Alice Narrando
Morar no asfalto é confortável. Calmo até demais. E, talvez, seja justamente esse o problema.
Eu sempre gostei de sentir a adrenalina correndo nas veias, daquela sensação de que alguma coisa pode acontecer a qualquer momento. Por isso, quase nunca me contento com a rotina. Estou sempre procurando algo novo, algo que faça meu coração acelerar.
Respiro fundo antes mesmo de abrir os olhos. Já imagino o que o Tiago está fazendo. Meu digníssimo "namorido" deve estar na cozinha, como faz todos os dias antes de ir trabalhar.
Levanto da cama, prendo o cabelo em um coque bagunçado e caminho até a cozinha.
Quem olha para mim nunca imagina que uma mulher de apenas vinte e cinco anos já mora com o namorado. Casar? Ainda não.
Não é falta de amor. Muito pelo contrário. Eu amo o Tiago, amo a vida que construímos juntos. Mas casamento... casamento é um passo que ainda não consigo dar. Gosto da sensação de liberdade. Gosto de saber que, se algum dia algo sair do meu controle, posso simplesmente partir. Talvez seja egoísmo. Talvez seja medo. Ou talvez eu só ainda não tenha encontrado o momento certo.
Tiago: Já acordou? — pergunta assim que me vê preparando o café.
Alice: Vou para o churrasco na casa da Laura. Quero adiantar tudo antes de fazer o cabelo. — respondo, me aproximando para deixar um beijo rápido em seus lábios.
Tiago: Só toma cuidado. Não gosto da ideia de você subir o morro.
Ele fala tentando parecer tranquilo, mas conheço aquele olhar. É preocupação.
Alice: Relaxa. Eu nem vou sair da casa dela. O churrasco é só entre a família, e você sabe o quanto eu adoro aquela família.
Sorrio, tentando tranquilizá-lo.
Ele apenas concorda com a cabeça.
Não insiste. Nunca insiste.
Conheci a Laura há três anos, mas parece que somos amigas desde crianças. Ela tem uma energia difícil de explicar. Onde chega, leva alegria junto. Não importa o problema, ela sempre encontra um motivo para rir. É impossível dizer "não" para aquela mulher.
Enquanto termino de arrumar o cabelo, meu celular começa a tocar.
Só podia ser ela.
A Laura simplesmente não sabe usar w******p. Para tudo, ela prefere ligar.
Ligação ON
Alice: Amiga... você já ouviu falar em w******p? — pergunto, fingindo irritação, enquanto rio sozinha.
Laura: Não tenho paciência para esperar vocês responderem mensagem. Liguei para confirmar se você vai mesmo. Ah... e já falei com o Guto. Sua entrada está liberada.
A animação dela atravessa o telefone.
Alice: Já estou quase pronta. Acho que chego por volta das cinco.
Laura: Quando estiver na barreira, me liga. Beijo!
Ela desliga antes mesmo que eu consiga responder.
Ligação OFF
Nesses três anos de amizade, eu nunca subi o morro.
Sempre encontrávamos um jeito de nos ver no asfalto ou na minha casa. Ela já me chamou para bailes, festas e comemorações incontáveis vezes.
Eu nunca fui.
Mas alguma coisa mudou.
Talvez seja essa nova fase da minha vida.
Talvez eu só esteja cansada da rotina.
Quero viver coisas novas. Sentir emoções diferentes. Na adolescência, enquanto todo mundo fazia besteira, eu tinha outras prioridades. Cresci rápido demais.
Agora sinto vontade de recuperar o tempo.
Entro no carro e dou partida.
As ruas conhecidas começam a ficar para trás.
A cada minuto, o Morro do Alemão fica mais perto.
Engraçado...
Eu nunca tive preconceito com quem mora na favela. Nunca achei que um CEP definisse o caráter de alguém. Sempre enxerguei pessoas antes de enxergar o lugar onde vivem.
Mas, mesmo assim, aquele friozinho na barriga aparece.
É a curiosidade.
A expectativa.
E talvez... um pouco de medo.
Ligação ON
Alice: Amiga, já estou na entrada do morro.
Paro o carro em frente à barreira. Os vidros estão abaixados, e alguns vapores me observam com expressões fechadas.
Meu coração acelera por alguns segundos.
Laura: Tô chegando, maluca!
Nem termino de guardar o celular e ela aparece do nada, abrindo a porta do carro e entrando como um furacão.
Ligação OFF
Antes mesmo de falar qualquer coisa, ela me abraça forte.
