Capítulo 2

1401 Words
KAEL --- O cheiro dela ainda estava na minha pele. Eu sentei no banco de trás da Mercedes preta, os olhos fixos no horizonte de São Paulo enquanto o carro deslizava pelo trânsito noturno. A cidade pulsava ao redor — luzes, buzinas, milhões de corações batendo em descompasso. Mas eu não via nada disso. Eu via ela. Selene Monteiro. O nome ecoava na minha cabeça como um tambor de guerra. Como um uivo distante. Como a promessa de uma caçada que eu esperava há anos. Fechei os olhos e inspirei fundo. Ainda estava lá. O cheiro dela. Não era perfume — ela usava algo sutil, caro, que combinava com o poder que ela exalava. Mas por baixo daquilo, havia algo mais primitivo. Mais antigo. Pólvora. Prata. Sangue. Cheiro de caçadora. Abri os olhos e encarei meu reflexo no vidro escuro. Meus olhos brilhavam amarelos. Eu não os controlava quando pensava nela. E isso era perigoso. — Chegamos, Sr. Alves. O motorista estacionou em frente ao edifício da Monteiro Holdings. Eu olhei para cima. A torre de vidro e aço se erguia contra o céu noturno, iluminada como uma espada pronta para cortar. Selene Monteiro estava lá em cima, em algum andar, provavelmente olhando para a cidade como se fosse dela. Como se o mundo fosse dela. Ela tinha razão. O mundo era dela. Por enquanto. — Espere aqui — disse ao motorista, abrindo a porta antes que ele pudesse sair. — Não vou demorar. — Mas, Sr. Alves, são 22h. O senhor tem reunião com a equipe de... — Espere aqui. — Minha voz saiu mais baixa. Mais grave. O motorista engoliu em seco e assentiu. Ele já tinha aprendido a não discutir comigo. Entrei no edifício. O saguão era impecável — mármore branco, luzes frias, recepcionistas com sorrisos ensaiados. Eu ignorei todos eles. Caminhei direto para o elevador privativo, o mesmo que eu tinha visto nos relatórios de segurança. A porta se fechou. O elevador subiu. E com cada andar, o lobo dentro de mim se agitava. Ela está ali. Ela está esperando. Ela não sabe o que você é. Ela vai descobrir. E você vai tê-la. O elevador parou. As portas se abriram para um andar inteiro de vidro e silêncio. A sala de Selene Monteiro. Ela estava de costas para mim, em pé diante da janela panorâmica. O vestido vermelho que ela usara na reunião tinha sido trocado por uma roupa mais casual — uma blusa preta e calças de alfaiataria. O cabelo escuro caía sobre os ombros, solto. Ela parecia mais vulnerável assim. Mas eu sabia que vulnerabilidade era uma armadura. — Você não perde tempo, Alves. — A voz dela ecoou no ambiente vazio. Ela não se virou. — Mandei o e-mail há três horas. Já está aqui, invadindo minha sala depois do expediente. — Você me convidou. — Convidei para amanhã. 9h. — Eu gosto de me antecipar. Ela finalmente se virou. Os olhos verdes me encontraram com uma fúria que eu já conhecia bem. Mas havia algo novo ali. Uma faísca. Uma dúvida. — Você não estava na reunião hoje — ela disse, inclinando a cabeça. — Enviou seu diretor financeiro. Mas estava me observando. Eu senti. Sorri. Lento. Controlado. — Você sentiu? — Não venha com jogos, Kael. Eu sei que você estava lá. Não sei como, mas estava. Ela deu um passo em minha direção. Eu não me movi. — Eu passei anos estudando você — continuou ela, a voz baixa e cortante. — Seus movimentos. Suas estratégias. Seus... truques. Você nunca envia subalternos para reuniões importantes. Você sempre vai pessoalmente. Mas hoje não foi. Por quê? — Você quer saber o motivo? — Estou perguntando. Outro passo. Ela estava perto agora. Cheiro de pólvora. De prata. De perigo. Mas também havia algo mais. Algo que eu não esperava. Medo. Não o medo que uma presa sente. Não. Era o medo de uma mulher que sabia que estava diante de algo que não compreendia. E que, mesmo assim, não recuava. Corajosa. Ou estúpida. — Eu