Capítulo 1 — O herdeiro acusado
O salão principal do Lancaster Crown brilhava como se a cidade inteira tivesse sido construída para refletir aquela noite. Sob os lustres de cristal, empresários, ministros, jornalistas e herdeiros de sobrenomes antigos erguiam taças diante das câmeras. O gala anual da Fundação Lancaster celebrava bolsas de estudo, hospitais e projetos sociais. Adrian sabia que, no dia seguinte, as fotografias celebrariam sobretudo o dinheiro.
Ele permanecia perto do palco com o sorriso exato que aprendera a oferecer aos fotógrafos: confiante o bastante para tranquilizar os acionistas, distante o bastante para não convidar perguntas pessoais. O paletó escuro escondia a tensão em seus ombros. Não escondia, porém, a vontade de estar em qualquer outro lugar.
— Você parece prestes a demitir metade dos convidados — murmurou Evelyn Cross, aproximando-se sem tirar os olhos das câmeras.
O vestido prateado e a postura impecável faziam dela uma extensão natural da campanha de imagem da família. Diretora de comunicação do grupo, Evelyn sabia transformar silêncios em manchetes favoráveis.
— Só metade?
— Não brinque assim perto de um microfone.
Adrian pegou uma taça da bandeja de um garçom, mas não bebeu. Do outro lado do salão, Eleanor Lancaster conversava com o prefeito como se presidisse uma reunião de conselho. Aos setenta e seis anos, a avó parecia mais firme do que quase todos os homens que tentavam impressioná-la. Richard, irmão de seu falecido pai, mantinha-se a poucos passos dela, gentil e atento. A imagem da família perfeita estava completa.
O telefone de Adrian vibrou no bolso.
Ele ignorou o primeiro aviso. Naquela noite, todos queriam alguma coisa dele: uma fotografia, um investimento, um comentário sobre a próxima eleição do conselho. Quando o aparelho vibrou de novo, tirou-o do bolso apenas para silenciá-lo.
O nome na tela mudou tudo.
Naomi Reed.
A auditora interna não atendia às ligações dele havia quatro dias. Na semana anterior, pedira acesso reservado a relatórios de três subsidiárias e dissera ter encontrado uma divergência que não podia ser discutida por e-mail. Adrian autorizara o acesso. Desde então, recebera apenas respostas vagas.
A mensagem dizia: ARQUIVO OESTE. AGORA. VENHA SOZINHO. SE VOCÊ NÃO VIER, ENTREGAREI TUDO AO CONSELHO E DIREI O QUE VOCÊ FEZ.
Adrian leu duas vezes. A última frase não fazia sentido.
— Algum problema? — perguntou Evelyn.
Ele apagou a tela.
— Trabalho.
— Hoje não existe trabalho. Existe percepção pública.
— Para você, talvez sejam a mesma coisa.
Antes que ela respondesse, Eleanor fez um gesto discreto, chamando-o para o grupo ao lado do palco. Adrian guardou o telefone e atravessou o salão. Cumprimentou o prefeito, ouviu um comentário sobre a semelhança com o pai e suportou a mão de Richard em seu ombro.
— Alexander odiava esses eventos tanto quanto você — disse o tio, com um sorriso nostálgico. — Mas sabia cumprir o dever.
— Adrian também sabe — afirmou Eleanor. A frase soou como defesa e ordem ao mesmo tempo. — Dentro de cinco minutos, ele anunciará a nova ala do hospital.
Adrian olhou para o corredor que levava à parte administrativa do hotel. Cinco minutos. Naomi não escolheria aquela noite nem aquele tom sem motivo.
— Evelyn pode iniciar o vídeo. Eu volto antes do anúncio.
O olhar de Eleanor endureceu.
— Adrian.
— É urgente.
Richard retirou a mão de seu ombro.
— Se for sobre a auditoria, posso cuidar disso. Afinal, as finanças ainda passam pela minha mesa.
Adrian sustentou o olhar do tio por um segundo.
— Por isso mesmo, eu cuido.
Ele se afastou antes que a frase produzisse outra discussão. Atrás dele, a música aumentou e Evelyn anunciou o vídeo institucional. Os convidados voltaram a atenção para os telões. Adrian atravessou uma porta lateral, deixando para trás o brilho, o perfume caro e o rumor das conversas.
O corredor administrativo estava quase vazio. A iluminação branca tornava o carpete cinza e as paredes de vidro estranhamente frios depois do dourado do salão. Dois seguranças uniformizados guardavam o acesso aos elevadores. Reconheceram Adrian e abriram passagem sem perguntas.
— Alguém veio por aqui? — ele perguntou.
Um deles consultou o colega.
