Meu novo paciente

946 Words
GABRIELA Tomei um copo de água enquanto esperava pra atender o novo paciente. Preciso ser eficiente, porque ainda não fui definitivamente contratada aqui no hospital. Estou em fase de experiência, estágio remunerado e realmente quero trabalhar aqui. Eu gosto das pessoas daqui. Me dou bem com todo mundo e os pacientes são uns amores comigo. — Seu paciente já está pronto. — a enfermeira falou a mim quando saiu do quarto dele e ainda me alertou com um sorrisinho. — Esse é medroso, viu. — Percebi. — sorri andando pro quarto do paciente. — Voltei! Sempre chega pacientes assim, jovens, aqui no hospital. E os motivos são quase sempre os mesmos. Troca de tiro... Perseguição... Espero que esse não seja por um desses motivos. Não quero julgar por aparência. — Então, cê vai fazer essa dor parar mermo, Doutora? — ele se ajeitou no leito com um leve sorriso nos lábios. — É o meu objetivo. — coloquei um travesseiro encima do outro, debaixo da perna machucada dele. — E como é que cê vai fazer isso? — Drenagem linfática para tirar o inchaço. Comecei a fazer o procedimento e ele ficou só observando. Não era um trabalho tão fácil por causa do grande curativo que fizeram. — Opa, vai ficar alisando minha perna é? — ele deu uma risadinha. — Sério mermo que isso vai desinchar minha perna? — Bom, funciona na teoria e já funcionou na prática um monte de vezes. — respondi sorrindo. Eu gosto quando os pacientes ficam impressionados com as técnicas que nós usamos. Nem todo mundo conhece fisioterapeutas. Nem sabe o que fazemos. Resumindo: nós somos f**a. Tratamos das doenças sem sem remédios. É isso. — Eu quero isso todo dia, viu? — ele ficou todo empolgado e eu levantei o rosto e sorri. — Se precisar eu estarei aqui. — continuei o meu trabalho. — Quando foi que cê se formou? Cê parece ter a mesma idade que eu. — No tempo normal. Com 17. — Cê é o que o povo chama de nerd? — Não. — balancei a cabeça sorrindo. — Eu sou o que chamam de pobre que precisa fazer alguma coisa pra mudar de vida. — Tamo no mermo barco então. — Você também estuda? — Não. Não tive essas oportunidade. Agora preciso fazer a pergunta de sempre. — Como você se machucou? — Ah... Cê não vai querer saber não. — ele deu uma risadinha. — Quero sim. As respostas pra essa pergunta nem sempre são as menos assustadoras, então talvez eu nem fique surpresa com o que me falar. Ele ficou calado por um tempo, me analisando, como se estivesse decidindo se deveria me contar ou não. — Tinha uma troca de tiro e eu tava passando de moto... E o tiro pegou em mim. Depois a gente caiu e quebrei a perna. — Caramba! — fiquei admirada. — Desculpa a palavra, mas é que parece coisa de filme. Coitado. Vai ver nem tinha nada haver com isso e acabou no hospital. — É. Só que na vida real a coisa é braba. — ele lamentou. — Imagino. Eu tenho medo quando saio daqui sozinha. Ninguém sabe quem vai estar na esquina, o que tá rolando quando trocamos de quarteirão... Saio daqui quase correndo. — admiti. — É perigoso mesmo pra uma garota como você. Você sabe se defender? — me fitou novamente de um jeito analítico. — Não. Obviamente não. — ri de nervosa. — Se eu quebrar uma das minhas mãos tentando aprender alguma luta, fico sem emprego. — expliquei. — É. Continua assim com essa mão boa. Porque aquela enfermeira que faz meus curativo, eita mulher das mãos pesada! Eu ri demais. Todo mundo fala isso dela. — c*****o, cê é bem bonita. Agora fiquei sem jeito. Não esperava por um elogios desses no meio dessa conversa. — Cê sempre recebe esses elogio, né? — seus olhos estavam fixou em meu rosto, mas eu só olhava pra ele pela visão periférica, pois estava tentando dar o meu melhor no trabalho. — É... — balancei a cabeça com as bochechas corando. Sempre recebo, mas não de um cara bonito que nem ele. Aí eu fico bem sem jeito mesmo. — Cê tem... Antes que ele perguntasse alguma coisa eu falei. — Terminei. — Já?! — sua pergunta soou como um protesto. — Sim. Como está se sentindo? — retirei os travesseiros de baixo da sua perna. — Com vontade de mijar. — Ótimo, sinal que a linfa foi drenada. — E ainda fala difícil... — ele comentou me encarando de um jeito engraçado e tentou levantar da maca. Fiquei tão sem jeito que depois de colocar uma cadeira de rodas pra ele, também peguei minha prancheta torcendo pra minhas bochechas não estarem muito coradas. — Tenho que ir. — ok? Cuidado ao colocar essa perna no chão. Você ainda vai passar por cirurgia. — Você volta quando? — ele sentou na cadeira. — Amanhã. — Ainda? Mas e se eu precisar de você de novo? Quando eu voltar do banheiro, talvez minha perna volte a doer. Gente... Que isso! Ele é muito do manhoso. — Eu não posso cuidar de você o dia todo, Felipe. — ri da ideia dele. — Tenho outros pacientes e tenho certeza que você não vai mais precisar de mim. — andei em direção a saída. — Injustiça, quando aparece a melhor doutora só fica um instante com a gente... Vou reclamar na diretoria. Eu não consigo parar de rir. — Tchau. — balancei a mão de costas e fui a procura do próximo paciente. Já vejo que esse rapaz vai pegar muito no meu pé.
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