A Alegria que se Espalha
O reino nascente já não era apenas um lugar de trabalho, crescimento e superação.
Agora…
Era também um lugar de celebração.
A notícia do noivado de Lia e Maphis havia se espalhado como o vento.
Rápida.
Leve.
Mas impossível de conter.
E, com ela…
Veio algo que há muito tempo não se via com tanta força.
Alegria coletiva.
As pessoas sorriam mais.
Conversavam mais.
Planejavam.
— O casamento vai ser grande.
— Tem que ser bonito.
— Eles merecem.
Não era apenas curiosidade.
Era carinho.
Porque aquele casamento…
Não era só deles.
Era do reino.
Naquela manhã, Lia caminhava entre as casas e percebia.
Os olhares diferentes.
Mais suaves.
Mais felizes.
— Já escolheu o vestido?
— Vai ser aqui mesmo?
— Quando vai ser?
Ela sorria.
Às vezes respondia.
Às vezes apenas ouvia.
Porque, no fundo…
Ela ainda estava absorvendo tudo.
Ela parou perto de um grupo de mulheres.
Tecidos estavam espalhados.
Linhas.
Detalhes.
— Vem cá, Lia!
Ela se aproximou.
— Estamos pensando nas coisas do casamento.
O coração dela acelerou levemente.
— Já?
— Claro!
Uma delas riu.
— Isso aqui não se faz sozinho.
Lia olhou para os tecidos.
Alguns claros.
Outros mais detalhados.
— Eu nunca pensei nisso de verdade…
— Agora vai pensar.
Ela sorriu.
— Eu acho que vou precisar de ajuda.
— Vai ter.
E aquilo…
Aqueceu algo dentro dela.
Porque, mais uma vez…
Ela não estava sozinha.
Do outro lado do reino, Maphis observava o movimento.
Mais gente.
Mais atividade.
Mas diferente de antes.
Não era apenas construção.
Era preparação.
Para algo maior.
Ele cruzou os braços.
E, por um momento…
Apenas olhou.
O reino.
O que tinham feito.
O que estavam se tornando.
E então…
Ela apareceu.
Lia.
Caminhando em direção a ele.
Sorrindo.
Com aquele brilho no olhar que ele já conhecia.
Mas que agora…
Parecia mais intenso.
Ele descruzou os braços.
E deu um passo à frente.
— Estão te cercando?
Ela riu.
— Estão.
— E você?
— Tô deixando.
Ele sorriu de leve.
— Eu imaginei.
Ela parou diante dele.
— Eles já estão planejando tudo.
— Eu percebi.
— Eu nem sei por onde começar.
— A gente descobre.
Ela assentiu.
— Juntos.
— Sempre.
O silêncio veio.
Mas não vazio.
Cheio.
Maphis olhou para ela.
Com atenção.
Com calma.
E, acima de tudo…
Com felicidade.
Lia percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Tá olhando diferente.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Tô.
— Por quê?
Ele respirou fundo.
— Porque isso é real.
Ela suavizou o olhar.
— Sempre foi.
— Agora mais.
Uma pausa.
— Agora todo mundo vê.
Ela olhou ao redor.
As pessoas.
O movimento.
A energia.
— É verdade.
Maphis deu um passo mais próximo.
— E você?
— O que tem eu?
— Tá feliz?
A resposta veio sem hesitação.
— Tô.
Uma pausa.
— E você?
— Tô.
Eles ficaram ali.
No meio do reino.
Mas, ao mesmo tempo…
Em um espaço só deles.
— Eu tava pensando…
Maphis começou.
— Sobre o quê?
— A cerimônia.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— O que tem?
— Eu quero que seja simples.
Ela sorriu.
— Eu também.
— Mas significativa.
— Isso não falta.
O silêncio veio novamente.
Mas leve.
— E depois?
Ela perguntou.
— Depois?
— Depois do casamento.
Ele a olhou.
— A gente começa.
Ela sorriu.
