NARRADO POR KEVÃO Fiquei ali no alto da laje, no canto da quebrada, com o cigarro pendurado no canto da boca e o olho cravado na quadra lá embaixo. O Rato chegou do meu lado. Chinelo arrastando, boné torto, e aquele olhar de quem já viu guerra — mas nem se compara com o que a gente via agora. Rebeca no palco. De pé. Com o microfone na mão e o peito estufado como quem não deve p***a nenhuma a ninguém. A voz dela cortava o ar. Os pais em silêncio. As mães com o olho cheio. Os moleques de boca aberta. Ela tava fazendo o que nem eu tive coragem: jogando a real. Sem filtro. Sem medo. Ensinando o morro a ter vergonha do preconceito e orgulho das filhas que rebolam com dignidade. — “Essa mulher é o cão vestido de raio.” — soltei, sem tirar o olho dela. O Rato riu, balançando a cabeça.

