KAEL
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O cheiro dela ainda estava na minha pele.
Eu sentei no banco de trás da Mercedes preta, os olhos fixos no horizonte de São Paulo enquanto o carro deslizava pelo trânsito noturno. A cidade pulsava ao redor — luzes, buzinas, milhões de corações batendo em descompasso. Mas eu não via nada disso.
Eu via ela.
Selene Monteiro.
O nome ecoava na minha cabeça como um tambor de guerra. Como um uivo distante. Como a promessa de uma caçada que eu esperava há anos.
Fechei os olhos e inspirei fundo. Ainda estava lá. O cheiro dela. Não era perfume — ela usava algo sutil, caro, que combinava com o poder que ela exalava. Mas por baixo daquilo, havia algo mais primitivo. Mais antigo.
Pólvora.
Prata.
Sangue.
Cheiro de caçadora.
Abri os olhos e encarei meu reflexo no vidro escuro. Meus olhos brilhavam amarelos. Eu não os controlava quando pensava nela. E isso era perigoso.
— Chegamos, Sr. Alves.
O motorista estacionou em frente ao edifício da Monteiro Holdings. Eu olhei para cima. A torre de vidro e aço se erguia contra o céu noturno, iluminada como uma espada pronta para cortar. Selene Monteiro estava lá em cima, em algum andar, provavelmente olhando para a cidade como se fosse dela.
Como se o mundo fosse dela.
Ela tinha razão. O mundo era dela. Por enquanto.
— Espere aqui — disse ao motorista, abrindo a porta antes que ele pudesse sair. — Não vou demorar.
— Mas, Sr. Alves, são 22h. O senhor tem reunião com a equipe de...
— Espere aqui. — Minha voz saiu mais baixa. Mais grave. O motorista engoliu em seco e assentiu. Ele já tinha aprendido a não discutir comigo.
Entrei no edifício. O saguão era impecável — mármore branco, luzes frias, recepcionistas com sorrisos ensaiados. Eu ignorei todos eles. Caminhei direto para o elevador privativo, o mesmo que eu tinha visto nos relatórios de segurança.
A porta se fechou. O elevador subiu.
E com cada andar, o lobo dentro de mim se agitava.
Ela está ali.
Ela está esperando.
Ela não sabe o que você é.
Ela vai descobrir.
E você vai tê-la.
O elevador parou. As portas se abriram para um andar inteiro de vidro e silêncio. A sala de Selene Monteiro.
Ela estava de costas para mim, em pé diante da janela panorâmica. O vestido vermelho que ela usara na reunião tinha sido trocado por uma roupa mais casual — uma blusa preta e calças de alfaiataria. O cabelo escuro caía sobre os ombros, solto. Ela parecia mais vulnerável assim.
Mas eu sabia que vulnerabilidade era uma armadura.
— Você não perde tempo, Alves. — A voz dela ecoou no ambiente vazio. Ela não se virou. — Mandei o e-mail há três horas. Já está aqui, invadindo minha sala depois do expediente.
— Você me convidou.
— Convidei para amanhã. 9h.
— Eu gosto de me antecipar.
Ela finalmente se virou. Os olhos verdes me encontraram com uma fúria que eu já conhecia bem. Mas havia algo novo ali. Uma faísca. Uma dúvida.
— Você não estava na reunião hoje — ela disse, inclinando a cabeça. — Enviou seu diretor financeiro. Mas estava me observando. Eu senti.
Sorri. Lento. Controlado.
— Você sentiu?
— Não venha com jogos, Kael. Eu sei que você estava lá. Não sei como, mas estava.
Ela deu um passo em minha direção. Eu não me movi.
— Eu passei anos estudando você — continuou ela, a voz baixa e cortante. — Seus movimentos. Suas estratégias. Seus... truques. Você nunca envia subalternos para reuniões importantes. Você sempre vai pessoalmente. Mas hoje não foi. Por quê?
— Você quer saber o motivo?
— Estou perguntando.
Outro passo. Ela estava perto agora. Cheiro de pólvora. De prata. De perigo.
Mas também havia algo mais. Algo que eu não esperava.
Medo.
Não o medo que uma presa sente. Não. Era o medo de uma mulher que sabia que estava diante de algo que não compreendia. E que, mesmo assim, não recuava.
Corajosa.
Ou estúpida.
