugir de ninguém. — É claro. Se quiser, posso te acompanhar e mostrar todo o lugar. — Penélope se ofereceu, mas eu tinha certeza que ela estava ocupada, achei melhor não atrapalhar. Afinal, não tem como eu me perder, não é? — Não será necessário. Sou um pouco desajeitada, mas não irei me perder. Devo voltar logo. Mesmo assim, eu agradeço. — Ficar um pouco sozinha me faria bem. Tinha que encontrar uma forma de conhecer o outro neto do Senhor Pedro. Não sei absolutamente nada sobre ele. Nem nunca vi. Será que parece com Heitor? Deve ser uma completo i****a. — Faço questão. Ainda mais, se você voltar rápido. Não tem como se perder, mas faz parte do meu serviço. Espero que compreenda. — Penélope não me deixou opção além de aceitar sua proposta. Apenas acenei com a cabeça concordando. Desci as escadas, passei pela porta gigante que facilmente passava uma girafa e comecei a caminhar um pouco. O lugar era impecável. As árvores, flores, gramas. Parecia uma pintura a mão de tão perfeita. Até que encontrei um pequeno jardim abandonado. — O que aconteceu? — As flores estavam murchas, algumas secas. Era o completo oposto dos outros jardins. — Esse era o jardim que a senhora Tamara cuidava desde pequena, mas após o acidente de carro, quando perdeu sua irmã e o pai ficou de cadeira de rodas, ela nunca mais tocou no jardim. Na verdade, raramente a encontramos em casa. — Penélope explicou, enquanto olhava para um segurança que chamava por ela. — Licença, preciso ver o que está acontecendo. Não irei demorar. Era tão triste ver um jardim cuidado com tanto amor ser reduzido ao abandono e o fim? Lembrei que minha mãe também tinha um jardim. Desde pequena cuidava com ela, mas não havia sobrado nada por conta do fogo. Quando me dei conta, eu já estava agachada, arrancando as ervas-daninhas e retirando as folhas secas. — Não fiz muito, mas só o pouco de atenção, deu uma nova vida. Agora é só esperar as flores reagirem. Será que elas vão conseguir? — Pensei orgulhosa de mim mesma, enquanto me levantava focada no jardim, mas minha atenção foi toda roubada ao ouvir o choro de uma criança — Quem está aí? Ao perguntar, ouvi que choro aumentou, como se a criança estivesse assustada de ter sido pega. Aproveitei para ir em direção de onde vinha o som. Me aproximando de um enorme arbusto. Assim que puxei um pouco dos galhos, me deparei com um menino pequeno, sentado no chão, abraçando suas pernas enquanto chorava. — Quem é você? — Não esperava encontrar uma criança naquelas condições, ainda mais, naquela casa. Será que era filho de um dos funcionários? Não importa. Essa criança precisa de ajuda.
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