Eu me endireitei, olhando pra costas dele.
— Noah... o que está acontecendo?
Ele parou. As costas tensionadas, os ombros erguidos. E eu soube, antes mesmo de ouvir qualquer resposta, que ele lembrava. Ele tinha ouvido. A minha confissão, dita com voz de sono, não tinha passado batido.
— Então... — soltei, tentando soar casual, quase rindo. — Sobre ontem à noite... você sabe, aquilo que eu disse...
Ele virou o rosto devagar, e eu vi como a mandíbula dele estava tensa.
— Você... tava falando sério?
Respirei fundo. Não tinha mais pra onde correr.
— Sim — confessei, olhando direto nos olhos dele. — Vai fazer alguma coisa sobre?
Ele soltou a panela que estava lavando na pia com um barulho metálico e se virou de forma brusca, me pegando de surpresa.
— Ayla, não brinca com uma coisa dessas. — A voz dele saiu dura, firme. Eu nunca tinha visto ele assim. Parecia assustado. Assustado com a possibilidade da minha paixonite ser real.
— Eu não tô brincando — dei de ombros, tentando parecer despreocupada. Como se aquilo não fosse grande coisa pra mim. Mas era. Só que pra ele... parecia ser muito mais.
Ele caminhou até mim, os passos lentos, o olhar preocupado. Pegou minha mão com tanta delicadeza que eu me senti com dez anos de novo.
— Ayla, querida... — disse num tom mais suave — Você só tem 15 anos.
Engoli seco. Aquilo doeu. Não por ele estar errado. Mas por me fazer sentir pequena. Como se meus sentimentos não tivessem espaço no mundo real. Como se eu estivesse apenas fantasiando.
Mas eu sabia o que eu sentia, sabia que era verdadeiro. E isso me enche de raiva.
Dei um sorriso de lado irônica:
– Eu sei o que eu sinto, você vai precisar se acostumar com isso. — falei, tirando minha mão da dele com calma e me aproximando. Levei meus dedos até o peito dele, sentindo-o segurar a respiração.
Inclinei a cabeça levemente e disse, com um brilho no olhar:
— Mas eu tenho uma ideia melhor... No meu aniversário de 18 anos, exatamente daqui a três anos, você poderia me dar o segundo melhor presente.
Os olhos dele desviaram dos meus por um instante. Noah abaixou o olhar como quem precisava de um segundo para pensar — ou fugir da resposta que talvez já conhecesse. O silêncio entre nós ficou denso por um momento, como se ele tivesse medo do que viria.
Então, lentamente, ele segurou minha mão — que ainda repousava sobre seu peito — e a envolveu com a palma da sua. A pele dele estava fria, como sempre, mas o toque tinha uma delicadeza que não combinava com o jeito normalmente fechado dele. Era como se ali, naquele instante, ele abrisse uma brecha pequena no muro que sempre mantinha entre nós.
— E qual seria? — perguntou, a voz mais baixa do que o normal. Havia receio ali. Não só o medo da minha resposta, mas também da dele. Como se parte dele quisesse saber... e parte desejasse nunca ter perguntado.
Eu o encarei por um momento, absorvendo aquele lado do Noah que pouca gente conhecia. Atrás das sobrancelhas sempre franzidas, das respostas curtas e do jeito sisudo, existia alguém que se importava. Alguém que, com todas as dificuldades, cuidava de mim à sua maneira.
E era por isso que eu ousava dizer o que disse a seguir. Mesmo sabendo que talvez ele risse, ou mudasse de assunto, ou fugisse de mim como sempre fazia quando a conversa se aproximava de sentimentos.
Eu respirei fundo. E sorri de canto, com aquele toque de travessura que eu usava quando queria deixá-lo desconcertado.
E antes que perdesse a coragem, deixei as palavras escaparem com um sorriso provocador:
— Um beijo — disse. Simples assim. Mas a simplicidade só estava nas palavras, porque dentro de mim tudo era caos.
O silêncio entre nós ficou mais espesso. Ele não soltou minha mão, mas também não disse nada. Só ficou me olhando, como se não tivesse certeza se tinha ouvido direito.
— Um beijo de presente — repeti, suavemente, tentando manter o tom leve, quase como se fosse brincadeira. Mas meus olhos entregavam tudo. Eu não estava brincando.
— Ayla... — ele murmurou meu nome,
hesitante. — Você tem só 15 anos. É jovem demais pra saber o que vai querer daqui a três, cinco, dez.
Eu dei um sorriso de canto, sem perder os olhos nos dele.
— Talvez… — admiti. — Mas o que eu sinto agora… é real pra mim.
Ele respirou fundo, daquele jeito que faz quando está tentando encontrar a forma mais cuidadosa de dizer algo que possa me ferir. E então fez o que sempre fazia quando não queria discutir, mas também não queria me afastar: apertou minha mão com ternura. Como se soubesse que palavras poderiam não bastar.
— Se quando tiver 18, você ainda quiser, a gente conversa.
Não foi um sim.
E eu soube disso na hora. A voz dele carregava mais medo do que esperança.
Mas também não foi um não.
Foi um espaço deixado em aberto. Um cuidado disfarçado de promessa. Algo que ele, no fundo, torcia pra que eu esquecesse com o tempo.
Mas o tempo… ele não sabia o quanto eu me agarrava a cada detalhe. E eu sabia, com todas as partes de mim, que não esqueceria.
…..
Voltei para casa me sentindo mais leve, com a promessa do Noah ainda em mente, ansiosa para fazer 18 anos.
Noah é 12 anos mais velho que eu. Ele me via como uma criança. Como uma irmãzinha caçula de quem precisava cuidar. E por mais que isso me doesse às vezes, eu sabia que ele não fazia por m*l. Nunca fez. Nunca houve malícia em seus gestos, nem em seus olhos. Ele cuidava de mim como cuida de todo mundo que ama. E melhor amigo da minha irmã.