— Eu não fui à reunião — disse, minha voz saindo mais rouca do que eu planejava — porque se eu fosse, teria matado alguém.
Os olhos dela se arregalaram. Por um milésimo de segundo, a máscara caiu.
— Isso é uma ameaça?
— É uma verdade.
Demos mais um passo. Agora estávamos a centímetros um do outro. Eu podia ver as pupilas dela se dilatarem. Podia ouvir o coração acelerado.
Podia sentir o cheiro do desejo.
Ela sentia. Mesmo que não quisesse. Mesmo que se odiasse por isso.
— Você tem medo de mim, Selene? — sussurrei.
Ela riu — um som amargo e desafiador.
— Medo de você? Eu tenho nojo de você.
— Então por que seu coração está acelerado?
Ela congelou.
Eu vi. Vi o momento em que ela percebeu que eu sabia. Que eu sentia. Que eu podia ouvir as coisas que ela não dizia.
— Você não é normal — ela disse, a voz trêmula. — Não é humano.
— Você está certa.
— O que você é?
— A resposta vai te assustar.
— Eu não tenho medo de respostas.
Inclinei a cabeça. Meus olhos deviam estar brilhando agora. Eu não podia controlar quando ela estava tão perto. O lobo queria sair. Queria marcá-la.
— Você tem medo, Selene. — Minha voz era quase um rosnado. — Você tem medo de mim. Tem medo de si mesma. E tem medo do que está sentindo agora.
Ela deu um passo para trás. Finalmente. A distância entre nós aumentou.
— Saia da minha sala.
— Não.
— Eu disse...
— Eu sei o que você disse. — Dei um passo à frente. Recuperei o espaço que ela tinha aberto. — Mas você precisa me ouvir primeiro.
— O quê?
— A fusão não é sobre negócios.
Ela franziu a testa.
— O que você quer dizer com isso?
— Seu pai. — A palavra pairou no ar como uma lâmina. — Você acha que eu destruí ele. Acha que eu humilhei ele. E está certa. Mas você não sabe o motivo.
— Eu não quero saber...
— Seu pai era um assassino.
O silêncio foi absoluto.
Selene ficou imóvel. O rosto pálido. Os olhos verdes fixos nos meus.
— Como você ousa — ela sussurrou.
— Ele caçava criaturas. Seres que você nem imagina que existem. Ele matou minha família. Matou meu pai. — Minha voz estava calma. Fria. Mas o lobo dentro de mim rugia. — Sua família é uma linhagem de caçadores, Selene. Você é herdeira de algo muito mais sombrio do que um império empresarial.
Ela balançou a cabeça.
— Isso é mentira. Você está inventando isso para...
— Eu fui até o porão da sua mansão.
Ela empalideceu.
— O que?
— Seu pai guardava tudo lá. Diários. Armas. Fotos. A verdade. — Eu me inclinei, minha boca perto do ouvido dela. — Você nunca desceu lá, pois não? Sempre teve medo do que encontraria.
Selene se afastou. As mãos tremiam.
— Saia. — A voz dela estava quebrada. — Saia agora, ou vou chamar a segurança.
— Chame. Eles não vão chegar a tempo.
— Kael...
— Eu não vim aqui para te machucar.
— Então o que você quer?
Eu olhei nos olhos dela. Olhos verdes. Cheios de fúria. Cheios de medo. Cheios de algo que ela não queria nomear.
— Eu quero que você descubra a verdade — disse. — Quero que você desça no porão da sua própria casa e veja com seus próprios olhos. E quando você souber quem seu pai realmente era... então você vai entender.
— Entender o quê?
— Que você e eu, Selene, não somos inimigos. Somos sobreviventes de uma guerra que começou antes de nascermos.
Virei as costas e caminhei para o elevador.
— Kael! — Ela gritou meu nome.
Parei. Não virei.
— Amanhã, 9h — ela disse, a voz trêmula. — Você vai estar na reunião. E vai responder todas as minhas perguntas.
— Vou.
— E depois disso... — Ela hesitou. — Depois disso, você vai embora da minha vida.
Virei a cabeça. Olhei por cima do ombro. Sorri.
— Não vou. — Minha voz era um sussurro. — E você sabe disso.
O elevador se fechou.
E eu a deixei lá, sozinha, com o eco das minhas palavras e o cheiro de pólvora queimando no ar.