Primeiro plantão
(POV Aurora)
Eu sempre imaginei meu primeiro plantão como enfermeira com cheiro de café e nada assustador. Mas não foi assim que começou. O som dos tiros ecoava por todo o hospital, misturado aos gritos e ao choro desesperado das pessoas. Só conseguia lembrar da minha mãe dizendo que eu poderia escolher qualquer hospital do Rio de Janeiro — menos aquele. Mas eu queria fazer a diferença, queria salvar quem ninguém olhava duas vezes.
O cheiro de pólvora se misturava ao de sangue, impregnando o ar da emergência.
De repente, a porta foi escancarada. Alguns homens entraram, e um deles estava ferido, o sangue escorrendo e pingando pelo chão.
— Ele não pode morrer! — uma voz forte ecoou, e o silêncio tomou conta do espaço. Todos abaixaram a cabeça, abrindo caminho. O homem que falava me encarou, e aquilo não me causou medo, mas sim intimidação. Quem era ele?
— Aqui não é você quem decide isso. Somos nós. — disse firme, seus olhos me examinando por inteiro.
— Preparem a sala vermelha! — alguém gritou, e eu desviei o olhar. Fui cumprir meu dever. Eu salvaria aquele homem na maca, não por ordem de quem estava lá fora, mas pelo juramento que fiz.
Os minutos viraram horas. A madrugada se foi, e às 7h da manhã a cirurgia havia terminado com sucesso. Exausta, retirei o jaleco sujo e saí da sala. Para minha surpresa, o homem estava ali, sentado. Assim que ouviu a porta, levantou-se e me encarou como se quisesse ler minha alma. Algo nele não estava certo.
— Como ele está? — perguntou, aproximando-se demais.
— Estável. — respondi firme, sem me deixar intimidar.
— Aurora. — seus olhos desceram até meu crachá, saboreando meu nome. — Primeiro plantão.
— Sim. — não desviei o olhar.
— Muito corajosa. — disse, e eu respirei fundo, afastando-me. Algumas pessoas nos observavam discretamente.
— Se me der licença, preciso terminar meu plantão. — falei, e me retirei. Só então percebi que estava prendendo a respiração. No fundo, eu sabia: aquele homem tinha algo diferente, e não era nada bom.
Caminhei até a sala onde acreditava que Julia estaria. Ela já tomava café, e meu estômago roncou.
— Que cara de acabada, amiga. — disse, rindo.
— Que noite... eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer logo no meu primeiro plantão. — suspirei, servindo café.
— Os meninos do Sombra estavam aí? — arqueei a sobrancelha, sem entender.
— Vai me dizer que não reparou nas armas? — neguei com a cabeça.
— Quem é Sombra? — perguntei, e Julia me olhou como se eu fosse um ET.
— O fortão que impõe respeito em tudo. O chefe, amiga. O cara que comanda o complexo. Ontem teve invasão, por isso os tiros. — explicou com naturalidade, como quem já está acostumada.
Engoli em seco. Logo no meu primeiro plantão, eu havia cruzado com o chefe do tráfico.
— Isso acontece todo dia? — perguntei, ainda incrédula.
— Não. Já fazia tempo que não tinha invasão. E, por mais que eu não goste dele, não dá pra negar: o Sombra protege o complexo com unhas e dentes. — disse, e eu preferi encerrar o assunto. Não queria pensar mais naquele homem, mas sabia que seria impossível, ainda mais trabalhando ali.
[...]
Em casa, o banho quente trouxe alívio. Morava não muito longe dali, com minha mãe. Desde que meu pai faleceu, éramos só nós duas. Sem irmãos, sem avós, sem tios — como se nunca tivesse existido mais ninguém. Minha mãe evitava falar sobre isso, e eu sempre respeitei.
Exausta, adormeci logo após o banho. Quando acordei, já era noite. O cheiro da comida denunciava que minha mãe estava em casa. Vesti algo confortável e desci até a cozinha.
— Boa noite, mãe. — cumprimentei.
— Boa noite, minha querida. — sorriu, beijando meu rosto. — Não quis te acordar, você parecia tão cansada. Como foi o plantão?
Sentei-me, suspirando.
— Foi assustador. — não havia motivo para mentir.
— Eu te avisei, filha. Ali não é lugar para você! — disse minha mãe, sem tirar os olhos da panela, mas com a voz carregada de preocupação.
— Mãe... eu sei. — suspirei. — Mas eu não posso simplesmente virar as costas. As pessoas precisam de ajuda.
Ela se virou, apoiando as mãos na cintura, e me encarou com aquele olhar que sempre me fazia sentir como se eu ainda fosse uma criança.
— Precisam, sim. Mas você também precisa se proteger. Eu não quero te perder, Aurora. — sua voz falhou no final, e eu percebi o medo escondido ali.
— Eu não vou me colocar em risco de propósito. — tentei tranquilizá-la, mas sabia que minhas palavras não eram suficientes. — Eu só... eu só quero fazer o que é certo.
Ela se aproximou, sentou-se à minha frente e segurou minhas mãos.
— O que é certo, às vezes, não é o que é seguro. — disse baixinho. — Você tem um coração enorme, igual ao do seu pai. Mas foi justamente isso que o levou a se expor demais.
Engoli em seco. Ela raramente falava dele, e quando falava, sempre havia dor.
— Eu não sou o papai. — respondi, firme, mas com a voz embargada. — Eu sei dos riscos, mas eu também sei que se eu não fizer nada, vou me sentir vazia.
Ela me olhou por alguns segundos, como se buscasse uma resposta dentro de mim.
— Eu só quero que você volte pra casa todos os dias. — disse, apertando minhas mãos. — Não importa se você salva o mundo inteiro, se não consegue salvar a si mesma.
O silêncio tomou conta da cozinha por alguns instantes. O cheiro da comida se espalhava, mas o peso da conversa era maior.
— Eu prometo que vou ter cuidado. — falei, tentando aliviar a tensão. — E... se eu sentir que não consigo mais, eu vou sair.
Ela respirou fundo, como se quisesse acreditar, mas ainda desconfiava.
— Você é teimosa, igualzinha a mim. — disse, sorrindo de leve. — Mas lembra: coragem sem prudência vira imprudência.
Sorri de volta, mesmo sabendo que aquela conversa não terminaria ali. No fundo, eu entendia o medo dela. Mas também sabia que meu caminho já estava traçado.