Fugindo com amor

1391 Words
07h00 – Apartamento de Dona Néia (escondida no morro) Bruna acorda assustada com gritos ao longe. Ela recebe um recado de Nanda por bilhete: “Se quiser fugir, é hoje. 20h. Viela 13. Mas se ficar, se prepara pra guerra.” Bruna olha pela janela. O morro não é mais o mesmo. — Presídio Bangu 1 – 10h12 R.P. escuta tudo pela “rádio cadeia”. — "Subida da Serrinha no Vidigal. Teu povo tá na mira." Ele aperta a grade. Ódio nos olhos. — "Se encostarem na Bruna, nem mil muralhas me seguram." 20h00 – Viela 13 Bruna chega, capuz cobrindo o rosto. Nanda já tá lá com uma moto escondida. — "A gente pode sumir. R.P. vai te encontrar depois. Mas se ficar... tua vida corre risco de verdade." Bruna encara a escuridão da ladeira. — "Se eu fugir agora, eu morro de arrependimento." Ela tira o capuz. Respira fundo. — "Eu fico." Nanda sorri, surpresa. — "Então se prepara. Porque agora, cê tá oficialmente do lado de dentro." Planos da favela vistos do alto. Fogos estourando não por festa — mas por guerra. Bruna em silêncio. R.P. na cela, orando. O destino dos dois: marcado a bala. é adrenalina do início ao fim. O morro vira zona de guerra. Os rivais subiram. Bruna se esconde, mas a bala não escolhe destino. E lá de dentro da cadeia, R.P. mostra que comando de verdade não precisa estar armado — só precisa ser respeitado. 03h27 – Alto do Vidigal Gritos. Rajadas. Fogos avisam: os caras da Serrinha subiram. Bruna tá escondida com Nanda e duas crianças num barraco de madeira. — "Fica abaixada. Nada de celular. E se ouvir porta batendo, corre sem olhar pra trás." — diz Nanda, com a pistola no colo. Lá fora: o barulho das granadas assusta. Paredes tremem. Os gritos se misturam com sirenes. Presídio – Bangu 1 R.P. é acordado por um bilhete passado discretamente. “Os da Serrinha invadiram. Bruna tá lá.” Ele levanta, chama Jorjão. — "Preciso do telefone. Agora." — "Tu vai falar com quem?"  — "Com quem ainda me respeita mais que a morte." 04h00 – Em algum beco do Vidigal Cabelo recebe a ligação. — "Alô?" — "É o patrão. Segura o morro. Não é por mim. É por ela." — "Pode deixar, R.P. Nós vai virar noite em sangue se for preciso." Dentro do barraco As crianças choram. Bruna tenta manter a calma. De repente: barulho de passos no corredor. Três, quatro homens armados. — "Vasculha tudo. A garota tá aqui em algum lugar." Nanda engatilha. — "Eles querem você, Bruna. Só você." — "Então deixa eu sair. Melhor uma só morrer do que todos aqui." Nanda segura firme no braço dela. — "Tu não vai sair. Porque tu é o coração dele. E coração a gente não entrega." Lá fora, de repente: Cabelo e mais dez homens surgem pelas laterais do beco. Fuzil em punho. — "Serrinha vai sair no caixão daqui!" TIROTEIO PESADO. Becos em chamas. Gente gritando. Bruna protege as crianças com o corpo. 05h30 – Primeiros clarões do dia Silêncio. Corpo no chão. Sangue escorrendo pela ladeira. Bruna sai, coberta de poeira e fuligem. Viva. Mas diferente. Muito diferente. Na cadeia, R.P. escuta a notícia pelo rádio clandestino. “Bruna sobreviveu. A Serrinha recuou.” Ele fecha os olhos, sussurrando: — "Ela é mais forte do que eu pensava." Bruna ohando a favela destruída ao amanhecer. O sol nasce tímido entre fumaça e silêncio. Ela tira do bolso a carta de R.P. Lê uma frase que não tinha visto antes, rabiscada no fim: “Se você sobreviver por mim… eu prometo viver por você.” Onde o barulho dos tiros dá lugar ao silêncio pesado das consequências. Bruna começa a sentir a dor que não sangra: o peso do nome, o julgamento nas redes, a dúvida dentro do peito. E lá de dentro, R.P. recebe uma proposta tentadora: entregar tudo em troca da liberdade. Mas o preço é alto — e tem nome. 09h00 – UPA da Rocinha Bruna sentada, mão enfaixada, arranhões no rosto. A médica limpa os machucados. — "Você teve sorte. Podia ter morrido." Bruna