— Funcionários do evento, senhor Lancaster. Nada fora do comum.
Adrian seguiu para a ala oeste. O Arquivo Oeste era um conjunto de salas usado para guardar contratos antigos, atas e documentos que ainda não haviam sido digitalizados. Durante o gala, aquela área deveria estar trancada.
A porta corta-fogo estava entreaberta.
Ele parou. O som distante do vídeo da fundação atravessava as paredes como uma voz submersa. Mais adiante, uma mulher usando o uniforme preto da equipe do evento empurrava um carrinho de apoio. Ao vê-lo, abaixou a cabeça depressa e entrou numa passagem de serviço.
— Naomi? — chamou Adrian.
Nenhuma resposta.
Empurrou a porta. O corredor interno permanecia na penumbra, iluminado apenas pelas luzes de emergência. Uma das salas exibia uma faixa estreita de claridade sob a porta. Adrian caminhou até lá, sentindo o desconforto se transformar em alerta.
— Naomi, sou eu.
A porta cedeu ao primeiro toque.
A auditora estava caída entre a mesa e um armário de aço. Uma pasta aberta jazia perto de sua mão; folhas espalhavam-se pelo chão. O cabelo castanho cobria parte do rosto, e um dos saltos havia se soltado. Por um instante, Adrian ficou imóvel, incapaz de encaixar aquela imagem na mulher precisa que corrigia até os erros de pontuação dos relatórios.
Então se ajoelhou.
— Naomi?
Tocou o pulso dela. Nada. Tentou encontrar respiração, chamou seu nome de novo e percebeu uma mancha escura na lateral do vestido. Não havia tempo para compreender. Pegou o telefone.
— Emergência médica no Arquivo Oeste, terceiro andar — disse assim que a central do hotel atendeu. — Mandem alguém agora. E chamem a polícia.
Um ruído atrás dele o fez virar.
Owen Mercer, chefe de segurança da família, apareceu à porta com dois agentes. Alto, grisalho e normalmente impassível, ele examinou a sala em um único movimento.
— Senhor Lancaster, afaste-se dela.
— Chame uma ambulância.
— Já chamamos. Levante devagar.
Adrian olhou para as próprias mãos. Uma marca avermelhada atravessava dois dedos. Ele se levantou, tentando não pisar nos papéis.
— Ela me mandou uma mensagem.
Owen manteve o rosto neutro.
— Não toque em mais nada.
Passos se multiplicaram no corredor. A equipe médica chegou primeiro e, após uma verificação breve, pediu espaço. Adrian recuou até a parede. Sabia o que significava a maneira como trabalhavam: sem pressa, sem a urgência destinada a quem ainda podia ser salvo.
Minutos depois, policiais isolaram a entrada. As portas que separavam o gala da ala administrativa foram fechadas, mas a notícia encontrou uma saída antes de qualquer pessoa. O telefone de Owen começou a vibrar. O de Adrian também. Evelyn ligou três vezes. Eleanor, duas.
Ele não atendeu.
O delegado Marcus Hale entrou na sala usando um terno amarrotado sob o sobretudo. Tinha o rosto largo, olhos pequenos e o costume de observar as pessoas como se já soubesse o que escondiam. Mostrou a identificação e pediu que todos se afastassem.
— Adrian Lancaster?
— Sim.
— Quero que me diga por que estava aqui.
— Naomi pediu que eu viesse.
— A vítima?
A palavra atingiu Adrian com uma frieza inesperada.
— Naomi Reed. Auditora do grupo.
Marcus estendeu a mão.
— Seu telefone.
— Com um mandado.
— Podemos fazer isso do modo demorado. Enquanto esperamos, ninguém sai do hotel e seus convidados descobrem por conta própria por que a festa acabou. Ou o senhor pode colaborar.
Adrian viu dois técnicos fotografando a sala, a pasta vazia, as folhas no chão. Havia câmeras no corredor. Testemunhas. Uma mensagem enviada por Naomi. Nada daquilo deveria colocá-lo em risco.
Desbloqueou o aparelho e o entregou.
Marcus encontrou a conversa rapidamente. Leu em silêncio e ergueu os olhos ao chegar à última frase.
— O que ela pretendia contar ao conselho?
— Eu não sei.
— E o que o senhor fez?
— Também não sei a que ela se referia.
— Conveniente.
— É a verdade.
O delegado entregou o telefone a uma perita e saiu para falar com a equipe de segurança. Adrian permaneceu sob vigilância, separado da sala onde Naomi estava. Do outro lado das portas, vozes e passos anunciavam o colapso do evento.
Eleanor surgiu no corredor acompanhada por Richard e Evelyn. Owen tentou impedi-los de avançar, mas a matriarca passou por ele sem reduzir o ritmo.
