Capítulo 1: A Desastrada
Jordan Parker POV
.
Desastrada.
Distraída.
Destrambelhada.
Ou, quem sabe, amaldiçoada.
Ou talvez seja só… eu. Jordan Parker.
O meu pai costuma dizer que tenho um íman para o azar por andar sempre com a cabeça nas nuvens. E, vá, hoje não posso discordar. Tive de lhe dar razão — embora me recuse a ouvi-lo gozar comigo ao telefone.
Estou no aeroporto. À hora certa. Pronta para embarcar rumo ao estágio dos meus sonhos. Nada de atrasos, nada de correrias. Tudo a correr bem — o que, sejamos sinceras, já devia ter sido o meu primeiro sinal de alerta.
O problema?
Cheguei 24 horas antes. Sim, um dia antes da data do voo. Quem é que se engana no dia de viajar? Eu, claro.
Estava tão orgulhosa de mim própria por ter feito as malas a tempo, por ter chegado com calma... Tão confiante que nem me ocorreu confirmar a data do bilhete. Burra. E agora? Ligar ao meu pai para me vir buscar, para quê? Para ele se rir de mim até perder o ar? Nem pensar.
Então decidi improvisar. “Pensa positivo, Jordan”, repeti para mim mesma, enquanto procurava um hotel próximo. Quinze minutos a pé, dizia o mapa. Achei que era uma boa ideia andar, esticar as pernas, aproveitar o ar livre… E estava a ser… uma boa ideia… até uma das rodas da mala se partir a meio do caminho.
“Merda”, murmurei. E como se não bastasse, dei-lhe um pontapé — daqueles impulsivos — que partiu ainda mais a mala. “Brilhante, Jordan. Muito elegante.”
Andei o resto do caminho com a mala aos trambolhões, ora a carregá-la ao colo como se fosse um bebé gigante de plástico duro, ora a arrastá-la num ângulo estranho, a tentar usar as rodas que ainda funcionavam. A bufar palavrões mentalmente, claro. O que devia ser um pequeno passeio transformou-se numa peregrinação miserável.
O quarto que consegui reservar era pequenino, mas acolhedor. Uma caminha simples, uma luz amarela quente... Até tinha o seu charme. Pena que custasse mais do que devia. O meu orçamento já estava em coma e esta estadia improvisada foi tipo puxar-lhe a ficha. Mas vá, Jordan. Respira.
O que me trouxe aqui, afinal? Eu ganhei um concurso! Sim, eu — a rapariga que parte malas com pontapés — ganhei a oportunidade de estagiar no restaurante do chef Adam Black. O homem, o mito, a lenda… e, dizem, um ogre com avental.
Uma chance para provar que consigo. Que posso ser mais do que a desastrada da Jordan. Que posso, com muito esforço, tornar-me chef.
Claro que a minha mente começou logo a sabotar tudo. E se eu estrago tudo? E se ele me despede no primeiro dia por, sei lá… por ser eu, um desastre com duas pernas.
Depois de uma refeição deprimente num fast-food qualquer (porque claro que o restaurante “gourmet” do hotel estava reservado a quem tinha dinheiro), voltei ao quarto para relaxar. Mas a TV não ligava, o comando estava morto e o botão manual acho que nem existia. Desisti.
Deitei-me. O colchão era uma mistura de cimento com areia. A almofada parecia feita de esponja velha. A única coisa que funcionava era o barulho dos alarmes dos carros lá fora.
Ainda assim, deitei-me com um sorriso i****a na cara. Porque, no meio de toda esta trapalhada… eu estava a caminho de uma nova vida.
Será que vou sobreviver a esta experiência? Será que o chef Black vai achar que sou completamente inútil?
Ou pior… e se ele tiver razão?
Bom, amanhã é o verdadeiro dia da viagem. E o início oficial da minha tentativa (desesperada) de ser adulta. A ver vamos quanto tempo o universo me deixa fingir que sou competente.
Mas uma coisa é certa: seja com tachos, tropeções ou m*l-entendidos… esta aventura vai dar molho.
.
.
Acordei com aquelas dores de barriga que misturam nervos, ansiedade e, possivelmente, a comida duvidosa da noite anterior. m*l consegui olhar para o pequeno-almoço do hotel — e mesmo assim, peguei numa mini-croissant, só por teimosia. Estava seco. Claro.
E como sou uma mulher que aprende com os erros… decidi, novamente, ir a pé até ao aeroporto. Sim, com a mesma mala partida. Porque poupar uns trocos num táxi faz sentido, não é? Não estava propriamente a nadar em dinheiro.
O caminho foi uma tortura semelhante ao dia anterior, mas lá cheguei, já suada e com vontade de atirar a mala para um contentor.
