Capítulo 3 - Suspeitas

869 Words
*Narrado através da perspetiva de Camila* Três meses haviam se passado rapidamente em meio a estudos, provas e idas ao clube com os pais. Com o tempo, Camila começou a esquecer de verdade o que tinha acontecido, a coisa toda ainda a atormentava de vez em quando, mas na maior parte do tempo estava ocupada demais para deixar as lembranças irem muito longe. Para ajudar, Alice havia se afastado de uma vez por todas dela depois de mandar mensagens pedindo desculpas e avisando que apagara o vídeo. E por longos três meses, Camila realmente se permitiu acreditar que estava livre daquela noite terrível, que com o tempo acabaria esquecendo o que acontecera e tudo não passaria de uma experiência r*im e isolada, e foi aí que a coisa toda voltou a desandar. Literalmente. — Acho que foi algo que comi — ela tentou justificar naquela manhã de sexta-feira, não queria deixar transparecer como o m*l estar rotineiro começava a assustá-la. O primeiro enjoou da semana realmente pareceu uma coisa boba, talvez uma comida que não lhe fizera bem, mas quando continuou se repetindo dia após dia, todas as manhãs... Ela passou a cogitar a hipótese de estar doente. Camila saiu do banheiro da faculdade abanando o rosto. Depois dos dois primeiros enjoos, havia decidido que não faria mais a primeira refeição em casa, porque era muito difícil pedir licença da mesa para ir correndo vomitar no banheiro sem que os seus pais fossem atrás dela para saber o motivo de ter levantado no meio de uma refeição. As refeições eram sagradas para eles, isso quando tinham algum tempo de comer em casa. Qualquer interrupção era criticada e precisava ser justificada, e como ela justificaria sua saída da mesa sem informar que qualquer coisa que tentava engolir no café da manhã lhe despertava uma ânsia de vômito sem precedentes? Ela não queria que eles começassem a pegar no seu pé com a história de manter a saúde em dia. Eles já pegavam no seu pé por coisas demais, se desse para evitar mais um tópico de discussão, ela evitaria como o d***o evita a cruz. Ao chegar no corredor, viu Elisa a olhando de uma forma estranha, as sobrancelhas franzidas e o rosto mais pálido que o normal. Ela se aproximou da amiga, mesmo sentindo vontade de se esconder daquele olhar. — Que foi? — Camila já imaginava alguma catástrofe na vida da outra. Quer dizer, ela não era preconceituosa nem nada, mas sabia que Elisa vivia no meio do morro. E Camila foi criada sendo ensinada que as pessoas que moram por lá estão sempre em contato com a marginalidade e o risco, sempre a um passo da m*rte, ao menos segundo o que os seus pais diziam, é claro. E ela também sabia que o irmão de Elisa era envolvido no tr*fico por lá, ou ao menos presumia isso pelas coisas que a amiga deixara escapar antes de descobrir que ela era filha de policiais. Depois da descoberta, Elisa evitava ao máximo falar do morro, e Camila era grata por isso. Odiaria ter informações que os pais pudessem lhe arrancar depois, caso chegasse aos ouvidos deles que tinha conhecimento de algo — Você está com cara de quem viu um fantasma — ela continuou, parando na frente da amiga — Está tudo bem? — Você passou a semana toda vomitando, não é? — Elisa a olhava com atenção, ela assentiu. — É, mas não precisa se preocupar com isso, deve ter sido algo que comi... A amiga meneou a cabeça, segurando as suas mãos. Só aquela atitude já a fez ficar em alerta, segurar as mãos uma da outra era um costume que tinham quando queriam contar um segredo, ou uma coisa difícil de engolir. — Elisa, o que foi? — Naquela... época do seu incidente na boate — a outra começou, olhando para os dois lados do corredor para ver se alguém as ouvia — Eu mandei você comprar as pílulas do dia seguinte, lembra? Porque não dava para confiar na Alice. Me diz que você comprou... Camila desviou o olhar para o chão, não só porque odiava voltar naquele assunto, mas também porque não havia comprado pílula alguma, assim como não havia feito os exames de sangue que a amiga recomendou que fizesse para checa a possibilidade de ter contraído alguma doença. — Ah, p*ta merda — ouviu Elisa praguejar — Por que você não comprou? — Como eu ia comprar? — ela voltou a encará-la, na defensiva — O cartão que eu uso é vinculado ao dos meus pais, eles iam ver a notificação da farmácia e perguntar o motivo de eu ter comprado o remédio e o que eu comprei. — C*ralho, Cah, por que tu não me pediu o dinheiro? Ou me pediu para comprar para você? — sempre que ficava nervosa, Elisa usava aquela linguagem menos formal. Normalmente Camila achava engraçado, mas naquela manhã estava chateada demais com o rumo da conversa para reparar na graça daquilo. — Por que você está voltando nesse assunto agora? — rebateu, sem querer entrar no assunto. Elisa suspirou. — Porque eu acho que essa comida que tu acha que te fez m*l, é um bebê.
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