— Onde está meu neto?
Adrian deu um passo na direção dela. Um policial bloqueou seu caminho.
— Estou bem.
— Isso não é o que parece — disse Eleanor a Marcus. — Seja lá o que tenha acontecido, Adrian encontrou essa mulher. Ele não a atacou.
Marcus voltou segurando um tablet fornecido pela segurança.
— Temos imagens do corredor interno — informou. — A câmera mostra o senhor Lancaster entrando às vinte e duas horas e treze minutos. Ninguém mais entra ou sai até a chegada do senhor Mercer, às vinte e duas e dezenove.
Adrian encarou a tela. O vídeo mostrava a porta corta-fogo, depois sua própria figura caminhando para o arquivo. O horário brilhava no canto. Nos seis minutos seguintes, o corredor ficava vazio.
— Há outra entrada — disse ele.
Owen balançou a cabeça.
— A passagem de serviço termina antes desse corredor. As janelas são seladas.
— Eu vi uma funcionária perto da porta.
— Do lado de fora da área coberta por essa câmera — respondeu Marcus. — Não dentro dela.
Evelyn observava tudo em silêncio, pálida, já digitando no telefone. Richard colocou-se ao lado da mãe.
— Delegado, nossa equipe jurídica está a caminho. Até lá, sugiro que tenha muito cuidado com suas conclusões.
— Ainda não apresentei nenhuma conclusão.
Mas seus homens se aproximaram de Adrian.
Um deles informou que precisaria recolher o paletó para exame. Outro mostrou um saco transparente contendo um peso de papel de metal, encontrado sob a mesa. Adrian não o reconheceu. Viu, contudo, a mancha escura em uma das bordas e compreendeu a história que aqueles objetos contariam sem ele.
— Senhor Lancaster — disse Marcus —, o senhor será conduzido para prestar depoimento.
— Como testemunha?
O delegado não respondeu de imediato.
— Há indícios suficientes para tratá-lo como suspeito.
Eleanor perdeu a cor, mas não a postura.
— Ele não vai a lugar algum sem advogado.
— O advogado pode encontrá-lo na delegacia.
Quando um policial segurou seu braço, Adrian sentiu o salão inteiro do outro lado das paredes: centenas de convidados, dezenas de câmeras, uma família construída sobre a certeza de que podia controlar qualquer narrativa. Em poucos minutos, seu sobrenome deixaria de ser um escudo e se tornaria parte da acusação.
Levaram-no pelo corredor de serviço para evitar a imprensa. Ao passarem perto dos elevadores, Adrian reconheceu a mulher do uniforme preto. Ela estava encostada junto a uma porta, as mãos apertadas contra o avental. Tinha os olhos fixos nele.
— Espere — disse Adrian.
O policial continuou puxando-o, mas a mulher se aproximou num impulso. Olhou para Marcus, para Owen e para as câmeras no teto. Quando falou, sua voz foi tão baixa que Adrian precisou inclinar a cabeça.
— Eu vi outra pessoa.
— Quem? — ele perguntou.
Ela engoliu em seco.
— Um homem. No corredor, antes de o senhor chegar. Ele saiu pela passagem de serviço.
Marcus se voltou para ela.
— Qual é o seu nome?
A mulher recuou.
— Eu não posso...
— Você vai prestar depoimento — disse o delegado, apontando para uma policial. — Leve-a para uma sala reservada e peça os dados dela.
Adrian tentou guardar o rosto da testemunha enquanto era conduzido ao elevador. As portas se fecharam entre eles. Pela primeira vez desde que encontrara Naomi, uma fresta se abriu na lógica perfeita da acusação.
No térreo, a saída de serviço já estava cercada. Luzes de câmeras cortaram a noite assim que Adrian apareceu. Perguntas foram gritadas por cima umas das outras. Ele manteve a cabeça erguida, embora as algemas, aplicadas longe dos convidados, pesassem mais do que o metal permitia.
Antes de entrar no carro, viu Marcus receber uma ligação. O delegado franziu a testa e olhou para o prédio.
— Como assim, não está lá? — perguntou.
Adrian parou.
Marcus ouviu por alguns segundos, depois desligou.
— A mulher — disse Adrian. — O que aconteceu com ela?
O delegado abriu a porta do veículo.
— Ela desapareceu antes de informar o nome.
— Então procure por ela.
— Entre no carro, senhor Lancaster.
Adrian olhou para as janelas iluminadas do hotel. Em algum ponto acima, Naomi permanecia cercada pelas provas de uma história montada para parecer simples. E a única pessoa que vira uma rachadura naquela história acabara de sumir.