Tempos antes…
A carruagem balançava de um lado para o outro, e pela janela eu sentia o vento gelado batendo em meu rosto. Deveríamos ter chegado um pouco mais cedo, se não fosse a vaidade de Magnus.
Magnus vai a viagem inteira bufando e resmungando de raiva, é evidente a sua fadiga e falta de vontade de casar, tanto que ele mesmo nem tenta disfarçar.
A carruagem para e então chega a hora de descermos, o motorista abre a porta e então posso ver o castelo cheio de luzes e enfeites que iluminam bem o reino inteiro.
Camponeses e príncipes entram e saem de dentro do castelo, aparentemente é um evento aberto ao reino inteiro.
— Vamos, Magnus. — Inclino a cabeça rapidamente em direção ao castelo para que ele entenda que precisamos entrar no castelo agora mesmo. — Não faça careta, pelo amor de Deus. Não tenho mais paciência com você.
— Você estaria feliz em se casar se estivesse no meu lugar? — Magnus resmungava enquanto andávamos.
— Muito, você vai ser rei não sei se não percebeu ainda. E você nem foi escolhido ainda, não sei o porquê de você já estar se reclamando.
— Ser rei não me atrai. — Ele disse arrumando o colarinho da camisa. — Se um dia você pudesse ter uma princesa em seus braços, saberia o quanto elas são frescas, enjoadas e chatas.
— Nunca dormirei com uma princesa mas convivo com algumas.
Olho para fora uma última vez vendo o dia já escuro o suficiente para ser noite. No palácio real tocava uma música animada à espera da princesa mais velha.
— Eis a Rainha, Aila, minha filha mais jovem, Emma e minha filha mais velha, Amice Aila! — O Rei começou a gritar fazendo prender a minha atenção a porta.
Então as três, Emma, a Rainha Aila e Amice Aila caminharam com seus saltos elegantemente até o salão do palácio. Exalando pura ternura e luxúria enquanto também exalavam pureza.
A Rainha e a princesa mais nova estavam vestidas de verde, havia apenas uma moça tão formosa, elegante e única de branco. Como se fosse uma forma de "diferenciar". Como uma armadilha que te prende, que chama atenção pela pureza que exala mas na verdade é das mais soberbas mulheres, vejo isso pelo olhar dela.
Amice tem o olhar pesado, que pesa sobre os ombros, e então deve ser por isso que caminha com a cabeça e tronco erguidos. Óbvio que a irmã e a Rainha também andam assim, mas meu olhar só se atrai por ela.
Estava cheia de enfeites, que obviamente já estava os tirando sutilmente em gestos fantasmas todos, cada vez que a Rainha se distraísse.
Andava como provavelmente a ordenaram, com a cabeça e troncos erguidos sendo simpática com todos. Acenando com a cabeça para as pessoas, acenando com as mãos cobertas pela luva branca, olhando nos olhos de cada um. Mas não conseguia me enganar, você não é simpática coisa nenhuma, princesa. Vejo em seu olhar como uma conexão por telepatia.
Vejo em seu pescoço algo ainda mais inocente e enganador, um elegante colar com um diamante azul. Enganador porque faz você acreditar que ela é delicada, mas apenas o seu olhar prova o contrário.
As pessoas se curvaram enquanto caminhavam entre duas filas no meio do salão.
Vários príncipes soberbos com suas coroas se perdendo entre os cidadãos do reino Eratos.
— Uma salva de palmas a Princesa! — O Rei Eratos gritou.
As pessoas aplaudiram enquanto a Rainha, a princesa mais nova e a noiva estavam paradas em frente ao trono, de costas para o Rei.
— Príncipe Alistair de Luminares. — Um príncipe se aproximou de delas se curvou, e também se curvaram juntas. — Filho de Eminem e Betania...
Depois de Alistair de Luminares exibir para elas sobre suas conquistas, idade e vitórias conquistadas, valor da fortuna da família e entre outras baboseiras, outro príncipe se aproximou.
— Príncipe Cedric de Marévia. Filho de Joana e Zebedeu...
Chegou a um ponto em que tenho certeza que elas apenas só fingiam que ouviam, já que quem iria escolher seria o Rei, por que prestar atenção?
O máximo que eu consegui decorar foi apenas alguns nomes de alguns.