não fui à reunião — disse, minha voz saindo mais rouca do que eu planejava — porque se eu fosse, teria matado alguém. Os olhos dela se arregalaram. Por um milésimo de segundo, a máscara caiu. — Isso é uma ameaça? — É uma verdade. Demos mais um passo. Agora estávamos a centímetros um do outro. Eu podia ver as pupilas dela se dilatarem. Podia ouvir o coração acelerado. Podia sentir o cheiro do desejo. Ela sentia. Mesmo que não quisesse. Mesmo que se odiasse por isso. — Você tem medo de mim, Selene? — sussurrei. Ela riu — um som amargo e desafiador. — Medo de você? Eu tenho nojo de você. — Então por que seu coração está acelerado? Ela congelou. Eu vi. Vi o momento em que ela percebeu que eu sabia. Que eu sentia. Que eu podia ouvir as coisas que ela não dizia. — Você não é normal — ela disse, a voz trêmula. — Não é humano. — Você está certa. — O que você é? — A resposta vai te assustar. — Eu não tenho medo de respostas. Inclinei a cabeça. Meus olhos deviam estar brilhando agora. Eu não podia controlar quando ela estava tão perto. O lobo queria sair. Queria marcá-la. — Você tem medo, Selene. — Minha voz era quase um rosnado. — Você tem medo de mim. Tem medo de si mesma. E tem medo do que está sentindo agora. Ela deu um passo para trás. Finalmente. A distância entre nós aumentou. — Saia da minha sala. — Não. — Eu disse... — Eu sei o que você disse. — Dei um passo à frente. Recuperei o espaço que ela tinha aberto. — Mas você precisa me ouvir primeiro. — O quê? — A fusão não é sobre negócios. Ela franziu a testa. — O que você quer dizer com isso? — Seu pai. — A palavra pairou no ar como uma lâmina. — Você acha que eu destruí ele. Acha que eu humilhei ele. E está certa. Mas você não sabe o motivo. — Eu não quero saber... — Seu pai era um assassino. O silêncio foi absoluto. Selene ficou imóvel. O rosto pálido. Os olhos verdes fixos nos meus. — Como você ousa — ela sussurrou. — Ele caçava criaturas. Seres que você nem imagina que existem. Ele matou minha família. Matou meu pai. — Minha voz estava calma. Fria. Mas o lobo dentro de mim rugia. — Sua família é uma linhagem de caçadores, Selene. Você é herdeira de algo muito mais sombrio do que um império empresarial. Ela balançou a cabeça. — Isso é mentira. Você está inventando isso para... — Eu fui até o porão da sua mansão. Ela empalideceu. — O que? — Seu pai guardava tudo lá. Diários. Armas. Fotos. A verdade. — Eu me inclinei, minha boca perto do ouvido dela. — Você nunca desceu lá, pois não? Sempre teve medo do que encontraria. Selene se afastou. As mãos tremiam. — Saia. — A voz dela estava quebrada. — Saia agora, ou vou chamar a segurança. — Chame. Eles não vão chegar a tempo. — Kael... — Eu não vim aqui para te machucar. — Então o que você quer? Eu olhei nos olhos dela. Olhos verdes. Cheios de fúria. Cheios de medo. Cheios de algo que ela não queria nomear. — Eu quero que você descubra a verdade — disse. — Quero que você desça no porão da sua própria casa e veja com seus próprios olhos. E quando você souber quem seu pai realmente era... então você vai entender. — Entender o quê? — Que você e eu, Selene, não somos inimigos. Somos sobreviventes de uma guerra que começou antes de nascermos. Virei as costas e caminhei para o elevador. — Kael! — Ela gritou meu nome. Parei. Não virei. — Amanhã, 9h — ela disse, a voz trêmula. — Você vai estar na reunião. E vai responder todas as minhas perguntas. — Vou. — E depois disso... — Ela hesitou. — Depois disso, você vai embora da minha vida. Virei a cabeça. Olhei por cima do ombro. Sorri. — Não vou. — Minha voz era um sussurro. — E você sabe disso. O elevador se fechou. E eu a deixei lá, sozinha, com o eco das minhas palavras e o cheiro de pólvora queimando no ar.
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