Fui a primeira a chegar no ginásio. Me dirigi até o vestiário, abri meu armário e peguei meu uniforme dos "Falcões", uma camiseta vermelha e um shorts preto, ambos com o emblema de uma águia estampado no peito. Troquei-me rapidamente, guardando meu uniforme escolar e minha bolsa no armário antes de trancá-lo novamente.
Em seguida, me dirigi ao pequeno quartinho dos fundos, onde as bolas de basquete ficavam guardadas em um carrinho. Empurrei-o até um canto da quadra.
Enquanto organizava tudo, o senhor Harrison apareceu, com seu apito pendurado no pescoço e uma prancheta na mão.
— Bom, pelo menos você é pontual — disse, sorrindo.
— Alguém tem que dar o exemplo, né? — respondi, jogando uma bola na sua direção.
Ele pegou no ar e começou a driblar enquanto caminhávamos pela quadra.
— Como tá o time? — perguntei.
— Esse ano temos um time promissor. Tyler tá com bom aproveitamento de arremessos. Maike tá se destacando. O John tá ótimo nas transições. Já o Fred... bom, o Fred tem potencial, mas só quando decide usar.
— E o Liam?
O treinador deu uma risada.
— Aquele garoto é um caso à parte. Tem talento de sobra, mas anda muito distraído.
Antes que pudesse responder, o ginásio se encheu de risadas e vozes altas. Os jogadores entraram empurrando uns aos outros, com suas mochilas penduradas em apenas um ombro. Alguns cumprimentaram o treinador com acenos ou tapinhas nas costas; outros seguiram direto para o vestiário, já tirando as camisas antes mesmo de chegar lá.
O senhor Harrison me deu um leve tapinha no ombro.
— Vai lá, distribuir os uniformes.
Assenti e deixei a quadra, voltando para o vestiário. O barulho lá dentro era de vozes altas e o som abafado dos armários sendo abertos e fechados. Alguns estavam sem camisa, outros já só de cueca.
Assim que me viram, as provocações começaram.
— Olha quem chegou! — gritou Maike, jogando uma meia na minha direção.
— A odd girl dos uniformes! — Fred acrescentou, rindo.
— Vão se fod3r — murmurei, seguindo em frente.
Passei por eles, desviando do que pude e ignorando suas provocações. Segui até o fundo do vestiário, onde ficava uma pequena lavanderia. Peguei o cesto cheio de uniformes limpos e retornei.
Distribuí os uniformes, um a um.
— Vai lavar nossas cuecas também, odd girl? — o idiotä do Fred disse, rindo.
— Cuidado, Fred, se você continuar pegando assim no pé dela, ela se apaixona.
— Relaxa, Maike. Meu gosto não é tão péssimo a esse ponto — completei, encarando ele.
Alguns riram, outros arregalaram os olhos e riram em silêncio.
Aos poucos, os jogadores foram se vestindo, o barulho diminuindo conforme iam saindo do vestiário. Maike, Fred e John foram os últimos. Fred deu duas batidas fortes na porta de uma das cabines dos banheiro.
— Liam, vamo logo, caramba!
— Pode ir, a gente se vê na quadra — respondeu com a voz abafada do outro lado.
Eles saíram, e com a partida deles veio o silêncio. Liam saiu do banheiro.
Estava sem camisa, só com a calça do uniforme escolar, os cabelos levemente bagunçados. Me aproximei com o cesto nos braços. Liam pegou a camiseta do time e vestiu. Depois o shorts, mas, antes de vesti-lo, ficou me olhando.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Vai ficar aí me encarando? — disse, com um tom divertido.
Gaguejei, nervosa.
— Me... me desculpa. — virei de costas, sentindo o rosto esquentar.
Ouvi ele rir.
— Relaxa, tô só brincando.
Virei de volta, ele já estava tirando a calça do uniforme. Ficou ali, na minha frente, só de cueca. E o volume era... absurdo. Foi impossível não notar. Ele era superdotado. Só consegui pensar em como aquela idiotä da Milla tinha sorte. Não consegui evitar de morder os lábios.
Vestiu o shorts do time devagar, com os olhos em mim o tempo inteiro. Depois, cruzando os braços, falou:
— Você é amiguinha daquele tal de Noah?
— Talvez. Por quê?
Deu uma risada seca.
— Porque não acho que é uma boa ideia.
Fui eu que ri dessa vez.
— Não vem com essa, Liam.
— É sério. Ele tem uma rivalidade esquisita comigo desde o primeiro dia que me conheceu.
Revirei os olhos, mas acabei sorrindo.
— Você se acha o centro do universo mesmo.
Comecei a me afastar, mas ele me segurou pelo braço.
— Tô falando sério. Se afasta dele.
— Por quê, Liam? Só porque ele tem uma "suposta" rivalidade boba com você? — disse, puxando o meu braço.
Ele hesitou. Seus olhos encontraram os meus por um segundo, e a resposta parecia pesar em sua garganta.
— Eu…
Abriu a boca para continuar, mas, antes que as palavras saíssem, a porta do vestiário se escancarou. O senhor Harrison entrou com o Noah. Os dois conversavam e riam alto, nem notaram o clima estranho. Liam se afastou e foi até o armário dele.
— Miller! — chamou o treinador. — O Noah vai treinar com a gente hoje.
Liam se virou devagar, encarando os dois com um olhar furioso.
— Por que esse cara vai treinar com a gente? Ele nem faz parte do time.
— Miller — o treinador suspirou, paciente. — Ele era um dos melhores no time da escola antiga dele.
Noah deu um meio sorriso confiante.
— Isso mesmo. Já ganhamos vários campeonatos. Sou acostumado a jogar com gente "boa" — disse, provocando.
— Você tinha que ver as enterradas que ele fez na quadra. Impressionante. Esse garoto é talento puro. — o treinador disse animado.
A mandíbula de Liam travou. Seus punhos se fecharam ao lado do corpo.
— Que se fodä isso. Esse cara não pode jogar com a gente.
O senhor Harrison estreitou os olhos e cruzou os braços, caminhando firme até ele.
— Posso saber por quê?
— Eu... esse cara... — tentou.
— Não interessa — cortou o treinador. — Quem decide quem joga ou não nos "Falcões" sou eu. Você entendeu?
Abaixou a cabeça e respondeu quase num sussurro:
— Sim…
— Eu não ouvi. Entendeu ou não, Miller?
Ele ergueu os olhos com fúria contida, a respiração pesada.
— Eu entendi!
O treinador assentiu, satisfeito, e se virou para mim.
— Roxie, pega um uniforme do Miller e entrega pro Noah. Eles têm o mesmo porte físico, deve servir.
O silêncio tomou o vestiário. Liam bateu a porta do armário com força, fazendo todos os olhares se voltarem para ele, e saiu dali sem dizer uma palavra.