Capítulo 02

2106 Words
AVISO DE GATILHO: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA/ABUSO/PRISÃO/NEGLIGÊNCIA/ADULTÉRIO CARMEN POV A consciência voltou lentamente. Se você nunca esteve num estado em que parece ter sido atropelado por um ônibus várias vezes e, ainda assim, sobreviveu, então não entenderia a diferença daquele tipo de consciência. Porque era exatamente assim que eu me sentia naquele momento. Não era como despertar do sono; era mais como rastejar para fora do fundo de um oceano profundo e n***o. A dor me alcançou primeiro. Estava em toda parte, irradiando pelos músculos e ossos como fogo enterrado sob minha pele. Meu peito se ergueu numa respiração lenta e superficial, e imediatamente uma agonia lancinante atravessou minhas costelas. Ofeguei. O som m*l escapou da minha garganta. Por um longo momento, não me mexi. Não conseguia. Meu corpo parecia estranho, pesado, quebrado de maneiras que eu não ousava descobrir. O chão era frio, duro e implacável, assim como meu marido. Só de pensar nele, as lembranças voltaram em fragmentos. Os punhos de Arthur. O artigo misterioso. O estalo das minhas costelas. Meu corpo sendo arrastado. A porta batendo. A dor — meus gritos entrecortados por socorro que nunca veio. Um dos meus olhos se abriu lentamente. Mas apenas um. O outro se recusava a cooperar, completamente fechado pelo inchaço. Até o menor movimento fazia uma dor latejante atravessar minha bochecha e minha têmpora. Vi um dos meus molares no chão. Quase senti inveja dele — tinha conseguido escapar. Mesmo descartado, estava mais livre do que eu. Fiquei ali, deitada sob a luz fraca do pequeno quarto dos empregados, observando a faixa de luar que se estendia pelo chão. Ela havia mudado de lugar desde a última vez que a vira. Horas deviam ter se passado. Talvez até dias, mas eu estava desorientada demais para me importar. Minha respiração estava curta e irregular quando tentei mudar um pouco de posição. No instante em que mexi a perna, um grito rasgou minha garganta antes que eu pudesse contê-lo. Uma dor abrasadora explodiu pela parte inferior do meu corpo. Minha perna. Havia algo errado com minha perna. Lembrei-me de Arthur pisando nela enquanto eu tentava rastejar para debaixo da cama. Mordi o lábio com força para não gritar outra vez. E foi então que ouvi. A princípio, pensei que fosse algo dentro da minha cabeça. Meus ouvidos ainda zumbiam levemente por causa da surra. Mas então o som veio novamente. Era a voz de uma mulher. Aguda. Ofegante. Alta. Seguida pela voz inconfundível de Arthur, e meu estômago se revirou na mesma hora. Eles nem sequer estavam tentando esconder. A porta do quarto no andar de cima devia estar escancarada, porque os sons ecoavam pelos corredores da mansão como uma apresentação grotesca. Era Germaine. A mais nova amante de Arthur, que agora morava com ele. Eu só a tinha visto uma vez, quando chegara com ele duas semanas antes. Alta. Loira. O tipo de beleza que parecia ter sido esculpida especificamente para chamar atenção. Ela havia me olhado como se eu fosse algo desagradável grudado na sola do sapato. E agora, apenas duas semanas depois, enquanto eu estava ali sentindo que até a morte se recusava a me aceitar, a risada dela se espalhava pela casa. Era exageradamente alta. Performática. Arthur respondeu com uma risada baixa e satisfeita, seguida de grunhidos altos e prolongados. A cama no andar de cima rangia ritmicamente. A cabeceira batia com força contra a parede. Fechei os olhos enquanto a humilhação e a exaustão me atingiam como uma onda. Aquilo havia se tornado normal. Arthur desfilando mulheres pela casa. Arthur se divertindo com elas alto o bastante para que eu ouvisse. No começo, aquilo tinha me destruído, mas agora só me deixava vazia. No entanto, havia algo diferente naquela noite. Arthur parecia relaxado. Despreocupado. Seguro de si. Talvez porque acreditasse que eu estava inconsciente — talvez até morta. Foi então que percebi: pela primeira vez em anos, não havia guardas no corredor. Normalmente, dois homens ficavam posicionados perto da entrada do andar principal durante a noite. Arthur dizia que era para garantir a segurança da casa. Mas eu sabia a verdade. Eles estavam ali para garantir que eu nunca saísse. Naquela