First everything

4823 Palavras
O problema de ser viciado em trabalho, é que nem tempo — e vontade — para sua própria lua-de-mel você tem. Louis não se importaria em ficar nas praias do Caribe por mais de uma semana, mas Eleanor insistia que deveria voltar para a Europa no tempo determinado, ela não tinha como adiar certos compromissos. Não que Louis fizesse uma questão absurda de ficar, mas talvez pudesse aproveitar mais o que sabia que seria sua única pausa naquele ano. O casal ficou cerca de sete dias no Caribe, mas já estava há três de volta no Reino Unido. Louis almoçava com Liam num restaurante no centro de Londres praticamente no mesmo centro comercial onde trabalhavam. — Aí eu estava pensando que esse projeto seria talvez uma boa chance de promoção pra nós dois. — Liam dizia empolgado, falando de assuntos de trabalho desde que tinham começado a almoçar. — Eu realmente acho que seria bom que você tivesse um aumento. — Ele riu, fez uma expressão engraçada e Louis franziu o cenho sem entender. — Seria? — Tomlinson repetiu. — É, ué... Você acabou de casar, daqui a pouco vai querer ser pai. — Liam disse ainda sorrindo. — Até parece mesmo. — Louis disse despreocupado. — Do jeito que a Eleanor trabalha, eu duvido muito que ela vá querer engravidar pelo menos pelos próximos dois anos. — Ela disse isso? — Liam perguntou no momento em que assentiu para o garçom que ambos aceitavam a xícara de chá para finalizar a refeição. — Não, mas eu a conheço muito bem. — Louis disse virando-se para encarar a janela, um tanto triste. — Nem penso muito a respeito, ela é uma mulher que aprendi a dividir com a carreira dela. — Mas ela é muito boa no que faz. — Payne comentou percebendo que Louis deveria estar mais feliz mesmo com a ideia de constituir família, mas não parecia muito empolgado. — Mas acredito que talvez esse status de casada tenha feito ela considerar algumas coisas que antes não considerava. — Não sei, mas não penso muito nisso. — Tomlinson respondeu distraído. — Mas e você, hein? Vai ser aquele amigo solteiro que todas as esposas detestam? — Louis riu lembrando-se que Liam era mesmo um farrista nato. — Não, estou querendo me acomodar sim, acho que esse ambiente de homens casados está criando uma pressão social sobre mim. — Liam brincou, mas falou sério. — Eleanor está querendo bancar a cupido, então caso esteja interessado em Alice... — Louis disse rindo ao ver o desespero momentâneo de Liam ao ouvir o nome da melhor amiga da esposa. Payne já tinha ido pra cama com ela, mas apenas coisa de uma noite. Segundo ele, ela era uma ótima pessoa, mas desesperada demais por um relacionamento. — Não fala uma coisa dessas, vai dar ideias pra Eleanor. — Liam disse recebendo a bebida que o garçom havia trazido para ambos. — Tudo bem, não insisto porque ela estava interessada em outro cara desde o casamento. — Louis disse sorrindo ao lembrar de Harry. — Quem? — Liam riu como se estivesse pronto para sentir pena do cara que Alice certamente perseguiria. — Ele foi quem trouxe as flores do casamento, acho que você não chegou a vê-lo. — Louis disse tomando um gole de seu chá. — Ele se chama Harry, tem uma floricultura no centro de Londres. — Não estou lembrando dele. — Liam disse como se tentasse puxar pela memória. — Se bem que eu bebi tanto no seu casamento que não tenho credibilidade pra nada relativo a lembranças! — Ele riu e Louis também, concordando com a cabeça. — Ele é um cara legal. — Depois de tantos dias, Louis ainda tinha o sorriso e as covinhas dele numa lembrança clara em sua cabeça. O que não sabia era o motivo pelo qual lembrava daquilo em específico. — Alto, cabelos longos... — Eu acho que vi Alice dançando com ele. — Liam disse incerto. — Enfim, já estou com pena desse pobre homem! — Ele parece ser um cara legal mesmo, pra ser honesto. — Louis respondeu sentindo até uma vontade esquisita de ver aquele cara de