RAFAELA NARRANDO
Eu não sei se esse homem é louco. Se tem pouco amor à vida ou muito amor à profissão, dele que eu desconfio qual seja já.
Eu tive que me colocar à frente de tudo. Eu sei o que isso vai me custar quando eu chegar em casa. Mas não tinha como. Não tinha como eu deixar o Tigre falar muito tempo com ele. Ele ia desconfiar e, uma mínima desconfiança, um mínimo risco, Tigre dava um tiro na cabeça dele e tudo se acabava.
RICARDO — ele não parece ser uma pessoa fácil de lidar. _ ele fala me olhando. Me observando. Como se ele pudesse me ler só de olhar.
RAFAELA — e não é. Ele é a pior pessoa que existe no mundo. _ ele me olha.
RICARDO — e por que está com ele ainda? _ essa pergunta dele... eu me faço ela todos os dias para mim mesma. Mas quando a resposta vem é sempre a mesma... “morte”. Para eu sair do lado do Tigre, só estando morta.
RAFAELA — o remédio que tomou vai dar sono em você. Não tenho remédios fortes para dor. Então tem que ser os remédios para dormir. Para você conseguir aguentar. _ ele concorda.
RICARDO— ainda não terminamos a conversa. _ eu n**o.
RAFAELA— não terminamos, porque não iniciamos uma. _ ele sorri e faz cara de dor. — Fique parado. _ ele concorda. Eu ajeito tudo que está ligado a ele e, por fim, me sento em uma cadeira.
Ele continua me olhando e, aos poucos, vai pegando no sono. Não sei de fato quem ele é. Não sei o seu nome. Mas sei o que faz e eu temo por ele, temo por mim. Mas não posso deixar nada acontecer a ele.
[...]
De dentro do hospital eu consigo sentir. O morro nunca esquece quando algo sai do eixo. Ele continua funcionando, mas muda o jeito de respirar. Os passos ficam mais atentos. As vozes mais baixas. As armas mais próximas do corpo.
Desde a invasão, eu sinto isso na pele. O homem que ainda não sei o nome dorme. Ou algo parecido com isso. O peito sobe e desce de forma irregular, o rosto ainda marcado pela dor que o corpo não conseguiu apagar nem inconsciente. O dreno funciona. O curativo segura. Tecnicamente, ele está fora de risco imediato. Tecnicamente.
Nada aqui funciona só na técnica. A cadeira range quando me levanto. O som é mínimo, mas suficiente para me deixar alerta. Qualquer ruído vira ameaça quando se vive cercada por homens armados e silêncios perigosos.
Eu caminho até a pia improvisada e lavo as mãos outra vez, mesmo sabendo que já estão limpas. É um hábito antigo. Um gesto que me dá a ilusão de controle.
Não olho para ele enquanto faço isso. Não porque não queira. Mas porque olhar demais cria vínculo. E vínculo aqui é sentença.
Ainda assim, minha mente não para. O ferimento dele não é comum. O jeito como suportou a dor também não. O olhar, quando acordou, menos ainda. Não havia desespero. Nem confusão. Havia cálculo.
Isso me assusta mais do que se ele fosse apenas um criminoso ferido. Volto a me aproximar da maca. Ajusto o soro. Confiro os batimentos. Tudo dentro do esperado. Profissional. Fria. Distante. Mas então ele se mexe.
RICARDO — você não dorme? _ a voz sai baixa, rouca, mas consciente demais para alguém que deveria estar meio apagado.
RAFAELA — você também não. _ ele abre os olhos devagar. Não me encara de imediato. Observa o ambiente primeiro. A posição da porta. A janela pequena. A sombra projetada pela lâmpada. Ele mapeia o espaço. Treinamento.
RICARDO — Tigre já voltou?
RAFAELA — não. _ não pergunto como ele sabe quem é Tigre. Não agora. Perguntas cedo demais entregam mais do que respostas.
RICARDO — ele vai voltar.
RAFAELA — sempre volta. _ ele me encara então. Direto. Sem desafio. Sem submissão. – Posso saber o seu nome, enfim? _ pergunto.
RICARDO — você confia em mim? _ a pergunta me pega desprevenida. Não pelo conteúdo. Pelo tempo. Ainda não era hora disso.
RAFAELA — confiança não existe aqui. _ ele me olha e não fala o nome.
RICARDO — existe sobrevivência. _ essa palavra ecoa em mim mais do que deveria.