noite, a casa estava silenciosa. Silenciosa demais. Normalmente, os guardas conversavam entre si, mas agora não se ouvia nada. Arthur tinha se tornado descuidado porque achava que eu não acordaria. Uma pequena centelha de algo desconhecido despertou em meu peito. Ousei chamá-la de esperança. Era frágil. Talvez até perigosa, mas estava ali. Forcei-me a apoiar o corpo nos cotovelos. O movimento quase me fez perder a consciência novamente. Minhas costelas gritavam em protesto, e o quarto girou violentamente. Esperei, concentrando-me em controlar cada pequeno movimento e minha respiração. Contei devagar até a tontura passar e então tentei outra vez. Dessa vez, consegui me sentar encostada na parede. Minha visão oscilou enquanto eu baixava os olhos para o próprio corpo. Hematomas cobriam meus braços. Manchas roxo-escuras se espalhavam pela minha pele. Minha camisola estava rasgada e endurecida pelo sangue seco. Continuei examinando os estragos que meu marido amoroso havia deixado em mim até olhar para minha perna. Ela estava dobrada de uma maneira que não deveria. Uma onda de náusea me atingiu. Estava quebrada. Tinha que estar. Por que mais estaria dobrada daquele jeito? Fechei os olhos com força e lutei contra a vontade de vomitar. No andar de cima, a voz de Germaine se elevou em outro gemido exagerado. Arthur riu. Os dois pareciam bêbados e distraídos. Não estavam prestando atenção em mais nada ao redor. Se eu fosse fugir, aquela era a minha chance. Estendi a mão até a cômoda ao lado da cama e lentamente me puxei para cima. No instante em que minha perna ferida tocou o chão, uma descarga de agonia atravessou meu corpo inteiro. Meus joelhos cederam. Agarrei-me à parede para não cair. Minha respiração saía em arfadas trêmulas. — Você consegue — sussurrei para mim mesma. Minha voz soou fraca e desconhecida. O quarto voltou a girar, mas me obriguei a permanecer de pé enquanto meu olhar desesperado percorria o pequeno cômodo. O que eu poderia usar para me apoiar e conseguir sair dali? Não havia nada. Apenas uma cama, uma cômoda e um espelho rachado. Então eu vi. No canto, encostada na parede, havia uma vassoura velha. Eu era obrigada a manter meu quarto limpo o tempo todo, então tinham me dado aquela vassoura. As cerdas já não eram retas, e o cabo soltava farpas, mas ainda era comprido o bastante. Algo que eu poderia usar. Meu coração começou a bater mais rápido diante do que aquilo poderia significar. Devagar e com muita dor, manquei pelo quarto e agarrei o cabo da vassoura. A madeira áspera arranhou meus dedos. Virei a vassoura de cabeça para baixo, coloquei as cerdas gastas e ásperas sob o braço e testei meu peso sobre ela. Não era perfeito, mas funcionou depois que coloquei uma meia na outra extremidade para evitar que escorregasse no piso de mármore. Outro som ecoou do andar de cima. A risada de Germaine novamente. Eles ainda não tinham percebido nada. Ótimo. Arrastei-me em direção à porta. Cada passo parecia uma caminhada sobre vidro quebrado. Minha perna quebrada tremia violentamente toda vez que roçava o chão, obrigando-me a jogar quase todo o peso sobre a vassoura. Por sorte, eu estava tão desnutrida que praticamente não pesava nada àquela altura. Por outro lado, isso também significava que eu não tinha força muscular alguma. Quando abri a porta, o corredor pareceu se estender infinitamente diante de mim. Como eu imaginava, não havia guardas. Estranho. Por um momento, apenas fiquei ali. Eu não caminhava livremente por aquele corredor havia quase três anos. Meu coração martelava em meus ouvidos quando comecei a me mover outra vez. A vassoura raspava de leve no piso de mármore enquanto eu avançava em direção à entrada principal da casa. A cada poucos segundos, eu parava para escutar, atenta a qualquer som de passos. Mas os únicos ruídos continuavam vindo do andar de cima. Arthur e Germaine estavam ocupados demais um com o outro para perceber qualquer outra coisa. Ele estava confiante demais de que havia me destruído por completo, de que eu jamais ousaria tentar fugir. Quando alcancei a porta da frente, minhas forças começaram a desaparecer. Meus braços tremiam por sustentarem meu peso, e a vassoura escorregou um pouco da minha mão. Quase caí novamente. Mas a porta estava