— A gente já começou.
— Então a gente continua.
O vento passou entre eles.
Leve.
E, naquele momento…
Não havia dúvida.
Nem medo.
Nem pressa.
Apenas certeza.
Mais tarde, o reino já estava iluminado por pequenas fogueiras.
As pessoas ainda conversavam sobre o casamento.
Planos.
Ideias.
Mas, para Lia e Maphis…
O que importava era mais simples.
Eles estavam sentados juntos.
Mais afastados.
Observando.
— Olha isso…
Lia disse.
— O quê?
— Tudo isso.
Ele olhou.
— Nosso reino.
— Nossa gente.
— Nossa vida.
Ela apoiou levemente a cabeça no ombro dele.
Um gesto simples.
Mas cheio de confiança.
— Eu nunca imaginei isso.
— Nem eu.
— E agora…
Ela respirou fundo.
— Tá acontecendo.
Maphis olhou para ela.
E, por um instante…
Tudo ficou em silêncio.
— Tá.
Ele levantou a mão dela.
Como sempre.
E beijou.
Com cuidado.
Com significado.
Lia fechou os olhos por um breve instante.
Sentindo.
Guardando.
Porque sabia.
Cada gesto.
Cada momento.
Cada escolha…
Estava construindo algo maior.
E o casamento…
Não era o fim.
Era apenas…
O começo de uma nova parte.
E o reino…
Celebrava.
Porque, no fundo…
Sabia.
Quando seus líderes estavam felizes…
Tudo ao redor florescia também.
A noite se aproximava com um silêncio diferente.
Não era apenas o fim de mais um dia no reino nascente.
Era… um chamado.
A lua começava a surgir no céu, ainda tímida, mas já anunciando o que viria.
Cheia.
Brilhante.
Poderosa.
Lia sentia antes mesmo de olhar.
Era como se algo dentro dela despertasse.
Um eco antigo.
Um chamado que não vinha de palavras…
Mas de essência.
Ela estava na casa de Eleonor.
Organizando algumas coisas.
Separando ervas.
Pequenos frascos.
Tecidos.
Tudo com cuidado.
Tudo com intenção.
Eleonor a observava em silêncio.
Não com curiosidade.
Mas com conhecimento.
— Vai fazer hoje.
Lia assentiu.
— Sim.
— Lua cheia.
— Eu sinto.
Ele se aproximou.
— Você não deve fazer isso sozinha.
Ela levantou o olhar.
— Eu nunca fiz.
— Antes era diferente.
Uma pausa.
— Agora você está mais conectada.
Lia ficou em silêncio.
Sentia isso também.
Mais intensidade.
Mais presença.
— O que eu faço?
Eleonor respondeu com calma.
— Chame Maphis.
Ela piscou.
— Ele?
— Sim.
— Por quê?
Ele sustentou o olhar dela.
— Porque você vai precisar de alguém que te mantenha ancorada.
Uma pausa.
— E ele é esse alguém.
O coração dela respondeu.
— Ele pode ver?
— Ele vai proteger.
O silêncio caiu.
Mas não houve dúvida.
— Eu vou chamar.
Lia saiu.
O céu já escurecia.
A lua ganhava força.
E ela caminhava…
Com propósito.
Maphis estava com alguns homens.
Organizando materiais.
Planejando melhorias.
Mas, quando a viu…
Parou.
— Lia?
Ela se aproximou.
— Posso falar com você?
Ele não hesitou.
— Claro.
Ele se afastou com ela.
— O que foi?
Ela respirou fundo.
— Eu preciso que você venha comigo hoje à noite.
Ele a observou.
Não com dúvida.
Mas com atenção.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não…
Uma pausa.
— Mas vai acontecer.
O silêncio veio.
— Explica.
Ela hesitou por um instante.
— É um ritual.
Ele não se moveu.
— Que tipo de ritual?
— Um que eu faço nas noites de lua cheia.
— E por que eu?
Ela respondeu sem hesitar.
