Robert Rockwell
— Ele não faria isso. Ele precisa de um herdeiro legítimo. O Richard não quer a lama de Nova York e você... você é apenas o terceiro filho. Ele não tem outra escolha a não ser eu.
Ryan se virou lentamente. O sorriso diabólico voltou aos seus lábios, mas agora era carregado de uma satisfação sombria.
— É aí que você se engana, maninho. Ele tem a mim. E depois de hoje, depois de eu ter sido o "Robert Rockwell" que os alemães adoraram, ele percebeu que a transição seria muito fácil. Mas não é isso que me trouxe aqui.
Ele deu três passos rápidos e parou a milímetros de mim. Eu conseguia sentir o calor que emanava dele, a fúria vibrando como um motor em alta rotação.
— Eu não dou a mínima para o seu dinheiro ou para a sua herança — Ryan sibilou, segurando meu rosto com uma mão, forçando-me a olhar para ele. — Mas eu juro por tudo o que é mais sagrado: se você encostar um dedo na Anne, se você dirigir a ela uma única palavra de desprezo, se você a humilhar como você planeja fazer... eu vou destruir você.
— Por que você se importa tanto com aquela ruiva sem sal? — perguntei, a confusão nublando minha mente. — Ela é um fardo, Ryan! Ela é o preço que a gente tem que pagar...
O soco veio antes que eu terminasse a frase. Dessa vez foi no estômago. Perdi o ar, caindo de joelhos, tossindo e tentando desesperadamente puxar o oxigênio de volta para os pulmões.
— "Ruiva sem sal"? — Ryan perguntou, a voz agora num tom de calma absoluta, o que era mil vezes mais assustador do que os gritos. — Ela é a única coisa pura que já cruzou o caminho desta família de demônios. Ela é a pessoa que limpou o meu sangue quando o nosso pai me arrebentou por um erro seu. E eu passei vinte anos protegendo ela de longe.
Eu olhei para ele, a ficha finalmente caindo. Aquele olhar... aquela dedicação doentia de Ryan em salvar as empresas Valencourt... não era por negócios. Não era pela Rockwell International.
— Você... você ama ela? — perguntei, incrédulo, entre uma tosse e outra. — O grande Ryan Rockwell, o gelo em pessoa, está apaixonado pela noiva do irmão? Que tragédia poética!
Ryan não negou. Ele nem sequer piscou.
— Eu estou disposto a tudo por ela, Robert. E quando digo tudo, quero dizer que eu posso ser muito pior do que o nosso pai. Se você se casar com ela e eu ver uma única lágrima no rosto de Anne causada por você, eu vou garantir que você perca tudo. Eu vou armar para você, vou plantar evidências, vou te jogar em uma prisão de segurança máxima onde o nome Rockwell não vale nada. Eu vou te apagar da existência para que ela possa ser livre.
— Você está me ameaçando? — tentei me levantar, mas a dor no estômago me manteve curvado.
— Eu estou te dando um aviso prévio — Ryan respondeu, ajeitando as abotoaduras como se estivesse se preparando para outra reunião. — O casamento vai acontecer. Você vai subir aquele altar e vai ser o marido que ela precisa que você seja, pelo menos na frente das câmeras. Você vai respeitá-la. Você vai dar a ela o divórcio daqui a cinco anos, com o nome dela intacto e a fortuna dela garantida. E nesse tempo, você vai manter o seu p*u dentro das calças ou, pelo menos, longe de qualquer lugar onde um fotógrafo possa te ver.
Ele caminhou até a porta, mas parou e olhou para Elena, que espreitava do closet, enrolada em um casaco de pele.
— Saia — ele ordenou a ela. — Agora. E leve seus amigos com você. Esta festa acabou.
Elena não esperou uma segunda ordem. Ela correu, pegando a bolsa e desaparecendo pelo corredor.
Ryan voltou o olhar para mim. Eu ainda estava no chão, um trapo humano na minha própria suíte de luxo. Pela primeira vez na vida, eu senti medo do meu irmão. Não do Ryan que consertava minhas merdas, mas do monstro que ele tinha se tornado para proteger uma mulher que ele nunca poderia ter.
— Amanhã cedo, um motorista virá te buscar — Ryan disse, a voz agora fria como o mármore. — Você vai para a clínica de desintoxicação da família. Vai ficar lá uma semana. Limpo. Sem álcool, sem drogas. Quando sair, você vai direto para a mansão Valencourt pedir desculpas à Anne pelo seu "comportamento estressado". E você vai ser convincente, Robert. Porque se ela desconfiar da verdade, se ela sofrer por sua causa... eu não vou te bater de novo. Eu vou simplesmente te eliminar.
— Você não teria coragem — murmurei, mas a minha própria voz soava incerta.
Ryan deu aquele risinho diabólico uma última vez.
— Tente a sorte, maninho. Veja o que acontece quando o homem que passou a vida inteira segurando o mundo nas costas decide soltá-lo em cima da sua cabeça.
Ele saiu, batendo a porta com a mesma força com que entrou.
O silêncio que se seguiu na cobertura foi ensurdecedor. A música tinha parado. Meus amigos tinham fugido como ratos. Eu estava sozinho, sangrando, com o gosto de uísque e derrota na boca.
Olhei para o teto, sentindo a mandíbula pulsar de dor. Eu odiava o Ryan. Odiava o meu pai. Odiava a Anne Valencourt e o modo como a existência dela parecia estar destruindo a minha liberdade. Mas, acima de tudo, eu percebi que o jogo tinha mudado.
Ryan não era mais o meu suporte. Ele era o meu carrasco. E se eu quisesse manter a minha vida de luxo, eu teria que encenar o papel de marido apaixonado pela mulher que o meu irmão amava. Que ironia. Eu teria a mulher, mas teria que viver sob a sombra da execução constante se eu falhasse.
— Desgraçado... — sussurrei, fechando os olhos.
A imagem de Anne Valencourt veio à minha mente. Aqueles olhos verdes, aquela postura de santa. Eu ia me casar com ela. Mas eu sabia que, a cada vez que eu olhasse para ela, eu veria o rosto de Ryan me prometendo o inferno.
O espetáculo realmente tinha começado. E eu, o herdeiro legítimo, tinha acabado de descobrir que era apenas um prisioneiro no roteiro escrito pelo meu irmão "perfeito". O soco dele ainda ardia, mas o que realmente me machucava era saber que, pela primeira vez, Ryan Rockwell não estava ali para me salvar. Ele estava ali para me domar. E o medo disso era mais forte do que qualquer ressaca que eu já tivesse enfrentado.