Capitulo 2

1333 Worte
Kael Eu esperei por ela durante séculos. Séculos de silêncio. Séculos de escuridão. Séculos sentado em um trono frio, governando um reino onde a primavera era apenas uma lembrança distante. E então ela apareceu. Elara. Minha rainha. A flor n***a não mentia. Ela jamais mentia. Quando surgiu no salão do Reino da Luz, atravessando a multidão para pousar nas mãos daquela jovem de olhos assustados e curvas suaves, algo dentro de mim despertou. Algo antigo. Algo que eu acreditava morto. Meu coração. Pela primeira vez em muito tempo, eu senti. E isso me assustou mais do que qualquer guerra que já enfrentei. Ela me olhava como se eu fosse um monstro. Talvez eu fosse. Para o mundo dela, eu era uma lenda sombria. O homem das histórias contadas em sussurros. O rei que caminhava entre os mortos. O governante de um reino onde o sol jamais tocava o chão. Mas, diante dela, eu não quis ser temido. Eu quis ser visto. — Finalmente encontrei você — falei. A voz dela não saiu. Apenas seus olhos permaneceram presos aos meus. Grandes. Assustados. Lindos. O salão inteiro estava imóvel. Ninguém ousava respirar alto. Eu podia sentir o medo deles. Sempre sentia. O medo tinha cheiro. Tinha peso. Tinha gosto. Mas o dela era diferente. Elara não temia apenas a mim. Temia o que sua vida se tornaria a partir daquele instante. E eu compreendia. A flor havia escolhido. O destino havia falado. E nenhum de nós dois poderia voltar atrás. O rei do Reino da Luz se levantou do trono, pálido como mármore. — Kael Draven. Meu nome ecoou pelo salão como uma maldição. Sorri sem humor. — Majestade. — O que significa isso? Olhei para a flor ainda presa aos pulsos de Elara. As raízes negras brilhavam contra sua pele. — Significa que a profecia começou. Murmúrios explodiram ao redor. Elara deu um passo para trás. Meu olhar voltou para ela imediatamente. Eu não gostei daquela distância. Não gostei do modo como todos a observavam. Como se ela tivesse deixado de ser uma jovem mulher e se tornado uma ameaça. Minha ameaça. Minha protegida. Minha rainha. — Não — ela sussurrou. A palavra foi baixa. Mas eu ouvi. Ouvi como se tivesse sido dita diretamente contra meu peito. — Elara... — chamou uma mulher mais velha, aproximando-se com cuidado. A mãe dela, talvez. A jovem tentou ir até ela, mas as raízes da flor apertaram seus pulsos. Ela arfou. Minha paciência desapareceu. Atravessei o espaço entre nós e segurei delicadamente sua mão. O salão inteiro congelou. Ela também. Mas eu não apertei. Não forcei. Apenas toquei. E, quando meus dedos encontraram sua pele, a flor se acalmou. As raízes pararam de se mover. Elara olhou para minha mão sobre a dela. Depois para meu rosto. — O que você fez? — Nada. — Então por que ela parou? Porque reconheceu seu rei. Mas não disse isso. Ainda não. Ela já estava assustada demais. — A flor não quer machucá-la. — Parece exatamente o contrário. Um canto da minha boca se ergueu. Havia fogo nela. Mesmo com medo, havia coragem. Gostei disso. Mais do que deveria. — Ela está marcando você. — Como propriedade? Minha expressão endureceu. — Como rainha. Algo passou por seus olhos. Confusão. Medo. Raiva. — Eu não sou sua rainha. O salão inteiro prendeu a respiração. Ninguém falava comigo daquela forma. Ninguém além dela. Inclinei-me um pouco, apenas o suficiente para que somente ela me ouvisse. — Ainda não. Suas bochechas coraram. E, por um instante, a escuridão dentro de mim pareceu menos fria. O rei da Luz desceu os degraus do trono. — Não permitirei que leve uma filha do meu reino como se fosse um prêmio. Elara ficou rígida. Mas eu não tirei os olhos dela. — Eu não vim buscar um prêmio. Então olhei para todos. — Vim buscar a mulher escolhida para impedir a queda dos dois reinos. O silêncio retornou. Mais pesado. Mais terrível. Porque todos ali conheciam a profecia. Apenas