A máscara da Amanda

1885 Palavras
Após uma manhã carregada de paixão e entrega, Otávio e Kelly ainda estavam com os corpos aquecidos pelo desejo vivido minutos antes. Tomaram um banho juntos, com beijos calmos e promessas mudas entre toques suaves. Ele secava os cabelos dela enquanto ela sorria com o coração aquecido. E então, prontos e determinados, seguiram juntos para a escola. Ao chegarem, o clima no pátio era de agitação. Os grupos se organizavam apressadamente, murmurando nervosismos e finalizando anotações. Amanda e Gabriel estavam pálidos, quase tremendo. Assim que viram Kelly e Otávio, correram até eles com um olhar de quem implorava por salvação. — Amigos… muito obrigada — Amanda disse, ofegante, com as mãos frias. Kelly não respondeu de imediato. Apenas tirou um pequeno pedaço de papel dobrado da mochila e o entregou nas mãos dela com firmeza. — Por favor, prestem atenção no que a gente vai falar. você sabem que terão perguntas e eu não posso salvar nisso... Gabriel assentiu em silêncio. Amanda engoliu seco. E foi assim que o grupo deles subiu para apresentar. As luzes da sala foram suavizadas. Os olhares estavam voltados para a frente. Quando o grupo de Otávio e Kelly começou, um silêncio respeitoso se fez. Otávio iniciou a apresentação com firmeza, sua voz era segura, pausada, envolvente. Ele trouxe os primeiros conceitos com clareza, apontou dados e contextualizou tudo de maneira madura. A sala prestava atenção. Então, foi a vez de Kelly. Com a postura ereta e o olhar confiante, ela tomou a palavra. E a cada frase que saia dos seus lábios, mais os alunos e professores mergulhavam na apresentação. Seu tom de voz era doce, mas firme. Explicava com paixão, com domínio, com um brilho no olhar que cativava. Até a diretora, que observava em silêncio na fileira de trás, se inclinou na cadeira, interessada. Kelly falou sobre biodiversidade com profundidade e entusiasmo. Trouxe reflexões, causas, impactos. Mostrou gráficos, provocou pensamento crítico. Quando terminou, um silêncio de admiração tomou a sala — como se todos estivessem digerindo o que haviam acabado de ouvir. A diretora, então, se levantou com um sorriso orgulhoso no rosto: — Kelly… você é um prodígio. Eu fico verdadeiramente impressionada com o tamanho da sua inteligência. Sua fala me fez pensar a semana inteira. Sua tese tem profundidade, clareza e paixão. E você também, Otávio. Vocês formam uma dupla de excelência. Explicaram com serenidade e domínio absoluto. Estão de parabéns. A sala explodiu em aplausos. Kelly olhou para Otávio, e ele segurou sua mão com força e orgulho. O silêncio na sala ainda pairava como névoa após a impactante apresentação de Kelly e Otávio. Os olhos da diretora estavam brilhando com admiração… até que ela virou o olhar, agora mais afiado, em direção a Amanda e Gabriel. Com um sorriso carregado de ironia, ela cruzou os braços e disparou com voz firme: — Bom… deixa eu fazer uma perguntinha simples pra vocês dois — disse, mirando Amanda e Gabriel como quem já sabia a resposta. — Qual é a teoria da biodiversidade que a Kelly acabou de explicar com maestria? Amanda arregalou os olhos, engoliu em seco, trocou um olhar desesperado com Gabriel. Ela então tossiu nervosa, e com a voz trêmula, arriscou uma resposta vaga, atropelada, sem profundidade. A diretora arqueou uma sobrancelha, e um sorrisinho sarcástico brotou em seu rosto: — Exatamente como eu previa… Ela virou-se para a turma e anunciou com ares de sentença: — Dez pontos para a Kelly. Dez pontos para o Otávio. Já vocês dois, Amanda e Gabriel… apenas cinco pontos. Porque está bem claro que vocês apenas surfaram na onda do esforço deles. E eu não premio oportunismo. Eu premio mérito. Amanda baixou a cabeça, vermelha de vergonha. Gabriel bufou, cruzou os braços. A professora de biologia então se adiantou e, com mais suavidade, tentou amenizar o clima: — Bom, turma… no geral, todos se saíram muito bem. Estão todos de parabéns. Mas ainda temos muito pela frente. A prova final está logo ali. Aproveitem pra estudar, se dedicar de verdade. Ela deu um leve sorriso e completou: — Agora podem sair. Amanda, você fica. Os alunos começaram a sair da sala em meio a murmúrios. Kelly e Otávio saíram lado a lado, ainda sentindo o calor da vitória. Mas antes de cruzarem a porta, Gabriel se virou para eles com uma expressão amarga. — Pô… a diretora pegou pesado com a gente, não precisava disso tudo, né? Kelly parou por um segundo, olhou diretamente nos olhos dele, e respondeu com firmeza, sem perder a elegância: — O que pesa de verdade, Gabriel… é o que a gente carrega nas costas. E eu carrego esforço, estudo e verdade. Vocês carregaram desculpas. Agora aguentem o peso disso. E sem esperar resposta, ela virou-se e saiu com Otávio, deixando atrás de si um rastro de respeito… e silêncio. Enquanto os outros alunos deixavam a