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Aurora
Eram 7:00 horas em ponto quando o despertador tocou. Eu já estava acordada. Na verdade, já estava acordada a horas. Passei a madrugada rolando na cama de ansiedade.
Hoje era o meu aniversário de 18 anos.
Deveria ser um dia feliz para mim, mas havia uma ansiedade estranha na boca do meu estômago. Como se algo r**m fosse acontecer a qualquer momento.
Tomei coragem e joguei a coberta para o lado, me levantando da cama. Me dirigi ao banheiro e levei um susto com meu próprio reflexo no espelho. Olheiras enormes, cabelo completamente desgrenhado e uma cara de poucos amigos que ia contra o dia incrível que deveria ser hoje.
Tomei um banho quente para tentar amenizar o desconforto crescente em meu peito e aproveitei para escovar os dentes e dar um jeito no meu cabelo que mais parecia um tufo castanho-dourado completamente descontrolado.
Ao sair, fui em direção ao guarda roupa. Queria uma roupa confortável mas não tão largada.
Ontem papai havia me dito que iríamos tomar café em "família" e que ele tinha algo importante para me contar. No fundo creio que seja por isso que essa ansiedade esteja me engolindo por dentro.
Papai não é do tipo que dá presentes bonitinhos e surpresas fofinhas em aniversários. Ele sempre foi o cara durão e fechado, mas que amava a família. Porém, desde que perdi minha mãe, Louise Lowell, aos 7 anos, papai mudou bruscamente. Ele ainda amava a família, mas seu "amor" já não era tão explícito assim.
Morávamos em Coral Glabes, em Miami.
Eu, mamãe e meu pai, Amaro Lowell, éramos a típica família unida e feliz.
Eu era muito nova ainda, mas sabia o quão valiosa era nossa relação.
Papai trabalhava muito, mas sempre separava um tempo para lazer em família. Mamãe apenas cuidava de mim e de casa e mantinha tudo em ordem.
Miami era o lugar da minha felicidade e onde deixei meu primeiro amor, Dimitri Morrigan.
Dimitri era dois anos mais velho que eu. Tínhamos 6 e 8 anos respectivamente.
Ele morava na casa atrás da minha e sempre nos encontrávamos escondidos na casa da árvore no fundo do meu quintal.
Éramos inseparáveis.
Brincávamos juntos todos os dias, no parquinho do bairro, íamos à Book & Book só para passarmos tempo juntos.
Apenas minha mãe o conheceu e sempre pedia para tomarmos cuidado. Papai ficaria louco na época se soubesse que eu brincava sozinha por aí com garotos. Nunca conheci a família de Dimitri, mas só de estar com ele, já era o suficiente para mim.
Eu era feliz. Minha vida era feliz. Até que tudo mudou.
Eu tinha sete anos. Era um sábado à noite e estávamos voltando de um jantar em família. Papai estava dirigindo tranquilamente quando um carro nos acertou em cheio. Nossa carro foi acertado pelo lado do passageiro, onde minha mãe estava sentada. Papai quebrou o braço no acidente, eu tive um corte no supercílio e uma torção no pé. Mas mamãe se foi naquele dia.
O motorista do outro veículo foi internado. Estava sob efeito de bebida alcoólica. A família dele se responsabilizou pelos pagamentos de danos e indenizações, mas nada disso trouxe minha mãe de volta.
Nós mudamos pra Seattle meses depois do acidente. Papai não aguentava viver na mesma casa em que minha mãe vivia. Eu também não.
Tudo estava ali. As roupas dela, o cheiro, a coisas organizadas exatamente como ela havia deixado. Tínhamos tudo dela ali, menos ela mesma. Isso matou meu pai por dentro.
Ele se tornou ainda mais distante, mais fechado, quase inacessível.
Não foi só a ele que mudou, a mim também.
Tive que deixar tudo para trás, nossa casa, as lembranças da minha mãe e Dimitri.
Consegui vê-lo uma vez antes de partir.
Ele me deu um colar de coração brilhante, que ele havia comprado com sua mesada quando soube que eu iria embora.
Essa é a última lembrança que tenho dele.