fingiam não acreditar. Era fácil rir das lendas quando elas não estavam paradas diante de você, vestidas de n***o. — Isso é impossível — disse o rei. — Não. Impossível é seu reino continuar florescendo enquanto o meu morre. Impossível é negar que as sombras estão avançando. Impossível é fingir que a magia antiga não despertou. Senti Elara estremecer. Suavizei a voz antes de olhar para ela novamente. — Você também sentiu, não foi? Ela não respondeu. Mas seus olhos disseram tudo. Sim. Ela sentira. A mesma energia. O mesmo chamado. O mesmo destino nos envolvendo como correntes invisíveis. A mãe dela começou a chorar baixinho. Aquilo mexeu com Elara. Vi quando sua expressão se quebrou. Vi quando a coragem vacilou. E odiei a dor dela. Eu, que tinha ordenado exércitos. Eu, que já havia visto reinos caírem. Eu, que havia sido chamado de c***l tantas vezes que quase acreditei. Odiei ver lágrimas nos olhos daquela mulher. — Eu não quero ir — ela disse. A frase atravessou meu peito como uma lâmina. Por um momento, não respondi. Porque a verdade era simples. Eu poderia levá-la. A flor havia escolhido. A lei antiga me permitia. O pacto entre os reinos exigia. Mas, olhando para ela, percebi que não queria uma rainha quebrada ao meu lado. Eu queria Elara. Inteira. Forte. Com fogo nos olhos. Mesmo que esse fogo fosse usado contra mim. — Então não irei levá-la esta noite. A surpresa percorreu o salão. Elara piscou. — Não? — Não. Soltei sua mão, mesmo que cada parte de mim odiasse fazer isso. As raízes da flor permaneceram imóveis, como se também estivessem ouvindo. — Você terá três dias. — Para quê? — Para se despedir da vida que conhece. Seu rosto perdeu a cor. — E depois? Segurei seu olhar. — Depois, virá comigo para o Reino das Sombras. O pai dela se aproximou. — Minha filha não irá sozinha. — Ela não estará sozinha. Minha voz saiu mais dura do que pretendia. — Estará comigo. Elara respirou fundo, como se minhas palavras a tivessem atingido de algum modo que ela ainda não compreendia. Eu também não compreendia. Não totalmente. Só sabia que, a partir daquela noite, nada importava mais do que protegê-la. Nem meu trono. Nem minha coroa. Nem meu reino amaldiçoado. Apenas ela. Minha primavera. Minha ruína. Minha salvação. Antes de partir, toquei a flor n***a com a ponta dos dedos. As pétalas se abriram ainda mais. Elara observou o gesto em silêncio. — Ela vai desaparecer? — Não. — Então o que faço com isso? Olhei para seus pulsos marcados pela magia. Depois para seus olhos. — Aprenda a escutá-la. — Flores não falam. — Essa fala. Ela engoliu em seco. — E o que ela vai dizer? Aproximei-me apenas um pouco. O suficiente para sentir o perfume delicado de flores preso à sua pele. — A verdade. Por um instante, nenhum de nós se moveu. Havia uma ponte invisível entre nós. Uma atração perigosa. Antiga. Assustadora. Então me afastei. Porque, se ficasse mais um segundo, talvez esquecesse todos os planos. Todas as leis. Toda a paciência que havia prometido a mim mesmo ter com ela. As sombras começaram a se reunir aos meus pés. Era hora de partir. Mas antes que eu desaparecesse, olhei para ela uma última vez. — Três dias, Elara. Ela ergueu o queixo. — E se eu fugir? Dessa vez, sorri. Não de crueldade. Mas porque aquela coragem dela me fascinava. — Então eu a encontrarei. Seus olhos brilharam de desafio. — Você parece muito certo disso. — Estou. As sombras subiram ao meu redor. E, antes que o mundo dela me expulsasse de volta para a escuridão, falei a última verdade que podia lhe oferecer. — Eu a procurei por séculos, pequena flor. Não existe lugar em nenhum reino onde eu não possa encontrá-la. Então desapareci. Mas levei comigo uma certeza. A rainha das sombras finalmente havia despertado. E o mundo nunca mais seria o mesmo.
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