Prólogo 1
Prólogo
Alana
Aquela noite começou como qualquer outra, mas terminou sendo o dia em que uma parte de mim morreu junto com o homem que eu amava. A chuva tinha começado no início da noite e caía forte sobre o Morro da Esperança, batendo contra as janelas da nossa casa enquanto os relâmpagos iluminavam o céu e os trovões faziam as paredes parecerem estremecer. Eu sempre tive pavor de tempestades. Desde criança, aquele barulho me causava uma sensação r**m no peito, mas naquela noite Miguel estava comigo, e a presença dele costumava ser suficiente para fazer qualquer medo desaparecer.
Ele tinha chegado mais cedo em casa. Assim que entrou, tirou a camisa molhada pela chuva, deixou a arma sobre a mesa e veio até mim com aquele sorriso que sempre conseguia acalmar meu coração. Jantamos juntos como fazíamos quase todas as noites. Não havia nada diferente naquele momento. Nenhum sinal de que aquela seria a última vez que eu dividiria uma refeição com meu marido.
Depois do jantar, fomos para o sofá da sala. Miguel se deitou primeiro e abriu os braços para que eu me encaixasse contra o peito dele. Eu me enrolei na coberta, coloquei a cabeça sobre seu peito e fiquei ouvindo o som da chuva enquanto ele fazia carinho nos meus cabelos. Era uma daquelas noites simples que, naquela época, eu não sabia que um dia sentiria falta de cada pequeno detalhe.
Eu queria ter ficado ali para sempre.
Queria ter congelado aquele momento antes que tudo mudasse.
Foi quando os primeiros fogos foram lançados.
O som atravessou a noite e fez Miguel levantar a cabeça imediatamente. Seu corpo ficou tenso debaixo de mim e, em poucos segundos, ele já não era mais o homem que estava deitado comigo no sofá. Era o dono do morro, o homem responsável por dezenas de pessoas, aquele que sabia que cada disparo de fogos podia significar que alguma coisa muito pior estava acontecendo.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, o rádio dele explodiu com a voz desesperada de um dos vapores.
— Miguel, estão subindo pelo Alvorada! É invasão! Eles estão entrando pelas duas entradas!
Meu coração parou.
Miguel levantou rapidamente e começou a pegar os equipamentos, enquanto eu ainda estava tentando entender o que estava acontecendo. Eu me levantei atrás dele e segurei seu braço antes que ele pudesse chegar à porta.
— Não vai.
Ele olhou para mim.
— Alana...
— Não vai, Miguel. Por favor.
Minha voz já estava tremendo. Eu sabia o que significava uma invasão. Sabia que homens armados estavam entrando no nosso território e que aquilo poderia terminar em morte. Eu já tinha visto Miguel sair outras vezes, mas naquela noite havia alguma coisa diferente dentro de mim. Uma sensação que eu não conseguia explicar começou a apertar meu peito.
— Fica aqui. O Dante está lá fora. Deixa ele resolver isso. Ele é tão dono disso quanto você, Miguel. Você não precisa ir.
Eu estava chorando.
Implorando.
Segurando a camisa dele como se minhas mãos fossem capazes de impedir que ele atravessasse aquela porta.
Miguel segurou meu rosto entre as mãos e enxugou uma lágrima que escorria pela minha bochecha.
— Eu preciso ir.
— Não precisa. Manda o Dante.
— O Dante já está cuidando de uma parte disso, mas eu não vou ficar escondido enquanto meus homens estão lá fora.
— Miguel, eu estou com medo.
Ele me puxou para perto e me abraçou com força. Enterrei o rosto no peito dele, sentindo seu cheiro, tentando guardar aquela sensação sem saber que, poucas horas depois, seria exatamente daquela lembrança que eu viveria.
— Eu vou voltar.
Foi o que ele disse.
Simplesmente isso.
Eu vou voltar.
Miguel beijou minha testa demoradamente e segurou meu rosto mais uma vez.
— Promete que vai ficar no cofre até eu mandar alguém buscar você.
