Os dias transcorreram tediosos dentro daquela casa. Nas poucas vezes em que ousei sair do quarto, Vanessa fez questão de me incomodar e pela primeira vez, desejei nunca ter retornado para esse inferno.
Estava habituada à presença constante do Fumaça e nem isso eu possuía mais. Pois, nesta casa, os soldados só são permitidos fora dela.
A cada instante, sentia-me sufocada, como se a qualquer momento pudesse enlouquecer.
Decido sair do meu quarto, mesmo ciente de que isso provavelmente resultará em uma briga ao primeiro passo que der para fora dele. Mas, tenho percebido que ficar confinada não contribuirá para minha sanidade.
Ao abrir a porta do quarto, deparo-me com Vanessa, já que estou no primeiro andar. A troca de olhares é intensa.
— Ora, ora, finalmente a bela adormecida resolveu sair do quarto. — Ela diz, parando em minha frente.
— Me esquece, Vanessa, vai cuidar da sua vida. Não sou suas filhas. — Grito para ela. — Aliás, não esquece que você não é um exemplo nem mesmo para elas.
— É fácil falar das minhas filhas, né? Sua escrota! Mas, não se esqueça que foi a sua mãe que deu para um homem casado. — Retruca, provocando uma fúria contida em mim. Olho fixamente para ela e respondo:
— Não vejo a hora de revelar toda a verdade e esfregar na sua cara toda a sujeira que sei. Nesse dia sim, me sentirei vingada. Mas relaxa, eu sei esperar minha hora.
— O que acha que sabe? — Ela solta uma risada. — Para com essa pose de pobre coitada, Maitê. Isso não lhe cai bem — ironizou Vanessa.
Retiro-me, segurando-me para não deixar as lágrimas escaparem. Estou cansada demais até mesmo para isso.
Ao sair pela porta de casa, avistei Fumaça no portão, conversando com outros vapores. Seu olhar encontra o meu e a única reação que consigo ter é me jogar em seus braços, permitindo que as primeiras gotas de lágrimas molhem meu rosto.
— O que aconteceu? — Fumaça pergunta preocupado.
— O mesmo de sempre, não sei até quando eu aguento viver na mesma casa que Vanessa. — Sussurro entre soluços.
— Vem, vamos dar uma volta pelo morro. Se quiser sair daqui, também podemos ir.
Concordo com a cabeça, respondendo:
— Não, pode ser por aqui mesmo.
Subi na moto com ele e enquanto percorremos o morro, ele mostra como as coisas mudaram nos últimos quatro anos. Agora havia um parque para as crianças, campos de futebol e vôlei e até mesmo escolas, desde creches até o ensino fundamental.
Paramos para tomar um açaí.
— Por que você me olha tanto? — Pergunta, assim que nos sentamos. — Maitê, eu te conheço tempo suficiente para saber que você quer perguntar algo.
— Eu... Eu só queria saber o que aconteceu com meu padrinho e minha madrinha nesses quatro anos. — Digo, abaixando a cabeça. Percebo que ele fica em silêncio e coça a cabeça, como se não soubesse por onde começar. — Pode falar, eu juro que vou aguentar. — Digo, olhando firme para ele.
— É complicado, mas vou tentar te explicar. Eu também não estava aqui, mas fiquei sabendo por cima o que rolou.
Apenas concordo com a cabeça.
— Houve uma invasão policial, eles queriam tomar o morro, só que os "cu azul" não têm dó de ninguém, pequena. Invadiram a casa do seu padrinho e mataram sua madrinha. A filha deles sobreviveu e o filho já era sub do morro, quando viu o que aconteceu, acabou matando todos que apareciam em sua frente. Mas as balas haviam acabado e para que seu filho não fosse preso, o Morte, seu padrinho, se entregou no lugar.
Fumaça observa meu rosto, tentando captar minha reação diante da dolorosa revelação. Engulo em seco, tentando processar a trágica história que se desenrolou na minha ausência.
— Morte fez o que acreditava ser necessário para proteger o filho. A comunidade ficou dividida, algumas pessoas enxergam isso como um ato de coragem, outros como covardia. — explica Fumaça, escolhendo cuidadosamente suas palavras. — Mas hoje ele é o líder do comando e assumiu a frente do morro… e ele é bom no que faz. Fazia muitos anos que o comando não tinha um líder tão competente quanto ele.
— Você está querendo dizer que o Lorde é filho do meu padrinho? — Pergunto, confusa.
— Sim, pequena. Mas você nunca teve contato com os filhos deles, por isso você não os conhece. — Diz Fumaça e minha cabeça começa a rodar. Agora faz todo sentido a conversa que ouvi quando tinha oito anos. Respiro fundo, pois parece que vou perder a consciência com tamanha lembrança.
— Será que podemos voltar? E-eu… preciso descansar.
Ele concorda e assim que íamos subir na moto, Fumaça pede licença e vai até um vapor.
Fico olhando para o nada até que ouço a voz de umas meninas que estavam me encarando e apontando para Fumaça.
— Quem essa menina pensa que é para ficar andando com o Fumaça? — A ruiva diz.
— Provavelmente deve ser mais uma das putas que ele pega. — A outra diz.
— Ficou sabendo do baile que vai ter no morro do Lorde hoje? O bicho vai pegar, e eu não perco nada. — Elas comentam entre si.
Não consigo responder, mas uma coisa não sai da minha cabeça: se hoje tem baile, eu vou. Sei que não posso beber, mas hoje tudo o que mais preciso é de uma boa bebida. Fumaça se aproxima de mim, pedindo desculpa por ter saído. Eu o encaro com cara de cachorro pidão.
Então, falo para ele:
— Esteja trajado e venha me buscar às 23:00hs. — Ele me olha confuso.
— Para onde vamos? — Ele pergunta.
— Vamos para o baile, no morro do Lorde.
Fumaça parece surpreso com a proposta, mas logo um sorriso malicioso se desenha em seu rosto.
— Baile no morro do Lorde, hein? Parece que a noite promete. Estarei lá às 23:00hs, pode deixar.
Chego em casa sem dar chances para que Vanessa venha falar um monte de coisas para mim. Entro no meu quarto e tranco a porta.
O bom da casa do King é que no meu quarto tem banheiro e chuveiro, assim não tenho que ficar saindo e zanzando pela casa. Entro no quarto e começo a procurar a roupa que vou usar. Pego um conjunto de saia preta e cropped também preto, ambos com franjinhas extras. Deixo tudo separado, junto com um scarpin preto.
Pego o meu kit de unhas e faço uma esmaltação vermelha para dar um charme. Estou determinada a aproveitar o baile e deixar para trás as tensões do dia.
Descanso um pouco, pois lá pelas 21:30 começarei a me arrumar. A ansiedade e a empolgação misturam-se enquanto me preparo para uma noite que, mesmo que breve, promete escapar das sombras que me envolvem.