Capítulo 33: O Show

1024 Words
Ariane O som começou antes mesmo de eu subir no palco. Grave. Forte. Vibrando no peito como um segundo coração. A quadra estava lotada. Gente em cima das muretas, nas escadas, pendurada nas grades, ocupando cada espaço possível. Luzes improvisadas piscavam, fios cruzando o céu como se o morro inteiro tivesse decidido se acender por dentro naquela noite. Era mais do que um show. Era uma resposta. Depois do vídeo. Depois dos rumores. Depois da guerra silenciosa que todo mundo sentia, mas ninguém falava em voz alta. Eu respirei fundo atrás do palco improvisado. Minhas mãos estavam frias. O corpo tenso. Mas não era medo. Era pressão. Aquela sensação de que tudo o que eu dissesse ali… teria peso. — Tá pronta? — perguntou Duda, me entregando o microfone. Assenti. — Sempre estive. Mentira. Mas algumas mentiras a gente precisa contar pra si mesma antes de enfrentar o mundo. O DJ fez um corte seco na batida. O burburinho aumentou. E então a voz ecoou nos alto-falantes: — Com vocês… a voz do morro… ARIANE! O grito da multidão veio como uma onda. Alto. Vivo. Quase físico. E foi ali que tudo mudou. Assim que eu pisei no palco, o mundo deixou de ser confuso. Porque aquele era o meu lugar. Sempre foi. A luz bateu no meu rosto. O calor das pessoas. O cheiro de suor, cerveja e noite quente. E o som… O som me puxou de volta pra mim mesma. — Boa noite, Rocinha! O grito foi ainda mais alto. — Hoje ninguém cala ninguém! A batida entrou. Seca. Grave. E eu comecei. As palavras saíram como se já estivessem esperando. Como se tudo o que eu tinha vivido nos últimos dias estivesse preso dentro de mim, pronto pra explodir em forma de verso. “Querem meu nome em contrato assinado, Querem meu som num produto embalado, Querem meu corpo, meu grito calado, Mas eu nasci pra ser eco, não mercado.” A multidão respondeu. Mãos pro alto. Gritos. Corpos se movendo juntos. Era energia pura. Era verdade. Continuei. “Tem sangue na viela, tem ouro no chão, Tem gente vendendo a própria nação, Mas eu sou raiz, não sou negociação, Quem tenta me prender não entende a missão.” Eu sentia cada palavra vibrar. Cada olhar me acompanhando. Cada pessoa ali… acreditando. E então… Algo mudou. Foi sutil no começo. Uma quebra pequena no ritmo da multidão. Um espaço que se abriu no meio das pessoas. Não foi grande. Mas foi suficiente. E meu corpo sentiu antes mesmo dos olhos confirmarem. Eu olhei. E vi. Kido. No meio da multidão. Parado. Imóvel. Os outros ao redor dele ainda pulavam, cantavam, se moviam. Mas ele não. Ele só me olhava. Fixo. Direto. Como se o resto do mundo não existisse. Meu estômago apertou. Mas a música continuava. E eu não podia parar. Não ali. Não agora. Respirei fundo. E segui. “Não é promessa que compra respeito, Não é dinheiro que muda meu peito, Quem quer meu som vai ter que entender, Eu canto livre, não canto pra vender.” Mas agora… Cada palavra parecia mais pesada. Porque eu sentia o olhar dele. Como uma presença física. Como uma mão invisível apertando o ar ao meu redor. Ele não estava armado. Não estava ameaçando abertamente. Mas havia algo ali. Algo silencioso. Algo que dizia mais do que qualquer grito. Controle. Desci um pouco pelo palco. A multidão reagiu. Mas meus olhos voltaram para ele sem que eu quisesse. E ele continuava ali. Me encarando. Sem piscar. Sem desviar. Como se estivesse esperando. Testando. Desafiando. Meu coração acelerou. Mas eu levantei o queixo. E continuei. Porque se tinha uma coisa que eu não ia fazer… Era abaixar a cabeça. A música mudou. Nova batida. Mais lenta. Mais pesada. Mais íntima. Peguei o caderno no bolso da jaqueta. Abri. E encontrei o verso que escrevi mais cedo. Aquele que ainda estava quente. Ainda sangrando. Olhei para a multidão. Depois… Para ele. E comecei. “Três mãos puxando meu braço na subida, Uma quer meu sangue, outra quer minha vida, A terceira promete um caminho dourado, Mas todas esquecem quem tá do outro lado.” O silêncio caiu. Não completo. Mas denso. Aquele tipo de silêncio que escuta. Que absorve. Que entende. “Não sou troféu, nem moeda, nem chão, Não sou promessa na mão de um patrão, Se a guerra me chama, eu viro trovão, Porque quem nasce no morro não pede permissão.” A multidão explodiu. Gritos. Aplausos. Mas no meio de tudo aquilo… Eu só via ele. Kido deu um passo à frente. Apenas um. Mas foi o suficiente. Meu corpo reagiu. Um arrepio subiu pela espinha. E, pela primeira vez naquela noite… Eu senti. Medo. Não de violência. Não de morte. Mas de algo mais complicado. De perder o controle da situação. De não saber até onde aquilo podia ir. Ele inclinou levemente a cabeça. Quase imperceptível. Como um gesto de reconhecimento. Ou de aviso. Não dava pra saber. Continuei cantando. Mas agora minha mente estava dividida. Metade no público. Metade nele. E aquilo era perigoso. Porque palco exige presença total. E ele estava roubando a minha. A música acabou. O DJ segurou a batida. O público gritava meu nome. Mas eu não conseguia me mover por um segundo. Porque Kido ainda estava lá. E agora… Sorria. Não um sorriso aberto. Mas algo menor. Mais controlado. Mais… dono. Engoli seco. Levantei o microfone. — Vocês estão vivos? A resposta veio em coro. — SIM! Forcei um sorriso. — Então grita comigo! A batida voltou. Mais rápida. Mais agressiva. Eu precisava retomar o controle. E sabia como fazer isso. Energia. Volume. Presença. Mas mesmo assim… No fundo… Eu sabia. Aquela noite não era só minha. Era dele também. Porque ele tinha aparecido. Não pra assistir. Mas pra marcar território. E eu… estava no centro dele. Continuei o show. Até o fim. Com força. Com entrega. Com tudo. Mas quando desci do palco… Com o corpo suado e o coração acelerado… Eu já sabia: A guerra tinha subido de nível. E Kido não precisava dizer uma palavra sequer pra deixar isso claro.
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