— Porque eu preciso de você lá.
O olhar dele suavizou.
— Então eu vou.
Ela soltou o ar que nem percebeu que prendia.
— Obrigada.
— Sempre.
Mais tarde, quando a noite tomou completamente o céu…
Eles caminharam juntos.
Em direção ao riacho.
O mesmo lugar onde já haviam compartilhado momentos simples.
Mas, daquela vez…
Era diferente.
A lua iluminava o caminho.
Clara.
Forte.
A água refletia sua luz.
E o ambiente parecia…
Suspenso.
Entre dois mundos.
Lia parou na margem.
Colocou as coisas no chão.
Começou a organizar.
Ervas.
Pequenos recipientes.
Um tecido claro.
Maphis observava.
Em silêncio.
Mas atento a tudo.
— O que eu faço?
Ela olhou para ele.
— Fica.
Uma pausa.
— E não me deixa cair.
O coração dele respondeu com força.
— Eu não vou.
Ela tirou as luvas.
Como sempre fazia quando precisava usar sua energia.
As mãos livres.
A pele exposta.
Conectada.
Lia entrou na água.
Devagar.
Sentindo.
A temperatura.
A presença.
Maphis permaneceu próximo.
Na margem.
Mas pronto.
Ela fechou os olhos.
Respirou fundo.
E começou.
As mãos se moveram lentamente.
A água respondeu.
Pequenos movimentos.
Ondas suaves.
Como se reconhecesse.
A luz da lua tocava a superfície.
E refletia nela.
Lia sentiu.
A energia subindo.
Percorrendo o corpo.
Mais intensa do que antes.
Mais viva.
Maphis deu um passo mais próximo.
Sem interferir.
Mas presente.
A respiração dela mudou.
Mais profunda.
Mais distante.
— Lia…
Ele chamou baixo.
Ela não respondeu.
Mas não estava perdida.
Estava… conectada.
As mãos dela tocaram a água.
E a água brilhou.
Um leve calor se espalhou.
A mesma energia que aquecia…
Agora se expandia.
Maphis observava.
Sem medo.
Mas com respeito.
Ele não entendia tudo.
Mas entendia o essencial.
Ela precisava dele ali.
O corpo dela oscilou levemente.
E ele se aproximou mais.
— Eu tô aqui.
Ela não abriu os olhos.
Mas sentiu.
A energia começou a diminuir.
Lentamente.
Como uma maré recuando.
As mãos dela ficaram imóveis.
A respiração desacelerou.
E, então…
Ela abriu os olhos.
Cansada.
Mas consciente.
Maphis já estava ao lado.
Segurando-a antes mesmo que ela precisasse.
— Eu te peguei.
Ela respirou fundo.
— Eu senti.
Ela saiu da água com a ajuda dele.
As pernas ainda um pouco fracas.
Mas firmes.
Sentaram-se próximos.
O silêncio caiu.
Mas não vazio.
Cheio.
— Foi mais forte hoje.
Ela disse.
— Eu percebi.
— Eu quase…
Ela parou.
— Quase o quê?
— Me perdi.
Ele apertou levemente a mão dela.
— Mas não se perdeu.
— Porque você tava aqui.
O silêncio veio.
Mas agora…
Quente.
Seguro.
Lia encostou levemente nele.
Sem hesitar.
Sem medo.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer.
— Preciso.
Uma pausa.
— Eu não conseguiria sozinha.
Ele olhou para ela.
— Você não precisa fazer nada sozinha.
A lua continuava ali.
Observando.
Iluminando.
Guardando.
E, naquela noite…
O ritual não foi apenas sobre magia.
Foi sobre confiança.
Sobre entrega.
Sobre saber…
Que, mesmo nos momentos mais profundos…
Ela não estava só.
Porque ele estava ali.
E sempre estaria.
Não apenas como protetor.
Mas como parte dela.
E isso…
Era o que realmente mantinha tudo em equilíbrio.