RAFAELA — você fala como se conhecesse esse lugar. _ ele sorri.
RICARDO — conheço lugares piores. _ não duvido. Mas não acredito totalmente.
O silêncio se instala entre nós de novo, pesado, atento. Eu sei que ele está sendo observado, mesmo sem ninguém na sala. Tigre não precisa estar presente para vigiar. O medo faz isso por ele.
RAFAELA — você não pode falar muito, _ digo. — Nem se mexer.
RICARDO — estou tentando ser um bom paciente.
RAFAELA — não tente ser nada além disso. _ ele sorri de leve. Um sorriso curto, quase invisível.
RICARDO — você sempre dá ordens assim?
RAFAELA — só quando sei que estou certa. _ ele fecha os olhos outra vez. Mas não dorme. Eu sei. O corpo dele continua alerta demais. Eu também.
RICARDO — eu me chamo Ricardo. _ ele fala de olhos fechados. Eu sorrio ao ouvir seu nome.
[...]
Passadas algumas horas, Jéssica entra para trazer mais medicamentos. Ela para quando vê Ricardo acordado.
JÉSSICA — você… está consciente.
RICARDO — pelo visto, sim. _ ela sorri rápido, nervosa. Evita se aproximar demais.
JÉSSICA — melhor não forçar conversa.
RICARDO — prometo tentar. _ ela se vira para mim.
JÉSSICA — o Tigre perguntou se ele falou alguma coisa.
RAFAELA — e você disse o quê?
JÉSSICA — que você não deixou. _ boa resposta. — Doutora…_ ela hesita. — Ele está estranho hoje. _ Tigre sempre está estranho. Mas quando alguém como Jéssica percebe, é porque o ambiente ficou mais perigoso do que o normal.
RAFAELA — estranho como?
JÉSSICA — observando demais. Perguntando demais. _ meu estômago aperta.
RAFAELA — vai descansar um pouco. Qualquer coisa, eu chamo. _ ela concorda e sai. Eu fico.
RICARDO — ele desconfia. _ não é pergunta.
RAFAELA — Tigre desconfia de todo mundo.
RICARDO — mas agora ele tem motivo. _ eu o encaro.
RAFAELA — você fez alguma coisa além de ser baleado?
RICARDO — só sobrevivi. _ a resposta é ensaiada. Mas não totalmente falsa.
RAFAELA — isso aqui, _ digo, apontando ao redor, — não tolera exceções.
RICARDO — e você? _ ele rebate. — é uma exceção? _ a pergunta fica no ar. Pesada demais para ser ignorada.
RAFAELA — eu sou funcional. _ ele observa meu rosto com atenção, como se estivesse tentando entender onde termina a médica e começa a mulher presa.
RICARDO — funcional não é livre. _ a frase atravessa minhas defesas com precisão cirúrgica.
RAFAELA — você devia dormir.
RICARDO — você devia sair daqui. _ nós dois sabemos que nenhum dos dois vai obedecer.
[...]
Quando a noite avança, os barulhos do morro mudam. Menos tiros. Mais sussurros. Isso é pior. Significa organização.
Eu me sento novamente ao lado da maca. Não toco nele. Não preciso. A proximidade já é perigosa o suficiente.
RAFAELA — seja quem você for…_ começo, medindo cada palavra. — Se o Tigre decidir que você é um problema, não existe cirurgia que resolva.
RICARDO — e se eu for a solução? _ eu rio. Um riso curto. Sem humor.
RAFAELA — aqui, soluções morrem rápido. _ ele me encara com seriedade agora.
RICARDO — você não pertence a esse lugar.
RAFAELA — pertencer não é escolha. É imposição.
RICARDO — nem sempre. _ a convicção na voz dele me incomoda. Pessoas convictas quebram regras. E regras são a única coisa que me mantém viva.
Passos ecoam do lado de fora novamente. Diferentes dos anteriores. Mais pesados. Mais decididos. Eu me levanto instintivamente, posicionando meu corpo entre Ricardo e a porta outra vez. Ele percebe.
RICARDO — estão vindo. Sai da minha frente. _ ele fala.
RAFAELA — fica em silêncio. _ a maçaneta gira. Antes que a porta se abra, uma certeza se instala em mim, fria e inegociável: Ricardo não é apenas um ferido. Ele é um risco. E, pior ainda, é uma possibilidade. E eu ainda não sei qual das duas coisas são mais perigosa.
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