Silvestre estava sentado. Tinha uma corrente no pé. Ainda podia caminhar pela cela, pegar alguns livros na estante e ir para o chuveiro.
O pai entrou com uma bandeja. Aquele homem hoje se chamava Silvino Alonso, mas era o sexto nome que usava. Passou a vida conseguindo novos documentos, novas identidades e registros forjados. Sabia tudo sobre genética, gravidez, medicamentos e transformações genéticas. Havia aprendido dentro de uma seita de loucos que havia sido erradicada, mas fugiu antes disso e passou a usar todo aquele conhecimento no próprio filho antes mesmo do nascimento. Silvestre era fruto de uma inseminação artificial, e Silvino manipulou todo o processo para garantir que o filho nascesse maior que a população em geral, mais resistente a doenças e à dor.
Assim que Silvestre nasceu, foi separado da mãe e enfiado em uma cela. Era uma cobaia humana, revirada ao avesso desde criança em nome da ciência e do progresso. Cresceu longe da civilização, longe da sociedade e sem entender completamente como era o mundo lá fora.
Só recentemente percebeu que o mundo era maior do que as paredes frias de sua cela.
Ficou impressionado quando compreendeu que existia um mundo diferente lá fora, um mundo completamente diferente daquele em que vivia.
Só recentemente havia descoberto que o s**o feminino existia, porque nunca tinha visto uma mulher à sua frente, e a descoberta o deixou chocado.
Ele tinha consciência de que havia mudado de país várias vezes. Era dopado, levado para um ônibus e submetido a ciclos de mudança entre países que possuíam fronteiras terrestres. Sabia disso porque conseguiu aprender sobre o assunto com um mapa-múndi e um globo. Era inteligente e aprendeu a ler sozinho. Não demorou a entender que o pai era maligno. Descobriu isso ainda na infância e se sentiu traído.
Ganhou uma bandeja de comida, mas ficou olhando para ela. Não comeu, porque tinha certeza de que estava batizada com alguma substância. Não queria ser drogado.
Infelizmente, a fome costumava falar mais alto em alguns momentos.
Olhou para o pai.
— Em algum momento vou acabar matando você e aquele outro louco lá fora.
— Você, Silvestre, foi a minha melhor invenção, mas também foi a minha maior decepção.
— Me mantém acorrentado como um bicho, da mesma maneira que os cachorros que criava.
Silvino riu.
— Devia me agradecer por ser quem é. Tanta gente queria ser como você. O seu tamanho, a sua genética... E mantenho você acorrentado porque é violento. Desde os dez anos me quebrou o nariz, depois um braço e as duas pernas.
— Mentiu para mim. Disse que não havia nada lá fora, que existíamos só nós.
— Eu ia treinar você. Com o seu tamanho, inteligência e genética, eu ganharia o mundo por ser o seu pai e por ter feito todas as modificações. Mas você se rebelou, assim como Frankenstein se rebelou contra o seu criador.
Silvestre sabia quem era Frankenstein. Tinha lido o livro e sentia ainda mais raiva por compreender, através da leitura, que era apenas uma criação do pai.
— Infelizmente, tenho que acabar com isso.
O pai queria que ele procriasse para depois se livrar dele. Havia colocado filmes de conteúdo adulto para que assistisse e levado uma mulher para dentro da cela, mas Silvestre apenas olhou para ela e não sentiu absolutamente nada.
— Vou arrumar outra mulher para a sua cela.
— Entrar uma mulher aqui? Eu a mato. E estou prestes a m***r você também.
— Sou o seu pai.
— Você é como Victor Frankenstein. Um criador desumano que me criou para não ser nada. Nada.
— Você é o melhor protótipo da raça humana. O melhor.
Silvestre riu.
— Você podia ter filhos. Venderíamos essas crianças, porque você é tão bom que não consigo criar mais nada igual.
Ele rosnou como um animal, e o pai correu para fora, porque temia que, em algum momento, até mesmo as correntes se soltassem.
A comida ficou ali.
Silvestre estava com muita fome, mas sabia que seria drogado e que poderiam deixar uma mulher lá dentro. Não queria uma mulher. Sabia como o s**o funcionava, porque havia lido sobre o assunto e visto as cenas, mas achava tudo muito nojento. Não sabia se queria o corpo de uma mulher perto dele.
Silvino foi ficar ao lado do seu ajudante.
— Preciso achar uma mulher que o agrade. Ela engravida, a criança vai nascer bem e, possivelmente, vai ser um homem. Esse vai fazer o que desejamos.
— Se ele for como você, não vai se importar se matarmos as crianças.
— Vai, sim, Jackson. Vai, sim. E, se não se importar, matamos ele e ficamos com o bebê. Talvez a mulher engravide de gêmeos e dê certo.
— E se a gente tentar alguma coisa no lobo frontal dele? Talvez, com alguma medicação, ele aceite.
— Não. Já tentamos de tudo e não conseguimos afetar o lobo frontal dele. Não vai funcionar. Precisamos mesmo é de uma mulher. Uma mulher. Se colocarmos um estimulante de libido, ele não vai ter opção.
Silvino olhou para Jackson.
— A sua mulher é uma mulher bonita.
— Clarinda é, sim, uma mulher bonita. Mas sou louco por ela, Silvino.
— Você batte nela, Jackson.
— É complicado. Inteligente demais. Fica tentando ir embora, mas ela não vai. Estávamos casados havia um ano antes de tudo. Eu era um gentleman. Depois mostrei quem eu realmente era para Clarinda... A mulher sofre.
— Por que não a traz? Talvez ele goste dela.
— Não. Isso não.
Mas Silvino sabia ser persistente
Me breve