novo. — Espero que ele e Alice se dêem bem. — Louis disse num tom automático e educado. Liam não respondeu, apenas arqueou as sobrancelhas como quem realmente duvidava que aquilo sequer iria ter um começo. .x.H&L.x. Com a viagem de Anne por alguns dias de visita à casa de sua filha mais nova, Gemma, Harry estava cuidando sozinho da floricultura. Não era exatamente um trabalho cansativo mas também estava longe de ser fácil. Ele estava quase fechando quando o telefone tocou distraindo-o de regar algumas plantas do lado de fora da pequena loja. — Flower Shop, aqui é o Harry. — Ele atendeu o telefone segurando-o no ombro por ter uma das mãos ocupadas com um regador e a outra com um saco de terra. — Vocês fazem entrega? — A voz feminina do outro lado da linha perguntou. — Sim, fazemos. — Ele respondeu olhando o relógio de parede em forma de margarida. Já estava quase na hora de fechar, mas talvez um último pedido não seria problema. — Eu gostaria de uma dúzia de rosas vermelhas a ser entregue no restaurante La Plage, na mesa 7. — Certo. — Harry respondeu já pensando que levaria um certo tempo para preparar aquilo. — Em trinta minutos. — Muito obrigada. — Ela disse simpática. — De nada. — Harry desligou o telefone um pouco atrapalhado, derrubando o gancho no chão. Ele deixou o regador em cima do balcão e tratou de arrumar o que tinha caído. No canto, no chão perto de onde ele estava, percebeu que o lírio se quebrou quando o gancho caiu. Era uma bela flor azul, com a parte interna amarelada, arrancou um sorriso de seu rosto simplesmente porque aquela flor e aquela cor lembravam os olhos de um certo homem que havia recém se casado e provavelmente ainda estava em lua-de-mel. — Foco, Harry. — Ele falava consigo mesmo enquanto ajeitava a flor de modo a tentar salvar ao menos as folhas e o caule delicado, quem sabe nasceriam outras pétalas. — Por que tudo continua me lembrando esse cara? Ele fechou a loja e ficou na parte de trás do jardim onde tinham uma estufa. Levou algum tempo para arrumar a quantidade de rosas pedida e checou o endereço do restaurante na internet. Era muito comum acontecer aquele tipo de coisa, as pessoas pediam para fazer essas entregas surpresa, geralmente em ocasiões especiais. Demorou cerca de dez minutos para chegar ao local, poderia ter feito o trajeto em um pouco menos de tempo, mas só de olhar aquelas obras no meio de Londres já o fazia estar preparado para demorar — e muito — pra chegar onde gostaria, independente de onde fosse. O restaurante era sofisticado, tinha uma iluminação própria e ele pensou que deveria sair dali o mais rápido possível após fazer seu trabalho, pois os olhares dos garçons não eram dos melhores já que ele claramente não estava vestido apropriadamente. — Eu tenho uma entrega, na mesa sete. — Harry disse a uma das moças que cuidavam das reservas do local e ela, vendo as flores e a simplicidade de suas roupas, olhou feio mas o deixou passar. Ele procurou com os olhos pela mesa sete e, quando encontrou, parou de andar e apenas sorriu. Alice olhava de longe com um sorriso maroto enquanto Harry voltava a andar na direção dela devagar. Ele realmente não reconheceu a voz dela ao telefone, mas também ela não esperava, falou com ele há dias, apenas uma vez e num local não muito apropriado para conversas. — São pra mim? — Ela brincou assim que ele chegou perto. — Que gentileza, Harry! — Ela sorriu fazendo Harry igualmente sorrir de volta. — Aparentemente são. — Ele disse entregando a ela o buquê de rosas e sentando-se de frente pra ela na mesa em seguida. — Louis me passou seu número, espero que não se importe. — Ela explicou sorrindo, mas tudo que Harry ouviu foi "Louis". — Eu não quis ligar logo em seguida, estava pensando se deveria ou não. Harry baixou os olhos um pouco tímido. Ele não tinha problemas em sair pra jantar ou coisa do tipo, mas gostava de deixar as coisas claras quando se