Eu balancei a cabeça, chorando.
— Prometo.
Ele me deu um último beijo e saiu.
Eu fiquei parada no meio da sala observando a porta se fechar atrás dele. Aquele foi o último momento em que vi meu marido vivo.
Pouco depois, os homens me levaram para o cofre. Eu entrei contra a minha vontade, ainda chorando, enquanto os sons dos tiros começaram a se espalhar pelo morro. A porta pesada foi fechada, e eu fiquei sozinha naquele espaço apertado, sentada no chão com o rádio nas mãos.
Eu ouvia tudo.
Cada disparo parecia atravessar meu corpo.
Cada explosão fazia meu coração bater ainda mais rápido.
Eu rezava.
Pedia a Deus que protegesse Miguel, que protegesse os homens que estavam com ele e que fizesse aquela noite terminar o mais rápido possível.
Foi então que a voz de Dante explodiu pelo rádio.
Eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
Ele era o braço direito de Miguel, o homem em quem meu marido confiava cegamente e que comandava boa parte dos homens do morro quando Miguel não estava presente.
— Avança! Não deixa eles subirem! Segura essa entrada!
A voz dele estava firme, agressiva e desesperada ao mesmo tempo.
Os tiros continuaram.
Eu fiquei esperando ouvir Miguel. A qualquer momento ele poderia pegar o rádio e falar comigo, mas isso não aconteceu.
Os minutos se transformaram em horas. O som dos disparos continuava do lado de fora, às vezes mais próximo, às vezes mais distante. Eu apertava o rádio contra o peito e chorava em silêncio, esperando alguma notícia.
Nada.
Então ouvi novamente a voz de Dante.
— Fecha aquela rua! Eles não podem passar!
Depois disso, apenas tiros.
Procurei a voz de Miguel entre todos aqueles sons.
Não encontrei.
Meu coração começou a disparar de uma maneira diferente.
Aquela sensação r**m que eu tinha sentido antes de ele sair voltou ainda mais forte.
Eu não queria pensar.
Não queria imaginar.
Não queria aceitar a possibilidade de que alguma coisa tivesse acontecido.
As horas continuaram passando até que, lentamente, os tiros começaram a ficar mais distantes.
Depois veio o silêncio.
E então os fogos foram lançados novamente.
O sinal de que tinha acabado.
Mas eu não saí do cofre.
Eu não conseguia.
Fiquei sentada no chão abraçada aos meus próprios joelhos, olhando para a porta e esperando alguém aparecer para dizer que Miguel estava bem.
Eu repetia para mim mesma que ele iria entrar por aquela porta.
Que ele iria sorrir.
Que iria dizer que tinha acabado.
Que eu tinha chorado à toa.
Foi quando ouvi o mecanismo da porta.
Meu corpo inteiro ficou rígido,o pesado trinco começou a destravar.
A porta se abriu lentamente.
E Dante apareceu.
Naquele momento, eu soube.
Ele estava completamente molhado. A roupa estava suja de terra, o rosto tinha marcas de sangue e havia uma expressão no olhar dele que eu nunca tinha visto antes.
Ele entrou no cofre sem dizer uma palavra.
Eu me levantei imediatamente.
— Cadê meu marido?
Dante permaneceu em silêncio.
— Onde está o Miguel?
Ele abaixou a cabeça.
Foi apenas aquele movimento.
Nada mais.
Mas eu conhecia o significado.
Meu corpo inteiro começou a tremer.
— Não...
Dante levantou os olhos para mim, mas não conseguiu dizer nada.
— Não.
Dei um passo para trás.
— Não, Dante.
Ele respirou fundo.
— Alana...
— Não!
Minha voz ecoou pelo cofre.
— Meu marido não. Não, não, não...
Comecei a negar com a cabeça enquanto as lágrimas desciam pelo meu rosto.
— Meu Deus...
Então gritei.
— MIGUEL!
Empurrei Dante para passar pela porta e saí correndo.