Já sou crescida e estou decidida a ter o que eu quero.
E eu o quero.
Assim que eu entrei em casa,o peso do mundo voltou a cair sobre meus ombros. Lá estava ela.
Minha irmã.
Shirley
A tempestade em forma de gente.
Sentada no sofá como uma rainha entediada, as pernas cruzadas, as unhas vermelhas tamborilando o braço da poltrona. Ela ergueu os olhos pra mim e eu já sabia que vinha veneno por aí.
O olhar dela encontrou o meu com aquele brilho c***l que eu conhecia bem.
Fingi que não ouvi. Passei por ela como se não existisse, mas é claro que ela não ia deixar pra lá.
Ela nunca deixava.
Levantou-se devagar, como uma cobra prestes a dar o bote. Se aproximou de mim, e senti o cheiro do perfume forte que ela sempre usava — aquele que grudava nos pensamentos.
— Vai tentar roubar ele também? — sussurrou, os olhos cravados nos meus. — Igual fez com os nossos pais?
Senti a pontada. Aquela dor antiga, familiar. Uma ferida que ela sabia exatamente como tocar. E ainda assim, ela foi mais fundo.
— Você faz de tudo pra dormir com ele, né? — disse, com o veneno escorrendo da língua. — Acha que se fingir de santa vai funcionar? Que ele vai cair nessa sua pose de coitadinha?
Minhas mãos tremeram.
Cerrei os punhos. A raiva subiu queimando, viva, pedindo espaço. Eu queria responder. Queria gritar, mas mordi as palavras. Engoli a raiva. Eu não ia dar esse gosto a ela. Não hoje.
A ignorei. Como sempre tentei fazer.
Passei por ela, subi as escadas sem dar a ela o gosto de uma reação, os meus passos firmes ecoando no silêncio carregado da casa.
Fingir que ela não existia era menos doloroso do que entrar no jogo doentio que ela chamava de vínculo.
E naquele momento, tudo o que eu queria era fugir.
Respirar fundo no meu quarto, longe do veneno que ela espalhava como se fosse perfume — um perfume forte, enjoativo, que parece nunca sair do ar.
Entrei no quarto e fechei a porta com cuidado, encostei a testa na madeira por um instante, tentando encontrar ali, naquele gesto pequeno, algum tipo de refúgio. Um fiapo de paz. Mas, como sempre, ela não durava muito.
Fui até o armário e tirei com calma uma roupa limpa. Algo leve, quente. Confortável o bastante para me esquentar. Escolhi um suéter macio, uma calça de moletom clara, e meias grossas.
Depois fui pro banheiro. Tomei um banho demorado, deixando a água quente escorrer pelas costas.
Sai do banheiro, prendendo o meu cabelo em coque frouxo, deixando alguns fios soltos.
Desci as escadas devagar e encontrei meus pais à mesa. O cheiro da comida fresca enchia o ar.
Meus pais já estavam à mesa. Conversavam baixinho entre si, e os dois levantaram os olhos ao ouvir meus passos.
Meus pais sorriam ao me ver.
— Boa tarde, mãe — murmurei com um sorriso pequeno, me inclinando para beijar sua testa.
— Boa tarde, meu amor — disse, simples, mas com ternura na voz.
Depois, fui até o meu pai.
— Boa tarde, pai — beijei a bochecha dele, que ainda estava meio áspera da barba por fazer.
— Boa tarde querida — respondeu o meu pai dando um leve sorriso. Pegando o copo de suco de laranja, nosso preferido.
Sentei ao lado da mamãe.
— Dormiu bem? — perguntou ela, com um tom levemente preocupado. Seus olhos demoraram um pouco mais no meu rosto, como se buscassem algo que eu não estava disposta a mostrar. Meu pai levantou o rosto ouvindo a nossa interação.
Eles sabiam dos meus pesadelos. Sabiam que eu sonhava com água, com a sensação de afundar. Por isso, minha mãe me levava ao psicólogo quando eu era criança. Mas ela nunca soube a verdade. E eu nunca contei.
— Dormi bem — respondi com um sorriso breve, tentando parecer tranquila.
Eles me observaram por um segundo a mais, talvez desconfiados, talvez apenas querendo acreditar.
— Ficou na casa do Noah de novo, né? Mais um pesadelo? — perguntou meu pai, com a voz tranquila, mas havia uma sombra de preocupação ali, por trás da calma.
— Foi só um daqueles… nada demais — murmurei, sem encará-lo. Não era mentira.
Ele soltou um suspiro curto, apoiando os cotovelos na mesa por um segundo. Sua expressão era séria, como sempre, mas o jeito que me olhava dizia tudo. Ele se importava
— Você sabe que pode conversar com a gente, né? — disse ele por fim, sem pressão, sem cobrança. Só um lembrete simples. Pegou o copo de suco de laranja — o nosso preferido — e estendeu em minha direção, sem dizer mais nada, apenas com aquele gesto simples que carregava mais carinho do que palavras poderiam. Aceitei com um sorriso pequeno.
— Eu sei. Obrigada, pai — sussurrei. E, por um instante, aquilo bastava.
— Ele sempre cuidou de você… — comentou meu pai tranquilo enquanto bebia um gole do seu suco.
Assenti, mastigando devagar. E era mesmo. Noah era meu porto seguro. Mesmo que nunca me olhasse como eu às vezes, inocentemente, fantasiava. Eu sabia que ele nunca ultrapassaria nenhum limite. Porque ele era correto. Íntegro. E, acima de tudo, respeitoso. E por isso meus pais o adoram e o tratam como seu filho.
— Até demais pro meu gosto.