tratava de não iludir as pessoas ou fazê-las acreditar que algo estava acontecendo ou iria acontecer. Ele olhou para a mulher bonita à sua frente, notando que realmente qualquer homem teria sorte em tê-la, mas ele não seria um deles. — Alice, você e eu... — Styles começou sorrindo, escolhendo as palavras, não queria magoá-la. — Não vai acontecer, certo? — Nossa, já está me dispensando? — Ela disse surpresa, mas sem ficar sem graça, achou nobre da parte dele dizer aquilo logo de cara e não esperou levá-la pra cama primeiro ou algo do tipo. — Posso ser seu amigo. — Ele disse, inclinando-se na mesa. — Mas minha amizade é tudo que posso oferecer. — Ele era tão calmo e sincero que ela realmente ficou impressionada. Aquele comportamento não era muito normal ou comum, e após um breve silêncio entre eles, foi que ela finalmente arregalou os olhos e Harry quase gargalhou, finalmente ela parecia ter se dado conta. — Ai meu Deus, você é gay! — Ela disse relaxando os ombros no momento em que viu o sorriso de Styles se abrindo conforme ele ria, nunca iria se acostumar com aquela reação das pessoas quando percebiam sem ele dizer. — Harry, me desculpe, eu não fazia ideia. — Não há nada pra desculpar. — Ele disse sentindo-se até mais a vontade. — Está tudo bem, você não foi a primeira e certamente não será a última. — Um cara bonito, misterioso... Interessante... — Ela dizia numa mistura de desânimo com conformismo. — E solteiro. É claro que tem algo a mais nesse pacote... — Ela estreitou os olhos, fazendo uma expressão engraçada e Harry apenas assentiu com a cabeça, sentando-se na cadeira de um jeito mais confortável. — Tudo bem. — Ela continuou pegando a carteira de dentro da bolsa. — Ao menos me deixe pagar pelas flores. — Não, não precisa. — Styles insistiu, não aceitando o dinheiro. — São um presente. — Como eu disse, um cavalheiro. — Ela comentou olhando os bonitos olhos verdes do outro. — Então, ao menos jante comigo. — Seria um prazer. — Agora que ele finalmente tinha colocado os pingos nos i's com aquela mulher, ele não sentia mais que deveria alguma obrigação social de estar ali. Ele realmente ficou porque quis, ela parecia agradável e não levou a m*l quando soube da preferência s****l dele. — Mas eu realmente não fazia ideia. — Ela continuou a falar. — Louis não me disse nada, Eleanor muito menos. — Bem, eles não sabem, não é como se eu os conhecesse. — Harry foi honesto mas estava gostando de ouvir Louis de volta naquela conversa. — Eu só levei as flores ao casamento. — Mas você ficou na festa, achei que era amigo de Louis. — Ela continuou pegando o menu com capa de couro de cima da mesa. — Vi vocês conversando, ele mesmo disse que você foi mais solícito do que aquele i*****l do Liam. — Quem? — Harry franziu o cenho, achou o nome familiar, mas não lembrava. — O padrinho dele. — Ela explicou. — Ah sim! — Harry lembrou-se do cara ligeiramente bêbado que fez um discurso de dez segundos no casamento. — Ele parece ser um cara engraçado. — Não, ele é um grande i****a mesmo. — Ela disse distraída e então Harry percebeu que certamente eles tinham um passado. Não pareceu prudente entrar no assunto. Ele pegou o menu e, por alguns segundos, fez-se um silêncio entre eles. Ele queria perguntar sobre Louis, queria que ela dissesse algo sobre como ele estava, se falou dele quando passou o telefone, só por curiosidade mesmo. Styles teve medo naquele momento que deixasse transparecer aquele interesse absurdo e que não deveria existir. Ele escondeu os olhos atrás do grande livro de comidas e fingia ler apenas, aquela comida não lhe despertava o menor interesse. — Como estão os recém casados? — Ele optou por uma pergunta genérica, não referindo-se apenas ao homem, talvez ela realmente achasse que ele só estava querendo puxar assunto. — Estão bem, tudo ótimo. Há alguns dias voltaram do Caribe. — Alice explicou distraída, lendo atenta a carta