LUNA
Acordo com a luz do sol filtrando-se pela janela temporariamente sem cortina do meu quarto. Me espreguiço lentamente, sentindo cada músculo do corpo despertar junto comigo. Um sorriso escapa antes mesmo que eu perceba. Olho para o teto e levanto os braços para cima abrindo e fechando as mãos, como uma criança pedindo colo a um adulto, mas eu só estou movimentando as mãos mesmo. Claro que não estou pedindo nada ao teto.
Hoje não há despertador tocando, nem voz chamando do corredor, nem compromissos impostos por terceiros. Hoje, eu só preciso existir, e farei isso com prazer.
Me levanto ainda descalça, sentindo o piso frio sob os pés, e caminho em direção ao banheiro. Abro a torneira e deixo a água correr enquanto me olho no espelho. Meus cachos estão bagunçados, o pijama meio torto, o rosto ainda inchado de sono… mas nada que não tenha jeito.
O banho é quente e demorado. A espuma perfumada envolve minha pele como um abraço e, por alguns minutos, tudo que penso é em como a água escorre pelo meu pescoço e relaxa meus ombros. É um luxo banal que nem sempre posso me dar já que estou sempre com coisas para fazer.
Ao sair, enrolo uma toalha no corpo e me sento na penteadeira. Observo meus cachos no espelho com um pouco de preguiça e bastante determinação. Pego o borrifador com água, desembaraço com os dedos e escolho um creme de textura macia e aroma floral. Vou aplicando mecha por mecha, com carinho, paciência… e uma pitada de resignação, porque alguns fios simplesmente insistem em desafiar a lógica.
— Hoje vocês vão colaborar. — digo, como se estivesse comandando um exército rebelde. Aos 29 anos deveria ter me acostumado a lidar com o fato que meu cabelo tem sua própria personalidade.
Com os cabelos finalizados, passo para o próximo ritual: perfume. Escolho um de jasmim e baunilha. Uma fragrância que me faz sentir poderosa sem chamar muita atenção.
Depois, abro a maleta de maquiagem. Hoje não vou economizar em autocuidado. Começo pela pele: base leve, corretivo onde é preciso, um blush suave nas maçãs do rosto. Por fim, o momento mais delicado: o delineado.
Pego o delineador líquido com a precisão de uma cirurgiã. Desenho o primeiro traço com calma, acompanhando a linha dos cílios superiores. Fica bonito. Fino. Levemente puxado no canto. Exatamente como eu queria.
— Um olho pronto. — murmuro, confiante. — Agora é só repetir.
Repito o processo no outro olho, com a mesma paciência. Mas dessa vez o traço fica torto, depois mais grosso, em seguida inclinado demais. Cada vez que tento corrigir, fica pior.
— Ah, não… — fecho os olhos e respiro fundo. — Respira, Luna.
Pego um cotonete, removo o traço e recomeço. Torto de novo. Tento mais uma vez e fica grosso, então tento igualar o primeiro. Agora os dois estão desiguais. E grossos. E inclinados demais.
Encosto o delineador na penteadeira com mais força do que o necessário e fico olhando para o espelho como se ele tivesse culpa.
— Esquece o delineado. Hoje não.
Pego de novo o cotonete, removo tudo e deixo os olhos apenas com uma leve sombra bege e máscara de cílios. Simples. Prático. Menos drama.
Suspiro fundo. Está tudo bem. Nem tudo precisa sair perfeito no primeiro dia.
Ainda de toalha, vou até o armário e escolho uma roupa uma calça de linho bege e uma blusa branca com um nó na cintura. Nada muito elaborado, mas suficiente para que eu me sinta bonita, confortável e pronta.
Antes de sair do quarto, passo novamente pela penteadeira. Dou uma última olhada no espelho e sorrio. Não por estar perfeita, mas por estar inteira.
Hoje eu sou livre. E amanhã? Amanhã eu continuo sendo.
Pego o celular sobre a cômoda e desbloqueio a tela. As notificações da noite anterior ainda estão ali, mas não é por isso que estou com o celular na mão.
Abro o aplicativo de mensagens e digito para minha assistente:
"Oi, Mônica. Hoje vou tirar o dia pra mim. Remarca, por favor, todas as reuniões para amanhã. Pode ser? Me avisa se tiver algo urgente. Beijo!"
Mônica não vai questionar. Ela sempre entendeu mais de mim do que qualquer pessoa no escritório. É uma dessas raras pessoas que sabem ler nas entrelinhas e respeitam o que não é dito.
Celular em mãos e bolsa no ombro, pego as chaves na entrada e saio, deixando a porta bater atrás de mim. O elevador está vazio e, enquanto desço, penso em tudo que preciso comprar.
— Talvez devesse ter feito uma lista.
Na rua, o sol já aquece o concreto e há um burburinho de cidade acordando. Pego o carro e dirijo sem pressa até uma cafeteria charmosa que vi no dia anterior, a poucas quadras dali e que sem dúvida vai se tornar meu lugar predileto. Uma fachada de madeira clara, com janelas grandes e vasos com ervas na entrada. O tipo de lugar que parece abraçar quem entra.
Peço um cappuccino e uma fatia de bolo de limão. Me sento na mesa perto da janela, cruzo as pernas, encosto as costas na cadeira e deixo o tempo passar.
Vejo pessoas entrando e saindo, uma mulher tentando acalmar o filho pequeno que insiste em brincar com os sachês de açúcar, um casal que parece ter acordado junto, mas não no mesmo humor.
Tiro uma foto da xícara de café com a luz bonita da manhã batendo de lado, mas não posto em lugar nenhum. Não preciso provar nada a ninguém. Quero guardar esses momentos só pra mim.
Depois de pagar a conta, sigo para o supermercado. Não é longe dali, e por um instante me pergunto como nunca reparei nessa vizinhança antes, eu comprei meu apartamento a muitos meses e o visitava toda semana. Talvez não notei porque nunca olhei de verdade. Talvez porque agora, finalmente, meus olhos estejam desobstruídos.
Pego um carrinho e começo o trajeto entre as gôndolas, anotando mentalmente o que preciso para abastecer meu novo lar. Frutas, legumes, café, aveia, azeite, produtos de limpeza, produtos de higiene. Tudo ainda é muito novo e muito vazio em casa. Mas eu também gosto dessa sensação de começar do zero.
Passo pela sessão de vinhos e escolho uma garrafa com rótulo bonito, sem conhecer nada sobre ela. Apenas pelo prazer da escolha.
No caixa, uma senhora atrás de mim comenta:
— Primeira compra da casa nova?
Sorrio, surpresa.
— Como adivinhou?
Ela dá de ombros com simpatia.
— Dá pra ver no jeito que você olha pra cada coisa. Gostei da sua aura mocinha. — Guardo o comentário como um presente e agradeço com um aceno de cabeça.
No estacionamento, enquanto coloco as sacolas no porta-malas, sinto um nó quente na garganta. Uma alegria que quase parece choro. Acho que vai demorar até que eu me acostume com esse gosto de liberdade.