Quando se completaram sete anos que viemos pra cá, papai iniciou um relacionamento com Morgana. Minha então madrasta. Nunca nos demos bem. Ela queria a todo custo apagar qualquer vestígio que meu pai tivesse da minha mãe em sua mente.
Travamos uma guerra há quatro anos. Provocações, respostas venenosas e comentários maldosos. Nunca deixei ela levar a melhor. Papai sempre pareceu alheio a isso, ou a qualquer coisa que não fosse a empresa que ele fundou depois que viemos para cá. Em minha concepção, esse foi o único motivo de Morgana ter se jogado tanto pra cima dele e trazido sua filha, Stella, junto com ela. As duas são literalmente farinha do mesmo saco. Stella é prepotente e arrogante como Morgana. A dupla que transformou minha vida num inferno.
Sempre tentando me atingir de alguma forma.
Tentei por várias vezes alertar meu pai que Morgana estava aqui por puro interesse, mas ele nunca deu bola.
O nome Amaro Lowell era amplamente conhecido no mundo dos negócios.
Meu pai era excelente no que fazia e era um homem de sucesso na área de empreendedorismo e Morgana achou que o Grupo LoRa era a chance perfeita pra ela.
O nome foi criado em homenagem a mim e à mamãe. "Lo" de "Louise" e "Ra" de "AuroRA".Mas, para Morgana, o nome era cafona e deveria ser mudado.
Escolhi uma calça jeans, um salto fino preto e uma camisa social branca com as mangas dobradas até os cotovelos.
Prendi o cabelo em um coque firme e coloquei meu óculos escuro. Depois de arrumada e perfumada, respirei fundo tomando coragem e saí do quarto com meu celular e bolsa na mão.
Ouvi vozes no andar de baixo e concluí que todos já haviam descido.
Ao terminar de descer as escadas, entrei na sala de estar. Papai estava sentado na ponta da mesa, revisando documentos e Morgana estava ao seu lado, com uma xícara de chá. Stella estava sentada numa poltrona mexendo no celular.
"Olha se não é a estrela do dia" disse Morgana, com sarcasmo disfarçado em cada palavra.
"Bom dia, Morgana" disse friamente.
Papai levantou da cadeira e veio até mim, pousando a mão em meu ombro e dando um leve aperto
"Feliz aniversário, Aurora"
"Obrigada, pai" respondi levemente surpresa pela sua proximidade
Morgana veio logo atrás dele
"Parabéns, Querida" Disse me dando o abraço mais falso que já recebi na vida.
"obrigada, Morgana" Respondi dando duas batidinhas fingidas em suas costas e me afastando em seguida
Dei graças a Deus quando Stella apenas continuou em sua poltrona sem nem levantar o olhos. Já tive falsidade o suficiente pela manhã.
"Todas prontas?" papai perguntou se dirigindo a porta
Assenti com a cabeça e o acompanhei.
Depois de todo mundo estar acomodado no carro, papai dirigiu até uma cafeteria sofisticada e particular.
Adentramos ao local e fizemos nossos pedidos. A ansiedade havia embrulhado meu estômago, então pedi apenas um croissant e um café preto.
"Oque tem pra me contar, pai?" perguntei sem conseguir me segurar
Papai tomou um gole de seu expresso e limpou a boca com um guardanapo
"Faremos uma pequena reunião após o café para falar sobre isso"
Após o café. Certo.Eu já estava quase entrando em combustão espontânea de tanto nervoso e nem sabia o motivo. Me forcei a comer o croissant para pelo menos ter energia pra encarar oque quer que fosse.
Depois do que me pareceu uma eternidade, finalmente meu pai e as duas cobras terminaram o café e nos dirigimos à saída após a conta ser paga.
Voltamos ao carro e comecei a estranhar quando reconheci que o caminho era do escritório. Continuei calada, mas o nervoso aumentou mais ainda.
Ele não vai querer me colocar na empresa, vai? Não, claro que não. Ainda não comecei a faculdade de administração. Mas, e se ele simplesmente tiver terminado de perder o juízo? Impossível.
Quando ele parou o carro no estacionamento do escritório, comecei a roer as unhas.
Oque diabos ele quer aqui? Não é bem o passeio de aniversário que imaginei.