o passado não esquece.

409 Words
Cíntia não sabia perder. Nunca soube. Desde pequena, aprendeu que bastava querer para ter. O pai sempre esteve ali, limpando caminhos, comprando silêncios, abrindo portas. E agora, pela primeira vez, algo tinha escapado do seu controle. Márcio. Ela andava de um lado para o outro no apartamento do pai, os saltos ecoando no mármore caro. — Você não vai fazer nada? — perguntou, a voz carregada de irritação. O pai de Cíntia, sentado atrás da mesa ampla do escritório, manteve o olhar frio. — Esse rapaz já passou do limite. — Ele me expôs — disse ela, com raiva contida. — Me rejeitou. Me trocou por… por aquela garota qualquer. — Ninguém rejeita uma mulher da nossa família sem consequência — respondeu ele, seco. Naquela mesma semana, Márcio foi chamado à sala de Dona Solange. Ela estava séria, mais do que o normal. — Márcio — começou —, chegaram até mim algumas informações… delicadas. Ele sentiu o estômago apertar. — Sobre o quê? — Questionaram sua postura profissional. Insinuaram conflitos de interesse, problemas de caráter. Márcio ficou em silêncio por alguns segundos. — Isso não faz sentido. — Eu sei — respondeu Dona Solange. — Por isso te chamei antes de qualquer decisão. Ele entendeu na hora. O passado tinha voltado. O sobrenome de Cíntia tinha peso. Influência. E gente poderosa não aceitava ser contrariada. — Eu nunca misturei trabalho com vida pessoal — disse ele, firme. — Eu acredito em você — Solange respondeu. — Mas você precisa saber que estão tentando te derrubar. Márcio saiu da sala com a cabeça latejando. Aquela sensação antiga voltou: a de estar lutando contra algo maior do que ele. Do outro lado da cidade, Cíntia observava tudo à distância, alimentando a própria fúria. — Se ele não volta por amor, vai cair por orgulho — murmurou. Ela não queria Márcio feliz. Queria ele arrependido. Naquela noite, Márcio caminhou sozinho pelas ruas, tentando organizar os pensamentos. Lembrou do tempo em que acreditava que caráter bastava. Lembrou de quando se afastou dos pais para caber no mundo de alguém que nunca o respeitou de verdade. E, pela primeira vez, não sentiu culpa. Sentiu clareza. Cíntia não aceitava a derrota porque nunca tinha amado. Só possuído. Enquanto isso, Isadora, em casa, sentiu um aperto estranho no peito sem saber explicar. Como se algo estivesse prestes a tocar a vida deles outra vez. O passado tinha acordado. E, quando isso acontece, ninguém sai ileso.
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