Bruno
Passei a noite inteira com o gosto da insolência dela na cabeça.
Era ridículo.
No meu mundo, mulher nenhuma tinha espaço pra virar pensamento recorrente. Eu não construí o que construí me distraindo com boca bonita, cintura certa ou olhar atravessado. Desejo era fácil de controlar. Vinha, queimava e passava. Interesse era pior, porque se agarrava no osso. E eu não gostava de nada que criasse raiz dentro de mim sem permissão.
Mas Júlia tinha feito exatamente isso.
A imagem dela não saía.
O jeito como me encarou no meio da rua, como se não soubesse quem eu era — ou soubesse e simplesmente não se importasse. O queixo erguido. A voz afiada. O corpo tenso, pronto pra fugir ou atacar, mas sem um pingo de submissão. No morro, quase todo mundo aprendia cedo a baixar os olhos quando eu passava. Uns por respeito. Outros por medo. A maioria pelos dois.
Ela não.
Ela me olhou de frente.
E aquilo tinha mexido comigo de um jeito que eu não queria nomear.
— Chefe.
A voz de Sabiá me arrancou dos pensamentos. Eu estava na laje da casa maior, de onde dava pra ver boa parte da comunidade acordando mais uma vez debaixo da minha ordem. O céu ainda carregava o resto da madrugada, e o vento trazia cheiro de café, esgoto, cigarro e concreto úmido.
— Fala.
— A gente localizou dois caras do Nelsinho rondando a parte baixa de madrugada. Não subiram porque os pontos tavam fechados, mas ficaram sondando.
Apoiei os antebraços no parapeito.
— Mataram?
Sabiá hesitou por meio segundo. Meio segundo a mais do que eu gostava.
— Um fugiu. O outro tá preso lá embaixo.
Fechei a cara.
— Então por que tu tá me contando isso aqui em cima e não com os dois corpos no chão?
Ele abaixou o olhar na hora.
— Foi erro meu.
— Foi fraqueza.
Virei de frente pra ele. O vento bateu no meu rosto, mas não esfriou nada. Eu odiava repetição de falha. No morro, erro pequeno crescia rápido. Hoje era homem sondando ponto. Amanhã era rajada em porta de morador, criança no chão e o caos querendo me testar de novo.
— Leva ele pra boca velha — ordenei. — Quero saber o que Nelsinho tá planejando, quem tá passando informação e quanto ele acha que vale mexer no que é meu.
— Sim, chefe.
Ele saiu rápido, e eu fiquei ali por mais alguns segundos olhando a favela se mover. Moto subindo. Porta abrindo. Som distante de televisão ligada cedo demais. Tudo parecia no lugar. Tudo sob controle.
Só eu que não estava.
Desci a escada de concreto e segui com dois homens até a boca velha, um galpão abandonado na parte mais escondida do morro, onde conversa séria terminava em verdade ou sangue. O sujeito estava amarrado numa cadeira, o rosto machucado, o medo escorrendo pelos poros.
Eu entrei e ele já começou a falar antes mesmo de eu perguntar.
Sempre assim.
Meu nome fazia metade do trabalho.
— Eu não sei de tudo, eu juro — disse ele, afobado. — Nelsinho só quer achar brecha. Quer pegar teu movimento vindo da parte baixa. Tá comprando gente.
Compre gente, pense rápido, morra cedo.
Puxei uma cadeira e sentei na frente dele. Mantive o silêncio de propósito. Homem desesperado fala mais quando tenta preencher o vazio.
— Quem? — perguntei, por fim.
Ele engoliu seco, citou dois nomes. Um eu já suspeitava. O outro me surpreendeu. Fiquei em silêncio outra vez, encaixando as peças devagar, deixando a raiva esfriar até virar coisa útil.
Controle.
Sempre ele.
— E por que eu devia deixar tu sair vivo daqui? — questionei.
As mãos dele tremiam tanto que a cadeira rangia.
— Porque eu posso te ajudar.
— Não. — inclinei o corpo um pouco pra frente. — Porque eu ainda não decidi te matar.
Ele começou a chorar baixo. Desprezível.
Levantei e fiz sinal pros homens levarem o rato para outro cômodo. Ia decidir o fim dele depois. Dependia do que ainda pudesse render antes de virar exemplo. Quando fiquei sozinho, passei a mão na nuca e fechei os olhos por um segundo.
E ela veio de novo.
Júlia.
No meio da minha irritação, da sujeira dos negócios, da rotina feita de cálculo e violência, era o rosto dela que aparecia. Aqueles olhos castanhos parados nos meus sem abaixar. Aquela resposta seca, cuspida sem tremor. Aquela sensação estranha de que, se eu esticasse a mão, não tocaria uma mulher qualquer.
Tocaria fogo.
Soltei um riso baixo, sem humor.
— Que p***a é essa… — murmurei pra mim mesmo.
Não era só desejo. Desejo eu conhecia bem. Era mais inconveniente que isso. Interesse de verdade tem essa mania maldita de fazer a cabeça voltar pro mesmo lugar. E a minha voltava nela toda hora, contra a minha vontade.
Saí do galpão e subi pela viela principal. O morro já fervia de vez. Gente indo e vindo, vendedor gritando preço, criança correndo atrás de bola murcha. Então eu a vi de novo.
Júlia descia com uma sacola no braço, o cabelo preso, a expressão fechada de quem carregava o mundo sem pedir ajuda. Não me viu de primeira. E eu parei.
Só parei.
Observei o jeito dela andar, firme, rápido, sem rebolado forçado, sem buscar atenção. E talvez fosse justamente isso que puxava o olhar. Júlia não fazia esforço nenhum pra ser notada. Era notada porque parecia desafiar o ambiente inteiro só por existir daquele jeito.
Quando finalmente ergueu o rosto e me viu, o passo diminuiu por uma fração mínima.
Quase nada.
Mas eu percebi.
E então, de novo, ela não baixou os olhos.
Aquilo bateu em mim como provocação e convite, tudo misturado.
No meu morro, muita gente me temia. Algumas me respeitavam. Outras me odiavam em silêncio.
Mas aquela mulher...
Aquela mulher tinha acabado de despertar em mim uma vontade perigosa de descobrir até onde ia a coragem dela.
E eu já sabia, pelo peso que aquilo colocou no meu peito, que não ia sossegar enquanto não descobrisse.