Johnny e TharanisAtualizado em Mar 31, 2026, 05:28
Prólogo — O Sangue e a PromessaA noite sempre soube o nome dela antes mesmo que o mundo aprendesse a pronunciá-lo.Tharanis.O som era suave. Delicado. Como tudo nela parecia ser.Mas havia algo mais.Algo que a escuridão reconhecia — e respeitava.A chuva caía fina naquela noite na Itália. As ruas estreitas refletiam luzes douradas, distorcidas pelo asfalto molhado. Dentro do carro, o silêncio era confortável. Seus pais falavam baixo, como se o mundo não precisasse ouvir o amor deles.No banco de trás, Tharanis — ainda humana — observava as gotas escorrerem pela janela.Ela não sabia.Nenhum deles sabia.Mas havia olhos sobre o carro.Olhos antigos.Famintos.E outros… que tentavam proteger.Johnny estava nas sombras.Alto. Imóvel. Imponente como uma estátua esculpida pela própria noite. Sua pele escura contrastava com as tranças brancas que caíam sobre os ombros, como fios de lua aprisionados. Seus olhos acompanhavam o carro com precisão quase dolorosa.Ele já estava ali há anos.Sempre distante.Sempre invisível.Sempre protegendo.— Ainda não… — murmurou para si mesmo, como se pudesse convencer o destino a recuar.Mas o destino não recua.Ele ataca.O impacto veio como um trovão rasgando o mundo.Metal contra metal.Vidro explodindo.Um grito que não terminou.O carro girou, esmagado contra a lateral da estrada. O silêncio que se seguiu foi grotesco. Errado.Johnny já estava em movimento antes mesmo do som desaparecer.Rápido demais para ser visto.Rápido demais para ser impedido.Mas ele não era o único.Salem chegou primeiro.Como um sussurro entre os destroços.Elegante. Frio. Sorrindo.— Finalmente — disse, ajoelhando-se ao lado do carro destruído.Tharanis ainda respirava.Fraca.Quase inexistente.Mas viva.Sempre viva demais.Johnny surgiu atrás dele como uma tempestade contida.— Não toque nela.A voz não era alta.Mas carregava morte.Salem não se virou de imediato. Passou os dedos pelo rosto ensanguentado da garota com uma delicadeza perturbadora.— Você demorou — respondeu, quase entediado. — Eu a quis por anos… você a observou. Existe uma diferença cruel entre nós, Johnny.Então ele sorriu.— Eu ajo.Johnny avançou.Rápido.Violento.Mas Salem… já havia decidido.Os olhos de Tharanis se abriram por um segundo.Verdes.Ainda humanos.Ainda puros.Encontraram os de Johnny.E, por um instante impossível, ela pareceu reconhecê-lo.Como se, em algum lugar dentro dela… sempre soubesse.Então Salem mordeu.O tempo quebrou.Johnny o atravessou com um golpe brutal, jogando Salem contra o que restava do carro. O impacto fez o metal ceder ainda mais, retorcendo-se como papel.Mas já era tarde.Tarde demais.O sangue de Salem já corria nas veias dela.A transformação havia começado.— Você a condenou — Johnny rosnou, a voz agora carregada de algo mais perigoso que raiva.Dor.Salem se levantou lentamente, limpando o sangue do próprio lábio com o polegar.— Eu a libertei.Seus olhos brilharam.— Agora ela pertence à eternidade… e a mim.Johnny não respondeu.Porque sabia.Sabia que, naquele momento…Se matasse Salem…Ela morreria junto.Então ele fez o único movimento que jamais havia feito em séculos.Recuou.A chuva continuava caindo quando ele a tirou dos destroços.Cuidadosamente.Como se ela ainda fosse frágil.Como se ainda fosse humana.Mesmo com o coração já desacelerando… mudando… renascendo em algo novo.— Eu falhei com você… — murmurou, quase inaudível.Mas seus olhos…Prometeram algo diferente.Algo pior.Algo inevitável.E naquela noite…Tharanis morreu.Para que algo muito mais perigoso pudesse nascer.E Johnny…Parou de apenas observar.