desvia o olhar. — "Às vezes, morrer parece mais fácil do que aguentar o que vem depois." — Na sala da recepção, TV ligada: “Ela é filha de um coronel, mas escolheu o lado do crime. Conhecida agora como a Primeira-Dama do Tráfico, Bruna M.” Ela fecha os olhos. O celular vibra. Mensagem anônima: “Que vergonha pros teus pais. Seu lixo.” Outra: “Tomara que acabe igual ele: atrás das grades ou debaixo da terra.” Ela joga o celular no chão. Silêncio. Presídio – Sala de Visitas Restritas R.P. é levado algemado, olhar firme. Do outro lado da mesa, um promotor e um delegado. — "Você quer sair daqui? Quer viver com ela de verdade? Então nos dá o nome dos fornecedores. Dos contatos políticos. Em troca: liberdade, proteção... e até redução de pena." R.P. não responde. Olha pro teto. — "Cê quer viver com ela ou morrer aqui dentro?" Ele dá um sorriso irônico. — "Vocês acham que me oferecendo liberdade compram minha palavra?" — "Ela vai sofrer muito por sua culpa." Ele responde seco: — "Ela é mais forte do que vocês." 18h00 – Morro do Vidigal Bruna caminha pelas vielas como se fosse outra pessoa. Todo mundo olha, mas ninguém fala. Até que uma senhora para ela: — "Você ainda ama ele, né?" Bruna assente, com os olhos marejados. — "Então vai ter que aprender a amar carregando cicatriz." R.P. na cela, sozinho, olhando pra foto de Bruna colada na parede. Ela, na laje, olhando pro mesmo céu. Ambos tocam o próprio peito, sentindo a dor da escolha. "O amor sobrevive. Mas ninguém sai ileso." Bruna desafia tudo e todos pra manter seu amor vivo. Vai visitar R.P. em segredo, mas o cerco tá fechando. O coronel Álvaro já sacou, e a fúria de um pai traído pode ser mais perigosa do que a de qualquer inimigo do tráfico. E pra piorar… dentro do presídio, o caos começa a ferver. 09h15 – Fórum Criminal do Rio Bruna coloca um casaco largo, boné e óculos escuros. Está prestes a visitar R.P. como “namorada oficial”. Usou o nome da mãe falecida pra entrar no sistema. Na sala de espera, nervosa, mãos suando. Funcionária chama: — "Maria Eduarda Campos?" Ela levanta. Coração disparado. 10h03 – Sala de Visitas R.P. entra. Ao vê-la, trava. Fica um tempo só encarando. Quase não acredita. — "Cê ficou maluca de vir aqui." Ela sorri, com lágrimas nos olhos. — "E você ficou mais bonito preso, sabia?" Eles se abraçam. Apertado. Verdadeiro. — "Tô aqui porque te amo. E porque eu sou livre. Livre pra escolher você." R.P. segura firme no rosto dela. — "Então se prepara. Porque isso aqui... vai piorar antes de melhorar." — 14h40 – Quartel Geral da PM Coronel Álvaro assiste imagens de câmeras externas do presídio. Vê Bruna saindo. Disfarçada, mas ele reconhece. O sangue some do rosto. — "Ela foi visitar ele." Ele joga o copo de café na parede, se levanta. — "Eu vou acabar com isso. Nem que eu tenha que enterrar os dois." Presídio – Ala D R.P. volta pra cela. É recebido com olhares. Jorjão chega perto. — "Ela veio, né?" R.P. apenas assente. — "Então protege ela. Porque o clima aqui vai virar inferno. Tem rebelião sendo armada pra dentro de dois dias. Os caras da facção rival querem queimar tudo." R.P. olha pro alto. Fecha os punhos. — "Se a guerra vem, então eu vou lutar do jeito que sei." 20h00 – Morro do Vidigal Bruna sentada na laje. Recebe uma ligação de número desconhecido. — "Alô?" — "Aqui é da PM. Bruna, seu pai sabe que você esteve com Rodriguinho. Você precisa sair do Rio. Agora." Ela desliga. Fica em choque. Olha pro céu e sussurra: — "Não vou embora sem ele." Dentro da cadeia, R.P. rasga o colchão e puxa um celular escondido. Digita uma mensagem pra Cabelo: “Se algo acontecer comigo, protege ela. Com a vida.” Do lado de fora, Bruna acende um cigarro, o olhar perdido, determinado. Entre grades e lajes, o amor deles ainda respira. Mas a guerra tá só começando.
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