de vinhos. — Eleanor trabalha demais, então tiveram pouco tempo. — Entendo. — Styles confirmou pensando que não havia nenhum motivo ou razão para prolongar qualquer rodada de perguntas que fosse. Sua vontade era de querer saber tudo sobre Tomlinson mesmo que ele soubesse que tudo aquilo se tratava de uma fantasia de sua cabeça, se via naquelas situações em que sabia que não deveria alimentar nenhum interesse ou sentimento, mas era exatamente aquilo que ele estava fazendo. O garçom ofereceu-se para levar as rosas a um outro lugar, sugerindo que a moça as pegasse de volta na saída. Para sorte de Harry, ele não precisou preocupar-se com escolher seu próprio prato, Alice o fez pelos dois. Harry era péssimo quando o assunto era aquelas comidas finas que ele nunca nem tinha ouvido falar. O jantar seguiu-se tranquilo, ao som de muitas risadas e até mesmo Harry teve que admitir que se divertiu. Ouviu o nome de Louis mais algumas vezes, acompanhado de histórias que envolviam Liam ou da época da faculdade, onde os quatro haviam estudado juntos, mas o assunto não se estendeu a nada muito íntimo. Styles teve que admitir que se divertiu, era uma daquelas noite espontâneas em que se deixou levar pelo momento e não preocupou-se com trabalho no outro dia, estava feliz de, aparentemente, ter feito uma nova amizade. .x.H&L.x. Dois dias haviam se passado desde o jantar com Alice e Anne já estava de volta na floricultura. O dia tinha sido tão normal que, no final do expediente, Harry estava até bocejando, mesmo que não fosse sequer sete horas da noite ainda. Ele estava cuidando de algumas plantas novas que haviam chegado, contava o estoque e também lembrava que precisava fazer a contabilidade do mês ainda naquela semana. A única coisa que o distraiu de seus pensamentos monótonos foi a voz de sua mãe aparecendo com um sorriso desconfiado no rosto. — Tem alguém aí procurando por você. — Ela disse assim que Harry encarou-a. — Quem? — Ele tinha as mãos ligeiramente sujas de terra e as limpava num pedaço de pano não muito limpo. — Não estou esperando ninguém. — Ele disse que você o conhece, se chama Louis. — Ela disse estudando a expressão surpresa do filho, que arregalou os olhos verdes e paralisou por alguns breves segundos. — Você o conhece de onde? — Anne cruzou os braços e franziu o cenho, estava realmente curiosa e quase sussurrando com medo que o homem ouvisse do outro lado da porta. — Do casamento dele. — Harry sorriu olhando para as próprias mãos sujas. — É esse aí? — Anne mostrou uma expressão engraçada, ficou deliberadamente de queixo caído. — Meu Deus Harry, ele é muito bonito! — Obrigado pela sua observação óbvia, mãe. — O moreno alto disse rindo passando pela mãe e andando até a porta e dando de cara com um sobretudo preto virado de costas. Louis olhava concentrado para alguns cactus e outras plantas não tão atrativas ás pessoas normalmente. Ele olhava curioso para uma das espécies mais populares de plantas carnívoras e Harry apenas sorriu, percebendo que o jeito de Louis parecia um pouco com o de uma criança descobrindo uma coisa nova ou vendo algo de perto, que antes só assistia pela televisão. — Você sabe que elas comem insetos e não pessoas, certo? — Styles brincou chamando a atenção de Tomlinson que não conteve o sorriso ao virar-se para encará-lo. — Eu sei, mas me cairia bem que alguma dessas me engolisse. — Louis disse coçando a nuca e Harry, por algum motivo, percebeu que ele parecia constrangido por alguma razão. — Como vai, senhor Tomlinson? — Harry perguntou chegando mais perto dele e enterrando as mãos sujas no bolso do jeans, que também tinha os joelhos ligeiramente encardidos. — Por favor, me chame de Louis. — Ele disse simpático e Harry concordou com a cabeça, gostando  muito mais daquela premissa de chamá-lo pelo primeiro nome. — Vou muito bem, e você? — Estou ótimo. — Harry foi honesto porque era como se