PELA FRESTA DA JANELA
A campainha soou e eu corri para atender, passando rápido pelos quadros originais que eu mesma tinha pintado. Era para Javier receber esse cliente, mas ele precisou ir para a galeria proibida resolver um problema e, então, lá estava eu fazendo o seu trabalho.
O cheiro de tinta ainda impregnava o ambiente, misturado ao aroma caro das velas que Javier insistia em acender para deixar a galeria “mais artística”. As luzes amareladas refletiam nas molduras douradas espalhadas pelas paredes e, por um segundo, senti orgulho daquele lugar, mesmo sendo ilegal.
Aquela galeria tinha sido a primeira coisa que realmente pareceu minha desde que me mudei para Los Angeles.
— Boa noi... — Minha voz falhou quando dei de cara com o homem à minha frente.
Dois anos não fizeram meu corpo esquecer de Matteo, meu ex, um homem que foi uma promessa e a fonte de tantas mágoas. Por um breve segundo, o tempo pareceu congelar e meu sorriso se desmanchou.
— Matteo? — minha voz saiu contida, carregada de surpresa e desgosto.
O ar pareceu rarefeito instantaneamente.
Ele também pareceu surpreso e seu olhar me fez crer que estava preso em remorso com nosso término abrupto e m*l resolvido.
Os olhos azuis continuavam iguais. Frios, intensos e perigosos.
— O que você está fazendo aqui, Lizzy? — exigiu saber.
Ele deu um passo para frente e eu não tive escolha a não ser deixá-lo entrar e fechar a porta.
O perfume dele invadiu o ambiente imediatamente e meu estômago se contorceu. Era cedro, whisky e alguma coisa absurdamente masculina que meu corpo reconheceu antes mesmo da minha mente aceitar que Matteo Bellini estava ali.
— Eu trabalho aqui.
— Numa galeria de arte falsificada? — sua voz baixou, mas mantinha-se firme como as sacanagens que me disse tantas vezes.
Seu olhar percorreu o ambiente lentamente. Cada quadro,cada assinatura falsificada, cada pincelada certeira minha.
— Sou eu que p***o a arte falsificada — admiti, sem nenhuma vergonha. Era um talento nada ortodoxo, mas eu conseguia imitar as pinceladas de vários nomes famosos da arte... Isso me fazia pelo menos um pouco especial, não?
Eu esperava que ele me julgasse depois de tantas conversas em que trocamos sobre artes e nosso amor em comum por quadros. Esperei pela sua expressão de desprezo, de nojo.
Mas Matteo apenas me encarou.
Matteo pareceu vacilar um pouco com minha confissão e me encarou de um jeito diferente...
Que amoleceu minhas pernas.
— Você ainda pinta à mão — ele murmurou, quase para si mesmo. — Eu lembro de você dizendo que era seu sonho ter uma galeria expondo suas obras.
Meu peito apertou.
Porque eu lembrava daquela conversa também.
Lembrava dele sentado na cama do hotel, sem camisa, enquanto me observava desenhar numa folha de papel vagabunda roubada da recepção.
Lembrava dele beijando meus dedos manchados de tinta.
Lembrava dele indo embora depois.
— A gente pode conversar? Sobre... Bom... Nós?
Torci a boca, caminhando pela galeria, meus sapatos de salto ecoando pelo ambiente vasto enquanto me afastava dele.
Precisava colocar distância entre nós antes que meu corpo esquecesse o motivo de eu odiá-lo.
— Lizzy? Lizzy? — ele me seguiu e segurou meu braço.
O toque queimou instantaneamente e meu coração bateu errado.
— Você veio aqui pra quê, Matteo? — exigi.
Javier me jurou que era um cliente, mas eu me sentia encurralada em uma trama elaborada pra me fazer voltar com meu ex, que tinha me abandonado pelada no meio de um corredor de hotel.
Ainda conseguia me lembrar da humilhação, das pessoas olhando.
Do frio do ar condicionado batendo na minha pele enquanto eu tentava entender o que tinha acontecido.
E do jeito que Matteo simplesmente desapareceu.
— Vim pra fazer uma encomenda — ele levantou o queixo no ar enquanto eu julgava se estava mentindo pra mim.
Matteo sustentava mentiras com facilidade irritante.
Era uma das coisas que eu mais odiava nele.
E uma das que o faziam tão perigoso.
— Certo. Então você aguarda o Javier que ele irá lhe atender. Vou chamá-lo.
Não deixei que ele retrucasse, apenas segui para a porta dos fundos da pequena galeria, onde ficava meu estúdio de trabalho.
Meu coração ainda estava acelerado demais.
Eu precisava respirar.
Precisava ficar longe dele por pelo menos alguns segundos antes que começasse a tomar decisões idiotas movidas por saudade.
Atravessei a área aberta dos fundos, onde algumas esculturas quebradas ficavam empilhadas próximas às latas de tinta. O vento da noite bagunçou meus cabelos e fez meu vestido fino arrepiar contra minha pele.
Los Angeles estava estranhamente silenciosa naquela noite.
Até a saleta independente que usávamos de estoque para as obras falsificadas.
Estava me aproximando quando ouvi os gritos.
Meu corpo inteiro travou.
— ... Não foi minha intenção, eu juro — a voz de Javier estava alta e desesperada, cortando as palavras ao que eu achava choro.
Nunca tinha ouvido Javier soar assim.
Sua voz estava trémula, ele parecia aterrorizado.
— Você achou que nós não iríamos descobrir? — um outro homem falou, trocando palavras para espanhol, mas eram semelhantes o suficiente com o português para que eu conseguisse entender.
Foi um dos motivos pelo qual eu e Javier ficamos amigos nos Estados Unidos.
Uma brasileira e um mexicano tinham muitas coisas em comum.
Especialmente a saudade de casa.
— Você pode levar todos — Javier implorou. — Vender como original, vai ganhar muito dinheiro no mercado clandestino!
O quê?
O gosto da traição de Javier amargou minha boca e me abaixei, próxima à janela, para ver o que estava acontecendo, porque ele queria dar todo o meu trabalho para acalmar um homem por alguma coisa errada que ele fez.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Algo estava errado.
Muito errado.
O ambiente do outro lado estava parcialmente iluminado por uma única lâmpada pendurada no teto. As sombras deformavam os rostos e deixavam tudo ainda mais assustador.
Consegui reconhecer Javier ajoelhado no chão, chorando.
Meu estômago afundou.
— Shhhh — Matteo me agarrou naquele momento, tampando minha boca e contendo o grito que quis escapar dela.
Meu corpo colidiu contra o peito dele.
Seguro.
Odiavelmente seguro.
Porque ali, bem na frente de um Monet quase autêntico, Javier estava de joelhos no chão com um homem segurando uma arma contra sua cabeça.
E naquele instante eu soube, com uma certeza brutal, que minha vida tinha acabado de mudar para sempre.