a crise dos meninos (2)

1222 Palavras
Algumas horas depois, Carla e Marcos chegaram caminhando pela areia, de mãos dadas, bronzeados e sorridentes. Carla, com os cabelos presos num coque bagunçado e um biquíni branco estiloso, avistou o grupo reunido e acenou animada: — Bom dia, galera! Os meninos olharam para ela com as caras mais fechadas do universo. Leandro nem respondeu. Caio bufou alto. João deu um sorrisinho sarcástico e Otávio sequer moveu um músculo do rosto. — Era bom. — murmurou João, seco. Carla olhou para Marcos e depois para os meninos, percebendo o clima carregado. — Ihh… já deu r**m, né? — disse, com um riso nervoso. — Só faltava você, né, Carla? — disparou Otávio, se levantando da cadeira. — Se tivesse dormido fora também, ia sair de manhã sem falar com ninguém e deixar um pedaço de papel escroto dizendo "estamos na praia"? — Ah pronto… — disse João, levantando também. — Mais uma e era o combo completo da falta de noção. — Puts… deu r**m mesmo. — disse Marcos, tentando conter um riso desconfortável. Carla soltou a mão dele e disse: — Ihh, tô fora! Vou me unir às minhas amigas. Pelo visto, elas estão mais leves que vocês. — deu um beijo leve em Marcos e correu para o mar, juntando-se às meninas. Marcos se sentou com os caras, que estavam praticamente tremendo de raiva. — Mano, elas fizeram errado. De verdade. Se a Carla tivesse feito isso comigo, eu também ia ficar bolado. — disse ele, tentando amenizar. — Bolado? — explodiu João. — Mano, a gente tá puto! É diferente! — Tu não ouviu o que rolou aqui, parceiro. — rosnou Leandro, o maxilar travado. — Passou um grupo de surfistas na nossa frente, cantando elas. Um monte de merda nojenta, falando tudo o que queriam fazer com elas. A primeira vez elas nem ouviram… Mas a segunda… a segunda, elas ouviram. — E riram! — completou Caio, se levantando de novo. — p***a, cara! Elas ouviram e riram! — Otávio tava quase subindo no pescoço de um dos caras, mano. — disse João, com os olhos ardendo. — É muita cachorrada, velho. — Se fosse a gente, se fossem umas mulheres dizendo que iam "montar" em nós, elas iam surtar, fazer escândalo, sumir da praia! — gritou Otávio, fora de si. — Mas a gente aqui? A gente tem que respirar fundo e ficar quieto porque é "praia pública"? Marcos ergueu as mãos, tentando conter a tempestade. — Calma, pô! Eu entendo vocês. Entendo mesmo. Mas olha, pensa bem… elas não fizeram por m*l. A praia é aqui do lado. Não é como se elas tivessem sumido de carro pra outro canto. Vieram curtir o dia, só isso. — Mano, tu não tava aqui. — disse Leandro, com os olhos vermelhos de raiva. — Tu não viu a Isadora jogando o cabelo e rindo. Tu não viu a Renata levantando da água como se estivesse num comercial. Os caras babando! E a gente ali! Sentado! Que nem o****o! — Otávio quase espumou, velho. — emendou Caio. — E o pior é que a Kelly ainda teve a cara de p*u de dizer que deixou "um aviso". Um papel ridículo no quarto! Um papel, mano! Isso é aviso? — Não é. — murmurou João, passando a mão no rosto. — Isso é provocação. E se acham que a gente vai fingir que tá tudo bem, tão muito enganadas. Marcos suspirou fundo. — Mas e aí? Vocês vão estragar o resto da viagem por causa disso? Perder a noite que vocês poderiam ter hoje? Eles se entreolharam. Nenhum deles respondeu de imediato. Mas a raiva ali, misturada com o ciúme, ainda estava longe de baixar. — Isso não vai ficar assim. — murmurou Otávio, com a voz firme e baixa. — Não vai. — Elas que se preparem. — completou Leandro. — Porque agora, quem vai deixar elas nervosas somos nós. E os quatro ficaram ali, sentados, os olhos fixos nas meninas no mar… enquanto o sangue fervia por dentro. Carla mergulhou no mar com um sorriso no rosto e nadou até as amigas. Quando chegou perto, abriu os braços e as envolveu num abraço rápido, rindo com nervosismo: — Meninas, pelo amor de Deus... os meninos estão PUTOS! Putos de verdade! Falando horrores lá na areia. Eu saí de perto e vim pra cá, porque o clima ficou insuportável. Isadora revirou os olhos, cruzando os braços dentro da água. — Amiga… o pior de tudo… — começou ela. — É que passou um grupo de surfistas na nossa frente. Cantaram a gente descaradamente. Disseram que a gente era mulher de outro mundo, que éramos lindas demais, que casariam com todas nós. E aí… — Sem querer eu ri. — interrompeu Luísa, levantando a mão como se confessasse um crime. — Juro por Deus, Carla. Sem querer! Foi automático, sabe? Eu fiquei sem reação. E ri de novo agora, olha só! — ela riu outra vez, tentando conter. — Mas eu não ri por m*l. Eu só… não esperava aquilo. Foi engraçado, meio absurdo. Sei lá. — Só que o problema, né… — completou Luísa, mais séria agora — é que a gente tava caminhando na frente deles. Então eles devem estar surtando, achando que a gente deu a******a, que a gente ficou se exibindo… — Ai, sinceramente… — disse Renata, mergulhando até a boca e voltando à tona com o olhar fechado. — Eu devia ter deixado um papel pro João também. Melhor nem ter deixado p***a nenhuma! Eles que lute. Carla suspirou e balançou a cabeça: — Meninas… se eu não tivesse dormido na casa do Marcos, eu estaria aqui com vocês. Tranquila. Curtindo. E agora ele seria só mais um revoltado no bando dos ciumentos. — E a gente veio andando, né? — disse Isadora, indignada. — Nem o carro a gente pegou! — Pois é! — reforçou Kelly. — A gente podia ter pegado o carro, podia ter ido pra outra praia, se quisesse aprontar. Mas não! A gente desceu andando, caminhando, tranquilas. Só pra curtir o dia. — Exatamente! — disse Renata. — A gente veio na nossa paz, pra tomar sol, pra se refrescar, pra dar risada, pra viver o verão. E aí… eles chegam, armando o circo todo! — E a gente ainda tentou conversar. Dissemos que não tinha motivo pra tanto show. Mas se eles querem ficar surtando, gritando, quebrando o p*u por nada, o problema é deles! — disse Isadora, cruzando os braços de novo. — Por isso a gente voltou pra água. — disse Carla. — Aqui tá melhor. E sinceramente? Se eles não se acalmarem, a gente passa o dia aqui mesmo. Kelly ergueu uma sobrancelha e soltou: — Eu não vou ficar perto do Otávio enquanto ele estiver daquele jeito. Sério. Um trator com raiva. Eu hein. Não nasci pra isso. As meninas se entreolharam, respiraram fundo… e começaram a rir entre si. — Homem é um bicho engraçado, né? — disse Renata. — Quer exclusividade, mas surta com liberdade. — E ainda acham que a gente tem que pedir bênção pra vir pra praia. — disse Luísa, sarcástica. — Estamos namorando, não presas. E, com isso, elas mergulharam novamente no mar, decididas a aproveitar o dia — com ou sem a fúria dos seus homens na areia.
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