Capítulo 41: O Movimento

1228 Words
Kido O morro não cai de uma vez. Ele racha. Em silêncio. Primeiro nas conversas. Depois nos olhares. E quando você percebe… já tem gente demais escolhendo lado. Eu vi isso acontecendo. Antes de todo mundo. Antes do barulho. Antes da confusão. Eu senti. E era por isso que eu estava ali. Não reagindo. Agindo. A sede improvisada ficava no alto, longe do fluxo principal. Um lugar que não chamava atenção… mas via tudo. Do lado de fora, dois homens de confiança. Do lado de dentro, silêncio. E ele. Zeca. Sentado como se ainda tivesse controle. Mas eu vi. Nos detalhes. Nos dedos inquietos. No olhar mais atento do que o normal. Ele estava pressionado. E isso… tornava tudo mais fácil. — Você demorou — disse ele, sem levantar. Fechei a porta atrás de mim. — Eu não corro quando o chão ainda está firme. Ele soltou um riso curto. — O chão aqui nunca esteve tão instável. Caminhei devagar até a mesa. Sentei na frente dele. Sem pressa. Sem cerimônia. — Eu sei. O silêncio caiu. Pesado. Mas não desconfortável. Estratégico. — Então… — ele apoiou os braços na mesa — veio terminar o serviço? Inclinei levemente a cabeça. — Vim começar. Os olhos dele estreitaram. — Fala. Respirei fundo. Não porque precisava. Mas porque cada palavra ali… tinha peso. — O Erick não é o problema. Zeca franziu a testa. — Não? — Ele é consequência. — De quê? — De você. O silêncio voltou. Mas agora… mais tenso. — Cuidado — disse ele, baixo. — Não. Balancei a cabeça devagar. — Você já perdeu o controle. — Ele só aproveitou. — Eu ainda mando aqui. — Não como antes. A verdade incomoda. Sempre. E eu vi. Na forma como o maxilar dele travou. — Então você veio aqui pra me provocar? — Não. Me inclinei um pouco à frente. — Eu vim te oferecer saída. Aquilo chamou atenção. Claro que chamou. — Que tipo de saída? — A única que você ainda tem. Silêncio. Curto. Direto. — Continua. — Você quer manter o poder. — Eu quero manter o que é meu. — Então você precisa parar de perder. Ele me encarou. Longo. — E como você sugere isso? Agora… Chegamos no ponto. — Separando eles. A expressão dele mudou. Sutil. Mas mudou. — Ariane… e o Erick. O nome dela no meio da conversa… Nunca era neutro. — Já tentei — disse ele. — Não funcionou. — Porque você tentou errado. — E você sabe o jeito certo? Segurei o olhar. — Sei. O silêncio ficou mais denso. Mais interessado. — Então fala. Encostei na cadeira. Calmo. Controlado. — Enquanto eles estiverem juntos… — Ele tem acesso. — E ela tem proteção. — Você não consegue atingir um… sem fortalecer o outro. Zeca ficou em silêncio. Pensando. — E qual é o seu plano? — Quebrar a confiança. — Isso não é tão simples. — Nada aqui é. Inclinei levemente o corpo. — Mas é possível. — Como? Agora… A parte suja. — Você conhece ela. — Melhor que ele. — Melhor que eu. Ele assentiu, devagar. — Então usa isso. — Usa como? — Faz ela duvidar dele. — Do quê? — Das intenções. — Da presença. — Do impacto dele aqui. Zeca cruzou os braços. — Isso já está acontecendo. — Ainda não é suficiente. — Então o que você quer? Olhei direto nos olhos dele. — Eu quero que ela escolha sair de perto dele. — Sozinha. O silêncio caiu pesado. — Você quer manipular ela. — Eu quero proteger o morro. Ele soltou um riso baixo. — E desde quando você se preocupa tanto com isso? — Desde que começou a quebrar. A resposta saiu simples. Mas verdadeira. E ele percebeu. — E o que você ganha com isso? A pergunta veio inevitável. Eu não desviei. — Ela. Silêncio. Pesado. Honesto. Zeca me estudou por alguns segundos. — Então é pessoal. — Sempre foi. — Isso é perigoso. — Eu sei. — E mesmo assim você vai fazer. — Já estou fazendo. Ele respirou fundo. Passou a mão no rosto. — E qual é o meu papel nisso? — Você é o gatilho. — Explica. Inclinei um pouco mais pra frente. Agora sem espaço pra dúvida. — Você precisa criar situações onde o Erick pareça o problema. — Ele já parece. — Não o suficiente pra ela. Zeca assentiu lentamente. — E depois? — Depois… você oferece solução. — Eu? — Sim. — Você é o único que ainda tem história com ela. — Mesmo quebrada. — Ainda existe. Ele ficou em silêncio. Pesando. Calculando. — E você? — Eu entro depois. — Quando ela estiver vulnerável. — Quando ela precisar de alguém que não seja ele. A honestidade ali era crua. Sem maquiagem. E ele entendeu. — Você quer ela fragilizada. — Eu quero ela livre dele. — Isso não é a mesma coisa. — Aqui… dá no mesmo. O silêncio ficou longo. Pesado. Decisivo. — E se isso der errado? — perguntou ele. — Já está dando. — E se ela descobrir? Sustentei o olhar. — Ela não vai. — E se for tarde demais? — Então a gente já perdeu. Zeca soltou o ar devagar. Como alguém que sabia… Que estava entrando em algo maior do que queria. — Você é frio. — Eu sou necessário. Ele riu. De verdade dessa vez. Mas sem alegria. — Você e o Erick… — Dois lados da mesma moeda. Balancei a cabeça. — Não. — Ele quer mudar o morro. — Eu quero manter. — E você acha que consegue? — Eu sei que ele não. Silêncio. Mais uma vez. Mas agora… Mais alinhado. — Tá — disse Zeca finalmente. — Eu topo. Não houve celebração. Não houve alívio. Só confirmação. — Mas tem uma condição. Eu já esperava. — Fala. — Eu não caio sozinho. Assenti. — Não vai. — Se eu afundar… — Levo todo mundo. — Inclusive você. — Eu sei. — E mesmo assim está aqui. — Porque o risco vale. Zeca me encarou por mais um tempo. E então assentiu. — Então vamos jogar. Levantei. Sem pressa. Sem pressa nunca. — Já estamos jogando. Caminhei até a porta. Mas antes de sair… Parei. — Uma coisa. Ele levantou o olhar. — Não encosta nela. A frase saiu baixa. Mas carregada. — Isso não é parte do acordo. Zeca sorriu de lado. — Relaxa. — Eu sei o que estou fazendo. Eu segurei o olhar. Por mais um segundo. Só pra deixar claro. — Espero que saiba mesmo. Saí. A porta fechou atrás de mim com um som seco. E o ar do lado de fora parecia diferente. Mais pesado. Mais carregado. Porque agora… Não era mais reação. Era plano. Movimento. Estratégia. E, pela primeira vez desde que tudo começou… Eu não estava esperando o próximo passo. Eu estava criando. Mas enquanto descia a viela… Uma coisa ficou clara. Isso não era só sobre o morro. Não era só sobre poder. Era sobre ela. Sempre foi. E talvez… Esse fosse o único ponto onde eu realmente corria risco. Porque diferente do Erick… Eu conhecia ela antes da guerra. Antes do dinheiro. Antes de tudo. E mesmo assim… Nunca consegui fazer ela me escolher. Mas agora… Agora o jogo mudou. E dessa vez… Eu não ia perder.
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