Despachei a bagagem e, como ainda faltava imenso tempo para o embarque, sentei-me numa das cadeiras junto ao portão com o meu livro. Era um romance qualquer, com uma protagonista incrivelmente competente, sexy e elegante. Ou seja, tudo o que eu não era. Mesmo assim, deixei-me levar.
Estava finalmente num momento de calma — até que anunciaram o atraso do voo.
Claro. Porque a vida, para mim, nunca é um percurso direto. É sempre com escalas, desvios, e, de preferência, com um ou dois obstáculos no caminho para me dar nos nervos.
O voo foi adiado por duas horas. Ou seja, ia chegar à noite a uma cidade onde nunca pus os pés, sem saber o caminho até ao apartamento, cansada, com dores nas costas e com a expectativa de conhecer, no dia seguinte, o chef mais temido do país.
Decidi então ligar ao senhor do estúdio que tinha alugado. A voz do outro lado era de um homem de meia-idade, com aquele tom arrastado de quem já perdeu a paciência com tudo na vida — incluindo comigo, aparentemente.
“Sim?” atendeu ele, como se eu tivesse interrompido algo importantíssimo.
“Boa tarde! É a Jordan Parker. Queria só avisar que o voo se atrasou e devo chegar mais tarde do que o previsto…”
“Pois… tá bem. É só não tocar à campainha com força, que isso acorda o cão.”
E desligou. Pronto, já me sentia super bem-vinda. Só faltava o cão odiar-me à chegada e tentar arrancar-me a canela.
Olhei à minha volta. Famílias felizes, casais a rirem-se, gente a correr de um lado para o outro… e eu ali, com um estômago revoltado e um futuro incerto à minha frente. Tão incerto como o cheiro suspeito vindo da pastelaria ali ao lado.
Suspirei, fechei o livro e deixei-me levar pelos pensamentos. No chef Adam Black. Bonito, sim. Intimidador? Com certeza. Temido, respeitado, adorado por críticos e odiado por aprendizes. Um verdadeiro ditador do fogão. E eu, Jordan Parker, ia meter-me mesmo debaixo das asas dele — ou melhor, da frigideira dele. Esperta.
Mas uma parte de mim — minúscula, mas teimosa — ainda acreditava que talvez… só talvez… isto tudo fosse o começo de algo extraordinário. O início de um novo capítulo. A minha grande virada.
Ou então… era só o meu estômago a reclamar.
Nesse momento, ouvi o altifalante anunciar a a******a da porta de embarque ao mesmo tempo que uma cólica me atravessava como uma facada interna.
“Fodasse”, murmurei, dobrando-me ligeiramente para a frente enquanto agarrava o abdómen com uma mão e tentava puxar a mochila com a outra.
Toda a gente à minha volta levantava-se com entusiasmo, olhos brilhantes e aquele ar de “finalmente!”. Eu, por outro lado, estava ali a fazer cálculos mentais entre o tempo até ao embarque, a localização da casa de banho do aeroporto, e a hipótese de simplesmente desmaiar na fila.
Ir ou não ir? Arriscar ou não arriscar?
Optei por confiar nos deuses da aviação. Avião. Era só esperar mais um bocadinho. E ao menos, assim, não corria o risco de perder o voo depois de já ter esperado vinte e seis horas a mais do que devia.
Assim que finalmente entrei no avião, fui recebida por uma hospedeira de sorriso treinado.
“Boa tarde.”
“A casa de banho?” foi o meu cumprimento. Simples. Direto. Desesperado.
Ela apontou com gentileza britânica para o fundo do avião, e eu fui, mochila nas costas, passos apressados e nada discretos, tipo pinguim em pânico. Claro que o progresso foi interrompido várias vezes pelas pessoas à minha frente, que paravam a meio do corredor à procura do lugar.
Cheguei à casa de banho e, bom... sem grandes detalhes, digamos que foi um momento de libertação espiritual. E fisiológica. A Jordan de antes do voo ficou ali. A Jordan que saiu era uma versão um pouco mais leve, um pouco menos tensa — e ainda assim, perfeitamente ciente de que a viagem ainda agora começava.
Voltei para o meu lugar, acomodei-me na fila do meio, entre uma senhora que lia um livro de autoajuda com entusiasmo e um homem que já ressonava antes sequer das instruções de segurança começarem. Claro.
Encostei a cabeça ao encosto, respirei fundo e fechei os olhos. Amanhã seria o meu primeiro dia num mundo completamente diferente. Mas, para já, ainda tinha pela frente quatro horas de voo.
Respirei fundo. Pensei na cozinha. Pensei no Adam Black. Pensei… Ronco alto do vizinho da direita. Sim. Ia ser uma longa viagem.