sentia naquele momento, mesmo tendo um dos dias mais entediantes de todos. Os dois apenas permaneceram em silêncio trocando olhares por alguns segundos. Não que Louis fosse o tipo de cara que já tivesse reparado naquelas coisas, mas talvez saber o que agora sabia sobre Harry tenha mudado de leve sua perspectiva diante da situação em si. Nunca havia lhe passado pela cabeça que aquele homem era gay. — Queria me desculpar pela emboscada da Alice. — Louis disse ficando ligeiramente corado e Harry riu, jogando a cabeça pra trás, numa gargalhada cheia, deliciosa, que até mesmo contagiou Tomlinson por um momento, que abriu um dos seus melhores sorrisos. — Eu não fazia ideia, eu realmente não pensei que... Bem... Você não tem cara de... — Ele estava confuso e sem saber o que dizer, que não se deu conta de que está estereotipando as coisas. Harry estava acostumado com aquele tipo de coisa, não o incomodava e nem tão pouco o ofendia. — De gay. — Harry completou a frase rindo, notando que Louis parecia desconfortável em dizer aquela palavra. — Eu não tenho "cara de gay". — Ele deu ênfase ainda rindo e Louis ficou ainda mais vermelho. — Quer dizer que gays tem uma certa "cara"... — Não foi isso que eu quis dizer. — Louis estava visivelmente sem graça e Styles parecia estar sentindo um prazer quase s****l em deixar aquele homem desconcertado. — Não se preocupe com isso, não há motivos. — Harry disse tranquilizando-o. — As pessoas não têm obrigação de saber sobre a sexualidade alheia. — Eu sei, mas é que o mundo tem estado tão diversificado que a gente não deveria presumir a sexualidade dos outros. — Tomlinson se explicou e Harry estava achando-o cada vez mais adorável por se esforçar tanto. — Por isso me desculpe. — Não precisa pedir desculpas. — Styles insistiu. — Está tudo bem, estou feliz de ter conhecido ela, somos amigos. — Eleanor também está sem graça com a situação, pediu que eu ligasse. — Louis explicou. — Pra esclarecer as coisas. Harry não gostava de tentar explicar atitudes alheias de forma a sempre servir suas próprias esperanças. Mas certamente aquele detalhe o fez pensar: realmente Louis poderia ter ligado, mas ele preferiu vir até ali. E lá estavam eles apenas olhando um pro outro do jeito que faziam desde que tinham se visto a primeira vez no casamento. Pra quem achou que nunca mais o veria, estava vendo-o e ouvindo falar dele até demais, e isso não estava ajudando a esquecê-lo. — Fico feliz que tenha preferido vir e não ligar. — Harry não sabia exatamente como aquilo havia entrado nos ouvidos de Louis ou como ele iria interpretar, mas foi claramente uma frase dita sem pensar direito e num tom de voz um pouco mais doce do que deveria. Louis engoliu a seco, não disse nada. Apenas desviou o olhar para seus próprios pés e sorriu sem graça. Aquilo era mesmo uma cantada? Não, não poderia ser, Harry sabia que ele era casado e, bem, com uma mulher. Não, não deve ter sido nada sugestivo, ele provavelmente apenas estava sendo gentil. Tomlinson ficou naquela breve confusão mental por alguns segundos e Harry continuava a olhar pra ele com uma certa expectativa. Tomlinson passou a língua pelos lábios e parecia pronto para dizer alguma coisa. Abriu a boca, mas foi interrompido pela presença de Anne, que acabava de se juntar aos dois na loja. — Louis, gostaria de um chá? — Ela ofereceu simpática, mostrando o sorriso aberto. — Acabei de fazer um de limão. Harry distraiu-se da boca de Tomlinson por um momento e olhou para sua mãe como se indagasse com um olhar discreto algo como "que p***a você pensa que está fazendo?", mas tudo que recebeu em resposta foi uma leve erguida de sobrancelhas de Anne, como se ela respondesse mentalmente "o que acha que estou fazendo?" — Adoraria. — Louis respondeu para o total desespero de Harry que, ao mesmo tempo, m*l podia acreditar que passaria mais tempo olhando pra aquele homem. Porque olhar era