bem ali. Só mais alguns passos. Eu não podia desistir. Era exatamente isso que Arthur queria. Arrastei-me pelo piso de mármore, alcancei a porta e consegui abri-la. O ar frio da noite me atingiu. Por um instante, apenas fiquei ali, respirando. Ar fresco. Ar de verdade. O cheiro de grama e terra encheu meus pulmões. Fazia tanto tempo que eu não sentia aquilo. As lágrimas embaçaram minha visão, mas eu não podia parar agora. A propriedade era enorme porque Arthur gostava de privacidade. O que também significava que os portões ficavam longe da casa. Muito mais longe do que eu me lembrava. O caminho de cascalho cortava o terreno como uma fita prateada sob a luz da lua. Pisei nele. A dor explodiu em minha perna outra vez. Mas continuei. Passo. Arrasta. Passo. Arrasta. Até que a vassoura deixou de ser suficiente. Minha perna se recusava a sustentar qualquer peso. Então caí de joelhos. O cascalho rasgou minha pele quando comecei a rastejar. Cada movimento lançava uma nova onda de agonia pelas minhas costelas e pela perna. Mas os portões estavam mais perto agora. Eu conseguia vê-los. Estavam bem ali. Só precisava continuar. As barras de ferro pareciam enormes vistas de onde eu estava, caída no caminho de entrada. Forcei-me a avançar outra vez. Rastejei, arrastando meu corpo como se fosse um peso morto, recusando-me a deixá-lo para trás. E, tecnicamente, era exatamente isso que ele havia se tornado: um peso morto. Mas, apesar de todo o sofrimento, eu me recusava a desistir. Minha respiração ficou entrecortada, cada inspiração se transformando num arquejo prolongado. Mas tudo valeu a pena quando finalmente alcancei o portão. O portão principal estava trancado, mas, como se alguma coisa estivesse cuidando de mim naquela noite, encontrei o portão lateral destrancado. Era evidente que Arthur jamais imaginara que eu conseguiria chegar tão longe. Com as mãos trêmulas, empurrei-o e arrastei meu corpo para o outro lado. A estrada se estendia diante de mim, vazia e silenciosa. Meu corpo não tinha mais nada para dar. Rastejei alguns metros pelo asfalto enquanto a escuridão começava a invadir minha visão. Eu estava apagando depressa, mas continuei tentando. O asfalto frio pressionou minha bochecha quando desabei no meio da estrada, e pensei que talvez aquele fosse o fim. Talvez eu tivesse chegado tão longe apenas para morrer ali. Mas isso ainda podia ser considerado liberdade, não podia? Isso não significava que eu tinha fracassado em fugir, significava? Então... Faróis apareceram à distância. Um veículo grande se aproximava lentamente pela estrada. Era um motorhome, e percebi que reduzia a velocidade ao me ver caída no asfalto. O motor foi desligado, e vozes preencheram o silêncio. — Oh, minha Deusa... — Ela está viva? Passos apressados vieram em minha direção. Mãos cuidadosas me viraram de costas. O movimento repentino fez outra onda de dor rasgar meu corpo. Gemi baixinho, tentando não gritar e correr o risco de Arthur me ouvir. — Ela está respirando — disse um homem. — Ela precisa de um hospital — respondeu uma mulher, com urgência. Ao ouvir aquilo, o pânico tomou conta de mim. Hospital. Polícia. Arthur. Com o último resquício de força que ainda me restava, agarrei a manga da mulher. Meus dedos m*l conseguiram segurá-la. Eu estava fraca demais até para apertar o tecido, mesmo naquele pedido desesperado. — Por favor... — consegui dizer, rouca. Minha voz parecia vidro quebrado. — Não... hospital... Senti os dois paralisarem diante do meu pedido. — Não contem a ele que eu... fugi — sussurrei, o medo queimando em meu peito. — Se ele me encontrar... vai me matar. Pela pequena fresta do meu único olho aberto, vi os olhos da mulher se arregalarem. Ela olhou para o homem ao seu lado. Por um momento, nenhum dos dois disse nada. Então o homem assentiu lentamente. — Tudo bem — disse em voz baixa. — Nós cuidamos de você, pequenina. Braços fortes me ergueram com cuidado da estrada. O interior do motorhome cheirava a café e cobertores quentes, e alguém envolveu meus ombros com algo macio. Minha visão voltou a ficar turva. A última coisa que senti foi o motorhome começando a se mover. Então a escuridão voltou. E, dessa vez, deixei que ela me levasse.
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