Príncipe alguma coisa com E de Crystallia
Príncipe parece nome de cachorro de Sylveria
Príncipe Elio de Venturia
Príncipe Jovan de Arcadia
Príncipe Kael de Avaloria
Príncipe Lysander de Celestia
Príncipe não lembro o nome de Mythoria
Príncipe Oren de Solanis
Príncipe Paxton de Nocturnia
Príncipe Quillon de Verdanthia
Príncipe Rolando de alguma coisa com S
Príncipe Soren de alguma coisa com E.
Agora finalmente foi a vez de Magnus. Era notável que ela estava cansada demais para conseguir sequer ouvir qualquer coisa, massageava as têmporas disfarçadamente e olhou para frente vendo Magnus se aproximar, enquanto eu ia ao seu lado. Ela me olhou por alguns segundos estranhando a minha companhia mas voltou seu olhar para Magnus já que ele era o centro das atenções.
— Príncipe Magnus de Eldoria. — Magnus começou a se apresentar todos nós nos curvamos um para os outros, olhei diretamente para Amice sem querer mas tentei desviar rápido logo em seguida.
Magnus me olhou com um olhar de relance e apenas manti minha pose defensora e queixo erguido.
— Este é meu fiel escudeiro e melhor amigo Drake Cadman.
Podia sentir o olhar dela sobre mim, mas tentei ao máximo não olhar. É deselegante olhar diretamente, sou um soldado é isso não é formal. Tento manter o olhar no lustre acima da cabeça de Amice e a observo pela visão periférica, na típica pose defensiva de quem está alí para defender alguém importante. Como uma estátua que não se move ou interage.
— Agora você irá dançar pelo menos uma dança com todos os homens que convidá-la. — Ouvi a Rainha falar quando estávamos nos distanciando. — É deselegante recusar.
Emma e a Rainha se posicionaram ao lado de Eratos, o Rei. A princesa teve que ficar alí parada enquanto a música voltava e as pessoas iam se empanturrar de comida e bebidas.
Magnus ergueu a mão para ela, então saí caminhando e me perdendo no meio da multidão finalmente me livrando dele.
— Me concede uma dança, Princesa? — Ouvi ele pedir cheio de má vontade e soube mesmo sem olhar que ele estava forçando um sorriso.
— Claro.
Fiquei observando de longe ela estender sua mão coberta pela luva branca para ele. A música começou a tocar. As pessoas em volta começaram a dançar junto.
Apoiou seus braços suavemente nos ombros de Magnus, e Magnus tocou de leve seu tronco como se ela fosse o contaminar com algo. Se moveram de um lado para o outro em sincronia.
Magnus falou algo, pude ver sua boca mexer. Ela respondeu tentando sorrir o mais simpática possível, mas era óbvio que estava forçando, os dois seriam ótimos juntos. Dois forçados e mentirosos.
Olhando em volta o noivo mais apto para ela seria Magnus, o mais novo de todos os homens que estão aqui. Não lembro bem a idade dele, mas está na casa dos 30.
Amice tem quanto? Deve ser uma adolescente.
Magnus tem o cabelo cor fogo, barba feita, aparentemente forte mas não suportaria um soco, um homem aparentemente fino e bem cuidado mas mais cedo estava sendo carregado por mim como um i****a que não sabe cuidar de si mesmo. Parece ser bem vaidoso.
Ele se expressa como se fosse fino, mas de fino só tem as pernas.
Tenho a impressão que o Rei gostou dele, está o olhando dançar com a sua filha com uma expressão de maravilhado.
Noto que Amice fecha o sorriso quando olha para o pai e depois para Magnus, está fingindo estar o odiando? Já que seu olhar diz o contrário do que expressa. Ela quer que o pai escolha ele, mas tenho certeza que o pai não o escolheria só porque ela gostou dele. Boa tática, princesa.
Ela está se segurando para não rir, então é isso mesmo. Acertei em cheio.
Observo seu rosto enquanto ela fala, ela olha algumas vezes para a Rainha como se fingisse pedir socorro. A expressão do Rei a deixava animada, já que ele parecia cada vez mais satisfeito com a sua suposta insatisfação. Coisa de pai.
Ele detesta a idéia de que ela não vai querer fugir na noite de núpcias.
Olha em volta vendo os outros príncipes, e depois de uma dança rápida com cada um, ela anda cambaleando mas fingindo que está tudo bem.
Depois de ter dançado a noite inteira com todos esses Príncipes, fica de pé em frente ao trono fingindo que seus pés não estão em um estado deplorável.
