Capítulo 1 - Casa que nunca foi um Lar.
O ar da tarde parecia mais leve, quase carregado de expectativa. Era finalmente o dia do meu aniversário de 18 anos. Durante meses eu havia sonhado com esse momento, repetindo para mim mesma que, a partir de hoje, tudo seria diferente. Eu nunca tivera um namorado. Nenhum garoto olhara para mim com interesse verdadeiro durante todo o ensino médio. Eu era a garota invisível: óculos grossos, roupas largas, cabelos sempre presos em um r**o de cavalo simples. Mas isso acabara.
Ao entardecer, passei quase duas horas me arrumando. Tirei os óculos de uma vez por todas e coloquei as lentes de contato que havia comprado escondido. O reflexo no espelho me surpreendeu: olhos mais vivos, cílios alongados pela máscara, blush sutil destacando as maçãs do rosto e um batom rosado que deixava meus lábios carnudos. Escolhi um vestido novo, preto, curto o suficiente para mostrar minhas pernas bem torneadas após meses caminhando escondida para perder peso, e com um decote que valorizava o colo. O tecido leve deslizava suavemente sobre a pele, acompanhando cada movimento. Passei meu perfume favorito — doce, com notas de baunilha e flores brancas — no pescoço e nos pulsos. Quando me olhei pela última vez, m*l me reconheci. Pela primeira vez, me senti bonita. Desejável.
Esse ano vai ser diferente, repeti mentalmente enquanto caminhava para casa. A faculdade seria meu recomeço. Novo visual, nova atitude, nova vida.
Empurrei a porta da sala e o contraste foi imediato. O ambiente estava escuro, com as cortinas semi-fechadas, iluminado apenas pela luz azulada e piscante da televisão grande. O som do videogame dominava tudo: tiros ecoando, explosões graves que faziam o chão vibrar levemente, música eletrônica intensa e os botões do controle sendo pressionados com rapidez. O cheiro de salgadinhos e refrigerante pairava no ar.
Lucas, meu irmão, estava largado no sofá de couro gasto, pernas esticadas sobre a mesinha de centro, controle nas mãos. Ao lado dele, Ian — seu melhor amigo desde a infância — jogava com a mesma concentração. Ian era alto, de cabelos escuros bagunçados e um sorriso fácil que eu sempre notara de longe. Minha mãe ocupava a poltrona no canto, tricotando mecanicamente. O clique-clique ritmado das agulhas de metal era o único som suave naquele caos.
Assim que entrei, o vestido curto balançou contra minhas coxas. O decote revelava um pouco mais do que eu costumava mostrar. Senti o ar-condicionado gelado tocar minha pele recém-exposta e um arrepio percorreu meus braços.
Os olhos de Ian pararam em mim instantaneamente. Seu personagem na tela morreu com um barulho alto de derrota, mas ele nem piscou. O olhar dele desceu devagar pelo meu corpo, parando nas minhas pernas, subindo pelo decote e finalmente chegando ao meu rosto. Havia surpresa. Confusão. Interesse.
— Ei, Lucas, quem é essa gatinha? — perguntou ele, a voz rouca de espanto, sem desviar o olhar. — Tá namorando e nem avisou seu melhor amigo? c*****o, que mulher...
Lucas pausou o jogo. O som parou abruptamente, deixando apenas o zumbido baixo do ventilador de teto. Ele virou o rosto e demorou alguns segundos para me reconhecer. Suas sobrancelhas se franziram.
— Tá cego, cara? Eca! É a minha irmã. Não tá reconhecendo?
Ian piscou várias vezes, como se tentasse processar a informação. Um leve rubor subiu pelo seu pescoço.
— Sua irmã? Porra... Cloe? c*****o, você... mudou pra c*****o.
Lucas me olhou de cima a baixo com desprezo evidente.
— Tá achando que vai onde vestida assim? Tá parecendo uma p**a. Acha mesmo que só porque colocou lente, mudou o visual, algum cara vai querer ficar com você? Acorda, garota.
