O dia m*l tinha começado e Miguel já sentia a pressão apertar o ar.
Helena Castro não era mulher de “esperar para conversar”. Quando queria respostas, as exigia imediatamente — e hoje, queria respostas sobre uma cafeteria e uma garçonete que ela nem conhecia.
Ele a encontrou no escritório da presidência, sentada como uma rainha em seu trono de vidro e aço. O tablet estava sobre a mesa, mostrando a mesma foto do story que ele vira no i********:.
— Reconhece isso? — perguntou, sem levantar os olhos.
— É um café — respondeu, seco.
— E a mulher de avental? — Helena ergueu o olhar. — Quem é?
— Alguém que me serviu café.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase palpável. Helena pousou o tablet lentamente, como se controlasse a própria paciência.
— Miguel, você sabe como isso funciona. A sua imagem é parte do patrimônio da nossa família. Cada foto, cada aparição, cada gesto.
— Eu sei como funciona — ele cortou. — Mas também sei tomar café sem precisar de autorização.
— Não seja infantil. — A voz dela era um bisturi. — A três dias do jantar oficial de noivado, não existe espaço para… distrações.
Ele quase riu da escolha de palavras. Distrações. Como se a vida fosse um quadro que ela pintava e qualquer cor fora da paleta fosse sujeira.
— Não estou pedindo espaço — disse ele. — Estou apenas… respirando.
Helena se inclinou para a frente, a voz mais baixa, mais perigosa.
— Se essa mulher aparecer de novo ao seu lado, Miguel… não será apenas ela a sofrer as consequências.
Ele segurou o impulso de reagir.
Respirou fundo.
— Está me ameaçando, mãe?
— Estou protegendo o que é nosso. — Helena recostou-se, encerrando o assunto com um simples olhar de comando. — Agora, vista o terno. Temos uma reunião com a imprensa.
Miguel saiu do prédio com passos medidos, mas por dentro tudo nele gritava. A sensação era clara: ele estava no limite.
No carro, dispensou o motorista outra vez. Pegou o volante, mudou de rota e, sem pensar muito, estacionou na mesma esquina do dia anterior.
A cafeteria estava mais movimentada. O cheiro de café fresco misturado com o doce da vitrine o recebeu como se fosse um convite particular.
Ana estava no caixa, rindo de algo que uma cliente idosa havia dito. Era um riso de verdade, não o tipo ensaiado que ele ouvia no seu mundo.
Quando o viu, ela ergueu as sobrancelhas.
— Você tem um hábito de voltar, sabia? — disse, com aquele meio sorriso que o desconcertava.
— Talvez eu esteja viciado no seu café — respondeu.
— Ou talvez esteja viciado em alguma outra coisa daqui — ela provocou, servindo o próximo cliente antes de voltar a encará-lo.
Miguel puxou uma cadeira no canto, longe demais para ouvir conversas alheias, mas perto o suficiente para vê-la.
Ela se aproximou com uma xícara fumegante.
— Não pediu nada — comentou. — Mas eu já sei o que você vai tomar.
— Está ficando perigoso saber tanto assim sobre mim — ele disse, meio sério, meio brincando.
— Perigoso para quem? — ela retrucou.
Os dois se encararam por um segundo que pareceu durar mais do que deveria.
Ele queria perguntar sobre a vida dela, queria saber cada detalhe que as revistas nunca contariam. Mas algo no olhar de Ana deixava claro: ela não era do tipo que se abria fácil.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um casal na mesa ao lado tirou uma foto disfarçada. O som do clique foi baixo, mas suficiente para que Miguel percebesse.
Ana também notou. Olhou para ele, depois para os clientes, e então falou baixo:
— Acho que você está sendo seguido… até aqui.
Miguel passou a mão no queixo, pensativo.
— Talvez seja hora de parar de fugir disso.
— Ou talvez seja hora de sair pela porta dos fundos — disse ela, séria.
Ele riu, mas não negou que a ideia fosse tentadora.
Quando saiu da cafeteria, o sol começava a abrir, iluminando a rua como se o dia quisesse lhe dizer que ainda havia espaço para coisas simples.
No celular, novas mensagens de Helena:
> Não teste minha paciência, Miguel.
Temos um acordo.
Ele digitou, apagou, e decidiu não responder.
Porque, pela primeira vez, sentia que havia encontrado algo que não queria negociar.
E o nome desse algo… era Ana Clara.