10. Fúria

1019 Words
Eu fui andando entre os becos com passo firme, cumprimentando um e outro, ouvindo recado, cobrando postura. Passei pelo campinho, onde um moleque tentou esconder um baseado atrás das costas como se eu fosse cego. — Guarda isso, filho — eu falei, sem nem parar. — Tu tá escondendo errado. O moleque ficou vermelho. A vergonha educa mais que porrada. Eu parei pra falar com um dos mais velhos, pra saber se tinha visto carro diferente, e ele soltou um: — Ô Fúria... tá com cara de quem brigou com a mulher. — Eu não brigo com mulher. Eu converso alto. — Eu parei devagar e olhei pra ele. Ele riu. Eu não. Segui. Passei na minha sala, peguei uma água, larguei o copo sem beber direito. Meu corpo tava no automático e minha cabeça tava em outro lugar: no cheiro da Morena, na boca dela, e naquele jeito que ela me chama de Fúria quando quer me cortar. E eu odeio admitir, mas... aquilo me pega. Porque quando ela fala "Fúria", ela tá dizendo: eu não confio em ti. E eu posso ser muita coisa r**m, mas eu não sou traíra com quem é meu. Eu tava nessa pilha quando um dos caras veio me avisar que precisava de assinatura numa parada de rotina - papel, nome, essas coisas que eu detesto porque me lembram que o mundo "normal" existe. Assinei. Resolvi. Dei ordem. Fiz cara dura. E aí, quando o movimento baixou um pouco, eu senti a vontade de fazer a única coisa que me acalmava de verdade: ir até o escritório da Morena. Não pra invadir. Não pra mandar. Só pra... sentir que ela ainda tava perto no território. Pra ver se ela tinha deixado algum recado. Pra garantir, do meu jeito torto, que ninguém tava mexendo no que é dela. Subi a escada da casa onde fica o escritório dela - aquele canto que ela chama de "meu escritório" com uma ironia chique, porque o lugar é simples, mas a pose dela ali dentro é de executiva. Ela senta na cadeira como quem assina destino. Eu cheguei na porta e já ouvi. Primeiro eu ouvi um barulho de risada abafada. Depois eu ouvi um "ai, c*****o" que não tinha nada de susto. Eu parei devagar e o sangue subiu na minha cabeça como se tivesse sido chamado no grito. Meu reflexo foi abrir a porta. Sem bater. Sem aviso. Porque eu sou assim: eu entro. E entrei. Na primeira coisa que eu vi, meu cérebro travou por meio segundo, tentando entender o que era. A Lili tava no sofá do escritório da Morena. Cabelo bagunçado, blusa meio fora do lugar, cara de quem tava bem demais pra estar "resolvendo assunto". E tinha um cara com ela - um desses bonitinhos do morro, camisa aberta demais, sorriso de quem se acha. Os dois pararam no mesmo instante. Eu fiquei ali, parado, com a mão na porta, encarando como se eu tivesse encontrado um erro de sistema. A Lili, em vez de ficar sem graça, fez o que ela sempre faz: meteu marra. — Olha ele... — ela falou, ofegante, mas debochada. — O fiscal de gemido chegou. Eu fechei a cara. O cara do sofá fez menção de levantar rápido, atrapalhado, tentando se recompor. — F-Fúria... eu... Eu levantei a mão, mandando calar. Não por medo. Por respeito ao pouco de paciência que eu ainda tinha. — Quem é tu? — Nando, chefe. — O cara engoliu seco. Eu olhei pra Lili de novo. Ela tava tão tranquila que dava raiva. Como se o escritório da Morena fosse motel e eu fosse interrupção de propaganda. — Lili. — Atila — ela respondeu, usando meu nome de propósito, como quem joga sal na ferida. — Que foi? Eu fiz um gesto curto com o queixo, apontando pro sofá, pro estado da cena, pro absurdo. — Tu tá fazendo isso aqui? Ela abriu os braços. — Tô. — e ainda completou: — E tava bom, tá? Tu chegou num timing péssimo. Eu respirei fundo. Botei a mão na cintura, olhando pros dois. — Isso aqui é o escritório da Morena. — E? — Lili levantou uma sobrancelha. — Morena não tá usando. — Não é por isso. — Então é por quê? — ela perguntou, já entrando no meu peito como quem gosta de briga. — Ciúme? — Tu. — Eu olhei pro Nando. — Sim, chefe? — Sai. Ele levantou rápido, arrumando a roupa com a cara mais pálida do mundo. — Agora — eu repeti, sem aumentar a voz. Minha voz baixa é pior. Ele saiu praticamente correndo, sem olhar pra trás. Quando a porta fechou, ficou só eu e ela. Lili se espreguiçou no sofá com a tranquilidade de quem tá num domingo. — Pronto. Agora tu pode dar sermão com exclusividade. — Tu tá maluca? — Eu fiquei olhando pra ela por um segundo. — Tô viva — ela respondeu, simples. — E eu trabalho pra c*****o. Se eu não aliviar de vez em quando, eu surto e mato alguém. Aí sim tu vai reclamar. — Não aqui. — Por quê? Porque é da Morena? Eu não respondi de primeira. Eu só andei até a mesa da Morena e encostei a mão no tampo, olhando ao redor como se eu estivesse procurando algo fora do lugar. Porque eu tava. — Sim — eu falei, enfim. — Porque é dela. Eu vim garantir que ninguém tá fuçando nada. — eu olhei pra ela. — E eu encontro tu... no sofá. Ela soltou o ar, irritada. — Tá, tá. Foi vacilo. Mas eu não sou inimiga, Atila. — Eu sei. Ela se levantou, ajeitando a roupa com pressa agora, sem humor. Chegou mais perto e apontou o dedo pra mim. — Eu não devia ter trazido ninguém aqui. Eu sei. — ela falou, mais séria. — Mas tu vai fazer o quê agora? Vai explodir o morro? — Tranca isso aqui. E não traz mais ninguém nesse escritório. — Eu virei pra porta. — Tá, chefe. Escritório virou igreja, entendi. — Lili levantou as mãos, rendida.
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