As palavras dele doeram como sempre. Olhei para minha mãe, esperando qualquer coisa. Uma palavra. Um olhar. Ela continuou tricotando, o rosto impassível, como se a cena não lhe dissesse respeito. O clique-clique das agulhas prosseguia, constante e indiferente. Ela nunca se importara. Sempre deixara Lucas dizer e fazer o que quisesse. Mesmo hoje, no dia do meu aniversário, o silêncio dela era ensurdecedor.
Engoli o nó na garganta e ignorei meu irmão. Aproximei-me dela, o coração batendo forte.
— Mãe?
Ela ergueu os olhos lentamente, como se o esforço fosse grande demais.
— Hoje eu faço 18 anos — falei, a voz mais firme do que esperava.
— Sim, e o que é que tem? — respondeu com indiferença, voltando a atenção para o tricô como se eu tivesse comentado sobre o tempo.
Senti um aperto dolorido no peito, como se alguém tivesse apertado meu coração. A decepção era familiar, mas hoje, no meu aniversário, doía mais fundo. Respirei fundo, reunindo coragem que vinha se acumulando há anos.
— Me leva pra um puteiro. Quero perder minha virgindade hoje.
O silêncio que caiu sobre a sala foi absoluto. Até o ventilador pareceu parar por um segundo. Lucas virou a cabeça bruscamente.
— Que p***a você tá falando, Cloe?!
Minha mãe largou as agulhas no colo. O rosto dela se contorceu de raiva.
— Qual o problema? — continuei, a voz tremendo levemente, mas sem recuar. — Quando o Lucas fez 18, o pai levou ele no puteiro pra tirar a virgindade. Por que eu não posso?
— Você é mulher. É diferente — respondeu ela, seca.
— E daí que sou mulher? Também tenho desejos, iguais aos do Lucas. Eu trabalho meio período desde os 16 anos, estudo, cuido das minhas coisas. Enquanto isso, ele fica o dia inteiro nesse sofá jogando videogame. Vocês nem deixam ele cortar uma grama no quintal. Ele parece bem mais delicado do que eu, que sou mulher.
O ar na sala ficou pesado. Minha mãe se levantou de repente, furiosa. Em dois passos rápidos ela estava na minha frente. O tapa veio forte, estalando alto no meu rosto. O som seco reverberou pela sala, seguido de um zunido agudo no meu ouvido esquerdo. A ardência se espalhou imediatamente, quente e latejante. Lágrimas brotaram nos meus olhos.
— Volte pro seu quarto e não saia de lá hoje! — gritou ela, o rosto vermelho.
Seus olhos desceram pelo meu vestido com puro nojo.
— E tire essa roupa. O Lucas tem razão… você tá parecendo uma p**a.
Corri para o quarto sem olhar para trás, lágrimas escorrendo pelo rosto e borrando a maquiagem que eu havia feito com tanto cuidado. Bati a porta com força. O baque ecoou pelo corredor. Me joguei na cama, o corpo tremendo. O travesseiro absorveu meu choro enquanto eu abraçava os joelhos.
Sempre me perguntei por que era tratada de forma tão diferente naquela casa. Lucas era quatro anos mais velho, mas recebia todo o carinho, todas as liberdades. Eu era cobrada por tudo. Meu pai era o único que me tratava com afeto verdadeiro, mas ele trabalhava longe e só voltava a cada três meses. Durante o resto do tempo, eu ficava presa ali, entre a indiferença da minha mãe e as humilhações do meu irmão.
A casa cheirava a mofo misturado com o aroma artificial dos salgadinhos da sala. As paredes do meu quarto, pintadas de um rosa desbotado que eu odiava desde os 12 anos, pareciam me sufocar. Mas hoje algo havia mudado dentro de mim. Aos 18 anos, eu finalmente tinha poder de escolha.
Eu podia sair daquela casa. Podia me mudar para o alojamento da faculdade. Podia construir minha própria vida, longe daquele lugar que nunca havia sentido como um lar. Pela primeira vez, o futuro não parecia assustador. Parecia libertador.
Enxuguei as lágrimas com as costas da mão e olhei para o teto. O ardor no rosto ainda latejava, mas dentro do peito, algo novo nascia: determinação.
Esse ano realmente seria diferente.