Subi as escadas sem sentir meus próprios pés. Passei pela sala, atravessei a porta da frente e fui para a rua debaixo daquela chuva que continuava caindo com força.
Eu não sabia para onde estava indo.
Só sabia que precisava encontrar Miguel.
Corria pelas vielas do morro enquanto as pessoas se afastavam da minha frente. Algumas tentavam me segurar, outras choravam, mas eu não queria ouvir ninguém.
— Cadê ele?
Ninguém respondia.
— Onde está o Miguel?
Continuei correndo.
Até que vi uma movimentação em uma das ruas principais.
Meu coração pareceu parar antes mesmo de eu chegar perto.
Havia homens reunidos.
Algumas pessoas choravam.
Outras permaneciam em silêncio.
Eu empurrei quem estava na minha frente.
Foi então que eu vi.
Miguel estava estendido no chão.
Meu marido.
Meu amor.
O homem que tinha beijado minha testa poucas horas antes. O sangue dele se misturava à água da chuva e escorria pelo asfalto, sendo levado lentamente pelas enxurradas que atravessavam a rua.
Eu parei por alguns segundos, sem conseguir respirar.
Depois corri.
Caí de joelhos ao lado dele e coloquei minhas mãos sobre seu corpo.
— Miguel...
Nada.
— Amor, acorda.
Passei as mãos pelo rosto dele, tentando encontrar algum sinal de vida.
— Por favor.
A chuva caía sobre nós dois, mas eu não sentia mais frio.
Eu só sentia dor.
Uma dor tão grande que parecia rasgar meu peito por dentro.
— Você falou que ia voltar.
Minha voz saiu quebrada.
— Você prometeu que ia voltar.
Puxei seu corpo para os meus braços com dificuldade e coloquei sua cabeça no meu colo.
— Miguel, abre os olhos.
Nada.
— Olha para mim.
Comecei a chorar ainda mais.
— Eu estou aqui.
Aproximei meu rosto do dele.
— Você não pode me deixar.
Mas ele não respondeu.
Não abriria mais os olhos.
Não voltaria para casa.
Não me abraçaria novamente.
Não beijaria minha testa.
Naquela noite, enquanto segurava o corpo do homem que eu amava nos braços, senti alguma coisa dentro de mim morrer.
— MIGUELLLLL!
Meu grito atravessou o morro inteiro.Eu não sabia que era possível sentir tanta dor.
Naquela noite, não perdi apenas meu marido.
Perdi a mulher que eu era antes daquele momento.
No dia seguinte aconteceu o velório. As pessoas estavam vestidas de preto, o morro inteiro parecia ter ficado em silêncio e eu permanecia diante do caixão sem conseguir acreditar que aquele homem ali dentro era o mesmo que tinha deitado comigo no sofá algumas horas antes.
Todos falavam sobre Miguel.
Sobre o dono do morro.
Sobre o homem que tinha comandado aquela comunidade.
Sobre como ele havia morrido protegendo seu território.
Mas ninguém sabia o que eu sentia. Porque para mim ele não era o dono do Morro da Esperança.
Era simplesmente Miguel.
Meu marido.
Meu amor.
Minha casa.
Meu futuro.
Meu abrigo.
E naquele dia, enquanto o caixão descia lentamente para dentro da terra, eu tive a certeza de que estava enterrando muito mais do que o homem que amava.
Eu estava enterrando todos os planos que tínhamos feito juntos.
Enterrando os sonhos.
Enterrando a nossa vida.
Enterrando a mulher que eu costumava ser.
Eu morri naquele dia junto com o meu Miguel.
E não fazia ideia de que, quando aquela terra cobrisse o caixão dele, o destino ainda me obrigaria a continuar vivendo. Principalmente quando o homem que eu mais odiava assumisse o lugar dele.
Dante Carvalho.
O braço direito do meu marido.
O homem que chegou até mim naquela noite coberto de sangue.
O homem que sabia mais sobre aquela guerra do que jamais contou.
E, talvez, o homem que guardava a verdade sobre a morte de Miguel.