tudo ele podia fazer de qualquer forma. — Estamos fechando, mas moramos aqui em cima. — Anne explicou, radiante. — Vai ser um prazer recebê-lo. — Eu que agradeço. — Louis disse educado, olhando de Anne para Harry quando a mulher se retirou deixando os dois novamente sozinhos. Harry olhou sério para Louis por alguns segundos, mas em seguida rendeu-se ao sorriso novamente. Era estranho o quanto ele simplesmente não conseguia controlar aquilo na frente do outro. Ele olhou para as próprias mãos sujas, o cabelo de qualquer jeito desarrumado e o jeans surrado e, em seguida, pôs seus olhos em Louis, com aquele cardigan perfeitamente alinhado por baixo do sobretudo preto e a calça social. Seu cabelo tinha todos os fios no lugar e a única coisa que Harry conseguiu perceber "sensualmente fora do lugar" era a barba por fazer. — O que foi? — Louis perguntou curioso. — Por que está olhando pra mim desse jeito? — Nada, nada. — Styles apressou-se em responder. — Desculpe. Louis não acreditou muito naquilo, mas resolveu não insistir. Desde que conhecera Harry pela primeira vez, ele percebia esse olhar quase insinuador, como se ele realmente não conseguisse controlar o riso ou a posição mais confortável que seu corpo teria. Apenas estudou os olhos verdes de Styles, mas não conseguia ler respostas, apenas um homem simples que aparentemente não sabia direito como se comportar. — Acho que sua mãe está esperando por nós. — Louis disse olhando o lance de escadas quase escondido no outro cômodo. — Claro, claro. — Harry disse quase como que despertando de um transe. Gentilmente apontou para a porta indicando o caminho que Louis deveria fazer e, assim que ele começou a andar, Styles andou atrás dele até subirem ao pequeno apartamento no andar de cima. .x.H&L.x. A verdade é que os momentos em que mais estamos nos divertindo são aqueles em que a hora passa totalmente despercebida. Os três conversaram por mais de duas horas e foi quando Anne resolveu se recolher e ficar em seu quarto. O chá já havia ficado em segundo plano e Harry ofereceu uma cerveja a Louis assim que sua mãe deixou a sala. Os dois já estavam bebendo há cerca de uma hora e foi quando Harry percebeu que, pela terceira vez, Louis recusou uma chamada de Eleanor em seu celular. — Acho que você deveria atender. — Harry disse ficando quase de lado no sofá, a fim de encarar Louis melhor, que estava na ponta oposta apoiando as costas no braço do cômodo. — Eu já mandei uma mensagem à ela, ela sabe onde estou e que estou bem e que logo irei pra casa. — Louis disse desinteressado, abrindo uma terceira lata de cerveja. Estava mais desinibido, mais aberto e percebeu que realmente Harry era um dos caras mais legais que ele conhecia. — Por favor, continue... Harry sorriu ao ver o outro tão a vontade, já tinha até tirado os sapatos. Era uma visão que ele tinha certeza que não haveria forma de ficar mais incrível: Louis com seus olhos brilhantes na penumbra daquela sala, bebendo sem pressa sua cerveja e sem tirar os olhos de Harry, ávido contando sua história de vida. — Bem, então meu namorado foi embora. — Styles continuava. — Está em Oxford, é formado em Química. — E vocês têm algum tipo de contato? — Louis perguntou curioso. — Não. — Styles balançou a cabeça enquanto falava. — Mas não por brigas ou desentendimentos, preferimos assim. Ele foi embora, é melhor pra esquecermos um do outro que não mantivéssemos contato. Eu queria que ele aproveitasse a vida dele na faculdade de forma plena e completa. Se fosse pra ele voltar pra mim, ele voltaria. — Harry tinha um saudosismo na voz, mas não era dor ou sofrimento. Talvez uma saudade de uma época em que as coisas eram um pouco mais fáceis. — Mas ele não voltou. — Você gostaria que ele tivesse voltado? — Louis não sabia se estava mexendo em alguma ferida, mas sua curiosidade falou mais alto. — Não sei, acho que não. — Harry foi sincero, tanto na