Elara
Eu não dormi.
Nem naquela noite.
Nem na manhã seguinte.
Nem depois.
Toda vez que fechava os olhos, via os dele.
Os olhos escuros do Rei das Sombras.
Via a forma como ele havia me observado.
Como se já me conhecesse.
Como se estivesse me procurando.
Como se eu fosse importante.
E aquilo era ridículo.
Porque eu era apenas Elara Ashbourne.
Uma jovem comum.
Uma mulher que passava mais tempo cultivando flores do que frequentando bailes.
Mas a marca n***a em meus pulsos dizia o contrário.
Ela ainda estava lá.
As raízes desenhadas em minha pele pareciam mais escuras naquela manhã.
Mais vivas.
Mais reais.
Passei os dedos sobre elas.
Um arrepio percorreu meu braço.
Por um instante, tive a estranha sensação de ouvir um sussurro.
Afastei a mão imediatamente.
— Estou ficando louca.
Mas nem eu acreditei naquilo.
Porque, desde o momento em que a flor havia me escolhido, nada parecia normal.
Nada.
Levantei-me da cama e caminhei até a janela.
O sol acabava de nascer.
Os jardins da propriedade brilhavam sob a luz dourada da manhã.
Normalmente aquela visão me acalmaria.
Mas não naquele dia.
Porque agora eu sabia que poderia estar vendo tudo aquilo pela última vez.
Meu quarto.
Minha casa.
Meu reino.
Minha família.
Tudo estava prestes a mudar.
E eu não sabia se estava pronta.
A mansão parecia estranhamente silenciosa durante o café da manhã.
Meu pai estava sentado à cabeceira da mesa.
Minha mãe m*l tocava na comida.
E eu tinha certeza de que todos estavam pensando exatamente na mesma coisa.
Três dias.
Restavam apenas três dias.
— Você não precisa ir.
A voz da minha mãe rompeu o silêncio.
Levantei os olhos.
Ela parecia cansada.
Os olhos vermelhos denunciavam que havia chorado durante a noite.
Meu coração apertou.
— Mãe...
— Não precisa.
— A profecia...
— Não me importo com profecias!
Sua voz falhou.
— Você é minha filha.
O silêncio voltou a ocupar a sala.
Meu pai segurou a mão dela sobre a mesa.
Foi um gesto simples.
Mas cheio de amor.
Sempre admirei aquilo nos dois.
Mesmo depois de tantos anos, ainda se olhavam como se fossem as únicas pessoas no mundo.
— Nós vamos encontrar uma solução — disse ele.
— E se não encontrarmos?
Ninguém respondeu.
Porque todos sabíamos a verdade.
A flor havia me escolhido.
E nenhuma lenda terminava bem para quem tentava desafiar a magia antiga.
Passei o restante da manhã no jardim.
Meu jardim.
Talvez pela última vez.
Ajoelhei-me diante dos canteiros de rosas.
Passei os dedos sobre as pétalas.
Memorizando tudo.
As cores.
Os perfumes.
A textura da terra.
As flores sempre haviam sido meu refúgio.
Meu porto seguro.
E agora eu seria arrancada delas.
Uma lágrima escorreu por meu rosto.
Eu a limpei rapidamente.
Não queria chorar.
Mas era impossível.
Porque, pela primeira vez na vida, eu estava com medo.
Medo do futuro.
Medo do desconhecido.
Medo dele.
Kael Draven.
O Rei das Sombras.
Fechei os olhos.
E imediatamente sua imagem surgiu em minha mente.
Alto.
Imponente.
Perigoso.
Mas não era isso que me perturbava.
Era a forma como ele me olhava.
Aquela intensidade.
Como se eu fosse algo precioso.
Como se ele estivesse feliz por me encontrar.
Como se me conhecesse.
Aquilo não fazia sentido.
Nós nunca havíamos nos visto.
Então por que parecia que alguma parte de mim o reconhecia?
Naquela noite, sonhei.
Ou talvez não tenha sido um sonho.
Porque tudo parecia real demais.
Eu estava em um jardim.
Mas não era o meu jardim.
As flores eram negras.
Prateadas.
Azuis.
Flores que jamais existiriam em meu reino.
O céu era violeta.
As estrelas brilhavam como diamantes.
E havia uma enorme árvore dourada no centro daquele lugar.
Uma árvore tão bela que meu coração doeu.
Caminhei em sua direção.
Descalça.
Hipnotizada.
Foi quando ouvi uma voz.
— Elara.
Meu corpo inteiro congelou.
Eu conhecia aquela voz.
Virei-me lentamente.
E ele estava lá.
Kael.
Vestido de n***o.
Observando-me.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Isto é um sonho?
Ele sorriu.
Um sorriso pequeno.
Quase triste.
— Eu gostaria que fosse.
— Então o que é?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Um vínculo.
Engoli em seco.
— Entre nós?
— Entre nossos destinos.
Aquilo não ajudava em nada.
Na verdade, só me deixava mais confusa.
Cruzei os braços.
— Você fala como um livro de enigmas.
Pela primeira vez, vi algo inesperado.
Diversão.
Diversão genuína.
Nos olhos do Rei das Sombras.
— E você fala exatamente como imaginei.
Pisquei.
— Como assim?
— Corajosa.
Meu rosto esquentou.
— Estou apavorada.
— Eu sei.
— Então pare de agir como se tudo estivesse bem.
O sorriso desapareceu.
A expressão dele tornou-se séria.
Pesada.
Antiga.
— Porque não está.
Aquilo me surpreendeu.
Pela primeira vez, ele parecia tão preocupado quanto eu.
— O que não está me contando?
Kael desviou o olhar.
E aquilo foi suficiente para me assustar.
Um homem como ele não parecia alguém que evitasse responder perguntas.
— Kael.
Ele voltou a me encarar.
— Existe uma razão para a profecia ter despertado.
— Qual?
Seu olhar escureceu.
— Algo está vindo.
O vento soprou ao nosso redor.
As flores negras balançaram.
E um arrepio percorreu minha espinha.
— O quê?
— Eu ainda não sei.
Mas ele sabia mais do que estava dizendo.
Eu podia sentir.
Antes que pudesse insistir, o jardim começou a desaparecer.
As flores.
As estrelas.
A árvore dourada.
Tudo começou a se desfazer.
— Espere!
Corri na direção dele.
Instintivamente.
Sem pensar.
Sem perceber.
Kael segurou minha mão.
E, no instante em que nossos dedos se tocaram, uma corrente de energia atravessou meu corpo.
Meu coração disparou.
O dele também.
Eu senti.
Senti como se nossos corações estivessem ligados por algo invisível.
Algo poderoso.
Algo impossível.
Os olhos dele se arregalaram.
Como se tivesse sentido a mesma coisa.
Então o mundo desapareceu.
Acordei sentada na cama.
Ofegante.
O quarto estava escuro.
Meu coração batia tão forte que parecia querer escapar do peito.
Olhei imediatamente para minha mão.
A mesma mão que havia tocado a dele.
E congelei.
Porque uma nova raiz n***a havia surgido em meu pulso.
Mais uma marca.
Mais uma prova.
Aquilo não tinha sido um sonho.
E, pela primeira vez desde que a flor me escolheu, compreendi uma verdade aterrorizante.
Eu estava ligada ao Rei das Sombras.
De uma forma que nem mesmo a magia parecia capaz de explicar.