Nave espacial Theos — O superfluidoA imagem do objeto que Petri tinha colocado no espaço entre Kodon e a terra deixara os dois terrestres espantados.
– E o que é aquilo? – perguntou Elisa curiosa, enquanto se aproximava para tentar ver melhor.
– Nós ainda não temos um nome oficial. – Petri trouxe o objeto estranho de volta ao primeiro plano e, observando o médico, acrescentou:
– Talvez possa escolher um.
– Se pudesse ao menos explicar o que é, talvez eu pudesse tentar.
– Os nossos melhores cientistas estiveram dedicados a este projeto já há algum tempo. – Petri juntou as mãos atrás das costas e começou a caminhar lentamente pela sala. – Este equipamento é o resultado de uma série de estudos que, em parte, vão além das minhas habilidades científicas.
– E posso garantir que são notáveis. – acrescentou Azakis, dando uma pancadinha carinhosa nas costas do amigo.
– Em suma, é uma espécie de sistema antigravidade. É baseado num princípio que, como eu disse, ainda está a ser estudado, mas que eu posso tentar resumir em poucas palavras simples.
– Acho que seria muito melhor. – comentou Elisa. – Não se esqueça que pertencemos a uma espécie que, comparada à sua, poderia facilmente ser definida como subdesenvolvida.
Petri assentiu com a cabeça ligeiramente. Então ele se aproximou da representação tridimensional do objeto estranho e calmamente continuou a sua explicação.
– Isso – o que você chamou de 'donut' antes – é geometricamente definido como um toroide. O anel tubular é oco, enquanto o que poderíamos chamar de "buraco central" contém o sistema de propulsão e controlo.
– Até aqui está tudo claro. – disse Elisa, cada vez mais animada.
– Muito bem. Agora vamos ver o princípio de funcionamento do sistema. – Petri girou a imagem do toroide e mostrou a sua seção interna.
– O anel é preenchido com um gás, geralmente um isótopo de hélio que, arrefecido a uma temperatura próxima do zero absoluto, muda de estado e se transforma num líquido com características muito particulares. Na prática, a sua viscosidade torna-se quase nula e pode fluir sem gerar atrito. Nós chamamos essa característica de "superfluidez".
– Agora estou a ficar um pouco perdida. – disse Elisa com tristeza.
– Simplificando, este gás no seu estado líquido, apropriadamente estimulado pela estrutura do anel, será capaz de viajar dentro dele, sem qualquer dificuldade, a uma velocidade próxima à velocidade da luz, e conseguir mantê-lo por um tempo infinito.
– Incrível. – era tudo o que j**k conseguia comentar, que não perdeu sequer uma sílaba de toda a explicação.
– Ok, agora acho que entendi. – acrescentou Elisa. – Mas como este dispositivo vai neutralizar os efeitos da atração gravitacional entre os dois planetas?
– É aí que as coisas se tornam muito mais complicadas. – respondeu Petri. – Digamos que a rotação do superfluido a velocidades próximas da luz, gera um continuum espácio-temporal em curvatura em torno dele, causando um efeito antigravidade.
– Meu Deus. – exclamou Elisa. – O meu antigo professor de física estará a andar às voltas no seu túmulo.
–E não só ele, minha querida. – acrescentou o Coronel. – Se eu entendi corretamente o que esses dois senhores estão a tentar explicar, aqui estamos a falar de derrubar muitas teorias e conceitos que vários dos nossos cientistas passaram a vida inteira tentando analisar e estudar. O princípio da antigravidade já foi teorizado mais de uma vez, mas ninguém jamais foi capaz de prová-lo completamente. Agora finalmente temos a prova, aqui diante de nós – e ele apontou para o estranho objeto – que é realmente possível.
– Eu seria um pouco mais cauteloso –disse Azakis, amortecendo um pouco a excitação do Coronel. – Sinto-me obrigado a informar que essa coisa nunca foi testada em objetos grandes como planetas, ou melhor, tentamos há dois ciclos, mas não foi exatamente como esperávamos. Além disso, podem ocorrer eventos que não previmos e ...
– Lá estás tu, a trazer azar como sempre. – disse Petri interrompendo o seu companheiro. – O mecanismo foi demonstrado mais de uma vez. A nossa própria nave espacial usa parte desse princípio para a sua propulsão. Vamos ser otimistas por uma vez!
– Porque realmente não parece haver muitas alternativas, ou estou enganada? – perguntou Elisa numa voz desapontada.
– Infelizmente, acho que não. – disse Petri desconsolado, com a cabeça ligeiramente baixa. – Na verdade, a única coisa que eu realmente temo é que, dado o tamanho reduzido do nosso toroide, nós não seremos capazes de absorver completamente todos os efeitos da força gravitacional e uma parte dos gravitões conseguirão fazer o seu trabalho todo o tempo mesmo.
– Estás a dizer que essa coisa pode não ser suficiente para evitar uma catástrofe em qualquer caso? – perguntou Elisa aproximando-se do extraterrestre ameaçadoramente.
– Talvez não completamente. – respondeu Petri dando um pequeno passo para trás. – Com os meus próprios cálculos, eu diria que cerca de dez por cento dos gravitões poderia escapar desse tipo de truque.
– Então, tudo isso poderia ser um esforço em vão?
– De jeito nenhum. – respondeu Petri. –Vamos reduzir os efeitos em noventa por cento. Restará muito pouco para nós conseguirmos.
– Vamos chamá-lo "Newark". – disse Elisa satisfeita – Agora devíamos despachar-nos. Sete dias passam rapidamente.