dúvida quanto na convicção momentânea. — Acho que as coisas eram pra ser assim. — Você ainda o ama? — Louis tomou mais um gole da cerveja. — Ele sempre vai ser especial. — Harry foi honesto, mas se deu conta de que era de fato a primeira vez que falava sobre aquilo de maneira tão aberta. — Ele foi meu primeiro beijo, minha primeira transa, meu primeiro namorado... — Harry sorriu ao lembrar-se daqueles fatos, eram lembranças felizes. — Ele nunca vai ser "só um cara" pra mim. Louis concentrou-se naquelas palavras e ficou imaginando como deveria ser ter tantos momentos importantes com uma pessoa só. "O primeiro tudo", pensou ele. Olhar a expressão um tanto sonhadora de Styles, vê-lo mergulhado em lembranças era algo que Tomlinson realmente gostou de ver, era genuíno, verdadeiro... Harry Styles era um homem tão bonito que nem ele conseguiu deixar passar despercebido. — Como soube que gostava de homens? — A pergunta quebrou o silêncio e fez Harry rir. — Eu só sabia, sempre soube. — Ele deu de ombros, cansou de contar quantas vezes ouviu aquela pergunta. — Do mesmo jeito que você sabe que gosta de mulheres. Tomlinson novamente se silenciou. Nunca tinha pensado exatamente naquilo, como ele sabia? Sentir atração por determinados gêneros era quase uma concepção social. Da mesma forma que ele presumiu que Harry poderia se interessar por Alice, mostrou que ele realmente tinha a mente mais fechada do que imaginava. Ele observava Styles olhar pra ele enquanto enrolava uma mecha de cabelo nos dedos longos e só então percebeu que ele tinha mãos enormes. O som de seu celular vibrando o despertou daquilo e Harry apenas sorriu novamente desviando o olhar para um quadro que tinha na sala. Ele levantou-se ao ver que Louis finalmente cedeu e resolveu atender a esposa. Não queria prestar atenção na conversa, mas era inevitável. — Eu sei, eu sei. — Ele repetia e, por mais que Harry não soubesse o que Eleanor dizia do outro lado da linha, ele tinha plena noção que ela não parecia muito feliz. — Eu chego logo, por favor vá dormir. Harry sentiu-se ligeiramente desconfortável com a situação, mesmo sabendo que não era sua culpa. Ele olhou de canto para o relógio digital perto do abajur do criado-mudo ao lado de Louis e percebeu que realmente era tarde. Assim que Louis desligou o celular, ele imitou o movimento de Harry e levantou-se. — Eu preciso... — Louis começou, mas Harry o interrompeu. — Eu sei. — Ele disse cruzando os braços e sorrindo fraco. — Precisa de um taxi ou algo assim? — Harry ofereceu por questão da bebida. — Não, estou bem. — Tomlinson colocou os sapatos de volta e sentia que não queria ir pra casa, mesmo que estivesse sonolento e percebeu que Harry também estava. — Desculpe ficar tão tarde. — Ele comentou sorrindo e andando até a porta acompanhado por Styles. Louis parou na porta para se despedir de Harry e o mais alto apenas apoiou-se na soleira de novo com o mesmo típico olhar para Tomlinson. — Não precisa se desculpar. — Harry disse respirando fundo, aquele ar gelado da noite o despertou por um segundo quando entrou em seus pulmões. As escadarias ao lado do prédio levavam Louis diretamente para seu carro. — Gostei muito de passar um tempo com você. Louis novamente passou a língua pelos lábios e Harry podia jurar que era a bebida ou a curiosidade, mas teve certeza que Louis encarou sua boca por vários segundos antes de desviar e olhar em seus olhos novamente. — Espero que isso se torne rotina então. — Louis sorriu de canto e falou baixo, tão sussurrado que Styles quase não escutou. — Boa noite. — Boa noite, Louis. — Harry respondeu quando o outro já tinha lhe dado as costas e descia as escadas sem dificuldades. Styles o acompanhou pelos olhos e teve aquela sensação típica de quem sabe que vai se arrepender por estar fomentando algo que ainda acabaria por fazê-lo sofrer.
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