Dá uma olhada em volta do salão vendo as pessoas dançando, sigo seu olhar até perceber que olha Emma dançar com um príncipe qualquer de aparentemente 40 anos e olhar para ela como se pedisse socorro. Encostou a mão coberta pela luva de renda nos lábios fingindo os coçar tentando esconder seu riso.
— Ela não é tão insuportável. — Magnus revirou os olhos se aproximando de mim. — Você vai passar a noite parado? Não bebe e nem dança.
— Estou bem.
— Vá aproveitar, meu amigo. Pare de ser assim, vá se mexer um pouco.
— Você não bebeu nada, não é? — Tentei mudar de assunto.
— Não, não bebi. — Magnus respondeu neutro. — Já dançou com alguma princesa na sua vida?
O encaro tentando decifrar o que ele está querendo dizer.
— Aproveite que a princesa não pode recusar nenhuma dança, vá. — Ele ergueu o queixo em direção de Amice me fazendo olhar para ela e ver que já estava nos olhando.
— O que? Não! — Balancei a cabeça.
— Vá, Drake. Pode ir, é só uma dança. Se você não for eu vou beber. — Magnus pega um copo da bandeja de um camponês que passava por nós e fingiu virar na boca.
— Está bem.
Me aproximo e me curvo em sua frente vendo ela me encarar.
— A Princesa me concede a honra de uma dança? — Ergo a mão para ela.
— Claro. — Segura a minha mão.
A puxo para mim fazendo nossos troncos se baterem um contra o outro, ela me olhou assustada já que nenhum homem foi tão bruto assim a noite inteira, tentei não demonstrar estar comovido. A pressiono contra mim sentindo seu corpo firme contra o meu, uma ótima sensação.
Ele se remexe um pouco roçando seu corpo no meu, pisco os olhos devagar e sorri. Observo seus lábios rosados por meio segundo e semicerra seus olhos para mim chamando minha atenção para seus olhos.
Percebo que ela quer me xingar, mas por algum motivo não faz.
— Perdão, Princesa. Estou acostumado a tocar em prostitutas como damas e em damas como prostitutas. — Ironizo.
Ela apenas ignora o comentário. De perto ela é ainda a mais formosa das mulheres que já conheci.
O cheiro dela era doce, feminino demais. Me deixava tonto, mas em um bom sentido. Cheirava a rosas, ela por completo já era uma flor.
Apoio minha mão abaixo do meio das suas costas, ela me olha com raiva. Me fazendo rir, ela é engraçada.
Continua fingindo normalidade, levantando os braços e os colocando em torno de seu pescoço. Sinto a firmeza de seus ombros e noto a nossa diferença de altura um pouco mais de perto.
Observo os detalhes do seu rosto, maravilhado com cada um deles.
— Nunca havia visto o rosto de uma princesa tão de perto. — Comento.
— E nunca aprendeu a como tratar uma também. — Murmura.
Nos movimentamos em sincronia perfeita de um lado para o outro.
A pressiono mais forte contra mim, ao ponto de me fazer sentir sua barriga se mover enquanto respira.
— Acho que não precisamos ficar assim tão perto. — Ela diz.
— Incomoda a Princesa?
— Sim.
— Gostei de como disfarçou para o pai da senhorita o fato de que gostou de Magnus, foi uma boa jogada. — Ignoro o que falou. Me aproximo do seu pescoço sentindo o seu cheiro mais forte e sussurrando. Percebo sua pele arrepiar e ela balança a cabeça.
— Não sei do que está falando.
— Funcionou, o Rei Roland convidou Magnus para um jantar.
Observa o trono vendo seu pai conversando com Magnus e seu coração em comemoração acelera contra meu peito.
Sinto um temor de o Rei notar minha ousadia de brincar com a princesa, mas quando a olho não consigo evitar.
— Ei! Não demonstre felicidade ainda. — A repreendo com ironia.
Me olha indignada.
— Quem você pensa que é? — Saiu automaticamente. A olho surpreso e não pude evitar em sorrir.
— Ora! A elegância já sumiu? Sou Drake Cadman, escudeiro do futuro noivo da senhorita, Princesa.
Desvia seu olhar do meu para qualquer outro lugar, tentando disfarçar sua expressão de raiva.
— Nos veremos em breve, Amice. — Me afasto quando cansado de irritá-la, me curvo e saio andando. A sinto encarando minhas costas indignada pela minha ousadia.
Seremos grandes amigos, Amice. Você vai ter que conviver comigo por muito mais tempo.