Capítulo 3

1209 Words
Larissa *Querida filha, Sei que fui covarde em muitos momentos da minha vida inclusive agora, por não ter tido coragem para fazer em vida e em palavras ditas a você olho no olho, mas tudo isso foi pelo medo de perder o amor e seu orgulho por mim. Se você está lendo essa carta é porque já parti para meu descanso eterno e eu não precisarei olhar em seus olhos e ver a decepção que vou lhe causar. (Olho para meu pai e vejo pela primeira vez na minha vida vergonha neles. Não consigo acreditar). Vou falar de forma clara, pois o que tenho a dizer não tem maneira melhor de ser dita, pois nada vai amenizar as minhas atitudes. Antes de conhecer sua mãe, eu tive um passado, afinal nos conhecemos com mais de trinta anos, portanto tinha já uma história de vida, filha, da qual muitos dos momentos e atitudes não me orgulho nem um pouco. Na sua idade eu gostava, como todo jovem, de sair e me divertir com meus amigos. Íamos aos bailes, bebíamos muito, saíamos com as garotas que na sua maioria não se davam o respeito e não eram de família, pois ficavam até tarde na rua ou só voltavam pra casa no dia seguinte, o que você deve saber como é, por morarmos no interior. Passei muitos anos da minha vida sendo jovem e, portanto inconsequente. Mesmo depois de adulto, dizia como forma de desculpas, que não havia encontrado nenhuma mulher que valeria a pena sair dessa vida que levava. Não tinha nenhum adulto que me colocasse rédeas, pois seus avós haviam falecido há muito e eu não precisava dar satisfações a ninguém, o que facilitava e muito, fazer cada vez mais besteiras. Quando eu tinha por volta trinta e um anos, fomos eu e meus amigos a uma festa numa clareira próxima a cidade e lá rolou muita bebida e mulheres, naquele dia perdi a noção de tudo, pelo tanto que bebi. Depois vim, a saber, que fiquei, se é que me entende, com umas cinco mulheres, somente em uma noite. Logicamente não me lembro de nada, consumi muita bebida como nunca na minha vida. Enfim, só sei disso tudo porque me contaram depois, senão pra mim é como se essa noite não tivesse existido. Uns dois meses depois, eu conheci a mulher da minha vida que se tornaria minha esposa e sua mãe e só então sosseguei, foi amor à primeira vista e eu logo a pedi em casamento, mas seus avós não permitiram que nos casássemos tão rapidamente assim. Queriam que nos conhecêssemos melhor e é claro, ver como me comportaria, para ter certeza talvez, que eu poderia cuidar do tesouro deles como deveria e fazê-la feliz como mereceria. Quando íamos fazer um ano de namoro, eis que surge em minha porta uma menina entre vinte e vinte cinco anos, com um bebê nos braços, pedindo pra conversar comigo. Não entendi muito bem e mesmo com o pânico tomando conta de mim abri a porta a deixando entrar. Ela sentou no meu sofá e me disse as piores palavras que eu poderia escutar naquele momento. Aquele ser tão pequeno em seus braços era meu filho, que tinha cinco meses de nascido e era fruto daquela noite em que não medi em nenhum momento as consequências que poderia ter os meus atos praticados. O desespero tomou conta de mim e eu só conseguia pensar em Laura, sua mãe, em meus sogros e no nosso casamento que não se concretizaria. Meu Deus! Mais uma vez agi sem pensar, perguntando o que ela queria. Porque se fosse dinheiro eu não tinha. Se fosse para que eu assumir aquela criança, eu não poderia, pois acabaria com minha vida e se ela queria que ficasse com ela, com certeza não ficaria, pois o amor da minha vida eu já havia encontrado, que era sua mãe. Foi então que fui um canalha e disse a ela que aquele filho poderia ser de qualquer um, pois naquela festa o que não faltou foi "todo mundo pegando todo mundo", como haviam me contado. Mas ela insistiu que sabia que o filho era meu e apesar de não ser santa, era contra ficar com vários em uma noite, porém estava tão cego de raiva que nem quis ouvi-la, expulsando-a da minha casa, dizendo que não queria nunca mais vê-la, para que assim, não estragasse minha vida. Nem olhei para o rosto daquele menino que ela dizia ser meu filho e por esse gesto impensado nunca soube qual era a verdade. Anos depois ela me mandou uma caixa que você irá encontrar contendo uma foto do bebê, um sapatinho, algumas roupinhas, fotos dele e lembrancinhas de seus aniversários, além de uma cópia da certidão de nascimento, onde não consta meu nome, claro. E por fim, uma carta dela destinada para mim. Decidi procurá-la, usando o endereço que constava no pacote em que chegaram essas coisas, para poder fazer algo, pois o arrependimento começava a me assolar, mas infelizmente ela havia se mudado, só sabiam me dizer que se mudou para outro estado e mais nada. Ou seja, perdi a chance de me redimir um pouco do meu erro. Por isso, filha, preste atenção no que vou te falar. Mesmo que você cometa erros e isso irá acontecer, não se iluda, tente consertar, pois o remorso e o arrependimento são dolorosos demais. Querida, quero que você me prometa que esse será nosso segredo e que você um dia possa me perdoar, porque erros todos cometemos, mas precisamos corrigi-los ou ao menos amenizá-los, mas no meu caso foi tarde demais, porém juro queria muito ter conseguido. Me perdoe se for possível, senão ao menos tente não me odiar. Te amo muito, pra sempre! Seu querido pai imperfeito João* Juro que tive medo de mexer os olhos e virar a cabeça para olhar meu pai, com receio do que sentiria naquele momento, mas quando criei forças e o olhei, só pude ver seu olhar perdido e distante e sem vida ao meu lado. Ainda estávamos de mãos dadas, como quando comecei a ler aquele desabafo e assim fiquei mais alguns minutos, ou horas, não sei dizer. Enfim, o tempo pareceu parar. Não me lembro em que momento minha mãe entrou no quarto e viu aquela cena, só saindo do transe em que me encontrava quando a vi começar a chorar desesperadamente ao meu lado. Solto minha mão da mão de meu pai pela última vez e sinto um vazio muito grande, pois isso jamais voltaria a acontecer e ficaria sem respostas para tantas perguntas que ficaram em minha cabeça após ler, sua carta, seu desabafo, sua confissão, por que não? Minha mãe no seu desespero pela morte dele nem viu a caixa e as coisas que continham nela, assim como a carta que estava em minhas mãos, por isso rapidamente juntei tudo dentro da caixa e a abracei forte para que ela soubesse que sempre estaríamos uma para a outra, infelizmente aquele segredo seria somente meu e de mais ninguém. Eu precisaria lidar com tudo relacionado a isso sozinha, sem ninguém para compartilhar, porque a pessoa a quem eu queria fazer todas as perguntas que rondavam minha mente, não falaria nunca mais.
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