Depois começa a rir.
A Laura tem uma luz diferente.
Mesmo quando a vida pesa sobre seus ombros, ela encontra forças para sorrir.
E acho que foi exatamente isso que me fez amá-la como amiga.
Laura: Vamos, gatinha! Você está um verdadeiro arraso!
Ela bate palmas enquanto me analisa da cabeça aos pés.
Eu rio.
Estou usando apenas um conjunto básico de short e blusa. Com o calor absurdo do Rio de Janeiro, qualquer tentativa de elegância vira sofrimento.
Mas, olhando para o caminho que leva cada vez mais para dentro do morro...
Tenho a estranha sensação de que esse churrasco vai mudar muito mais do que o meu sábado.
Talvez... mude a minha vida inteira.
Alice: Estou básica, maluca. Com esse calor não dá para ser elegante. — faço uma careta, tentando não demonstrar o meu nervosismo
Laura: Você tá um arraso! Tá uma carioca bem gostosa. O Guto e o NT vão ficar doidos quando te virem. — diz, rindo, enquanto cumprimenta alguns vizinhos pelo caminho.
Alice: O Guto... o dono do morro? — pergunto, sem acreditar.
Laura: Óbvio! A mulher dele é uma víbora, mas o meu amigo é gente boa.
Acabo rindo do comentário.
Alice: Dono de morro gente boa... só na sua cabeça, Laura.
Laura: Tá bom, tá bom... ele é só um pouquinho maluco. Mas eu amo aquele doido mesmo assim. Depois você acostuma. — responde, gargalhando.
Balanço a cabeça em negativa.
Eu realmente não acredito que ela chamou o dono do morro para um churrasco em família. Meu coração parece errar algumas batidas. Não que eu vá fazer alguma coisa de errado. Afinal, conheço apenas a família da Laura.
Assim que chegamos, o samba já tomava conta do ambiente. O cheiro da carne assando se misturava ao da brasa. Na frente da casa havia uma área enorme, cheia de mesas, um chuveirão ligado para aliviar o calor, crianças correndo de um lado para o outro e adultos conversando entre uma cerveja e outra.
No fim das contas... era só uma família reunida, feliz do seu próprio jeito.
Laura: Amiga, vem conhecer o Guto e o NT!
Eu estava de costas.
Assim que ouvi aqueles nomes, meu corpo travou por alguns segundos.
Mirela: Vai, Alice. Eles não mordem. — diz a irmã da Laura, rindo da minha expressão.
Respiro fundo e me viro.
NT: satisfação. NT. — diz, estendendo a mão.
Alice: satisfação... Alice.
Aperto sua mão e, logo em seguida, meus olhos encontram os do homem ao lado.
Por alguns segundos, o mundo parece desacelerar.
Guto: satisfação, ruiva. — fala, segurando minha mão.
O aperto é firme.
O olhar... intenso.
Ele sustenta meus olhos por tempo suficiente para fazer meu coração acelerar.
Alice: satisfação... preto.
Respondo com um sorriso de canto.
Eu nunca fui do tipo que abaixa a cabeça para homem nenhum.
Pelo contrário.
Gosto de mostrar que também sei jogar.
Por um breve instante, um sorriso discreto surge no rosto dele.
Laura: Bora comer! A carne tá saindo agora, e a bebida de vocês já está naquela mesa.
Ela aponta para uma mesa repleta de cervejas e garrafas de whisky.
Guto apenas faz um gesto com a cabeça e se afasta.
Mas, antes de virar de costas... lança mais um olhar na minha direção.
E droga...
Por que justo ele?
Eu moro com o Tiago. Nossa relação está longe de ser perfeita, e faz tempo que a confiança entre nós deixou de existir. Mesmo assim, eu nunca tinha sentido aquele tipo de impacto ao conhecer alguém.
Talvez fosse só curiosidade.
Talvez fosse o perigo estampado nele.
Ou talvez fosse aquele jeito seguro que fazia todo mundo abrir caminho quando ele passava.
Enquanto tento afastar esses pensamentos, começo a dançar com as meninas ao som do samba.
Finjo que não percebo.
Mas percebo.
De vez em quando, encontro o olhar dele do outro lado da roda.
Ele leva o copo de whisky aos lábios sem desviar os olhos de mim.
E eu sorrio de canto.
Só por um segundo.
Apenas o suficiente para me perguntar se aquela troca de olhares significava alguma coisa...
Ou se eu estava prestes a entrar no maior problema da minha vida.