sala, um clima pesado se instalava. Amanda ficou parada, os ombros tensos, e a professora cruzou os braços diante dela, sem esconder a decepção no olhar. — Amanda… o que tá acontecendo com você, garota? — começou a professora, com um tom duro, quase cortante. — Você sempre foi nerd, focada, esforçada… e pegadora também, vá lá. Mas agora esqueceu de ser nerd e virou só pegadora? Amanda mordeu o lábio, sem conseguir sustentar o olhar da professora. — E olha — a professora continuou — não tenho nada a ver com a sua vida particular. Mas se continuar assim, você vai rodar feio. Você pode muito mais do que isso. Só precisa focar, tomar vergonha e sair dessa pose de vítima. — Muito obrigada, professora… — respondeu Amanda num sussurro amargo, com os olhos marejados. Ela saiu da sala cabisbaixa, e logo Gabriel correu atrás, preocupado. Kelly e Otávio estavam mais à frente no corredor quando Amanda surgiu chorando e, ao vê-los, parou, limpando as lágrimas com raiva. — O que houve? — Gabriel perguntou. Amanda, trêmula, olhou direto para Kelly. — Obrigada por ter ajudado a gente a garantir aqueles cinco pontos… agora você pode continuar sendo a queridinha perfeita, né? Kelly franziu o cenho, engoliu seco e respondeu com frieza: — Para, Amanda… você tá me culpando por eu estudar? — Eu não falei isso, Kelly! — Não precisa falar, né? — rebateu Kelly. — Tá escancarado. Seu tom, seu olhar, sua atitude. Amanda cerrou os punhos. — Ai, lá vem ela, a perfeitinha! Faz tudo certo, fala bonito, sorri pra todo mundo, tem a vida maravilhosa. Mas a minha vida não é um mar de rosas como a sua, tá? Nem todo mundo tem tempo pra estudar, pra ser exemplo… você quer atenção o tempo todo, Kelly! Precisa parar com isso e crescer! Foi nesse momento que Otávio, até então calado, deu um passo à frente com o olhar flamejante. — Qual é o seu problema, garota?! — ele rosnou, apontando o dedo. — A Kelly sempre te ajudou. Sempre! Quantas vezes ela te salvou em prova, em trabalho? Hoje mesmo ela salvou a pele de vocês! E agora você vem cuspir ingratidão como se ela fosse a errada? Amanda empalideceu, mas antes que ela respondesse, Gabriel entrou no meio, exaltado. — Ô, qual é, maluco?! Vai falar assim com a minha mina? Tu perdeu a noção, é? Ele empurrou Otávio com força no peito. Otávio recuou um passo e avançou de volta, pronto pra revidar, os olhos em chamas. — Tá me empurrando por quê, o****o?! Aprende a reconhecer quando tá errado! — PARA AGORA! — gritei, empurrando os dois com força pelo peito, ficando entre eles. Olhei pra Amanda com o coração queimando dentro do peito. A mão fechada, o maxilar travado. E a voz... saiu firme, cortante, carregada de tudo o que eu engoli por tempo demais. — Escuta aqui, sua garota! Você quer falar da minha vida? Então presta atenção, porque eu vou deixar bem claro: eu trabalho o DIA TODO, estudo de madrugada, me mato na faculdade, estudo pra concurso, ainda aguento essa escola e treino como se minha vida dependesse disso. Sabe por quê? Porque depende! Porque minha mãe quase morreu há seis meses, teve o peito aberto numa cirurgia, e sou EU que cuido dela, sou EU que sustento a casa, sou EU que pago as contas! Dei um passo à frente, meu olhar cravado no dela. A voz tremia de tanta raiva — mas eu não ia parar. — E você? Você faz o quê, Amanda? Trabalha MEIO período, chega em casa, gasta o salário com besteira, e ainda quer posar de sofredora? O seu dinheiro é só seu, você não cuida de ninguém! Você tem tempo de sobra e escolhe gastar transando com qualquer um como se o mundo fosse acabar amanhã! Você se esconde atrás de maquiagem, likes e camas alheias, mas não aguenta cinco minutos da minha rotina! Ela tentou abrir a boca, mas eu levantei a mão, mandando calar. — E o pior… o pior de tudo é que eu SEMPRE estive do seu lado. TODAS as vezes que você chorou, eu tava lá. Quando você precisava de ajuda, eu largava o que fosse pra te socorrer! Eu me ferrava pra te levantar. E agora você vem me tratar como se eu fosse menos? Como se eu fosse um incômodo? Respirei fundo, o sangue latejando nos ouvidos. — Mas sabe de uma coisa? Ainda bem! Ainda bem que você mostrou quem é de verdade. Porque agora, Amanda, eu não devo mais NADA pra você. E isso… isso me liberta! Amanda riu, debochada, com aquele sorrisinho nojento. — Você não chega nem aos meus pés, Kelly. Inclinei a cabeça, dei um sorriso gelado, venenoso, mortal. — Claro que não, né? Eu nunca fui… e NUNCA serei uma p**a igual você! Que deu pra escola toda — inclusive pros professores. Eu sempre fui nerd, gata. Mas não só isso: eu sempre fui forte. Inteligente. Corajosa. Eu nunca precisei abrir as pernas pra ser notada. Eu conquistei tudo sozinha. Enquanto você se deitava, eu estudava. Enquanto você fingia, eu fazia. Amanda congelou. E foi então que Gabriel deu um passo pra frente, irritado: — Você não vale nada, Kelly! Virei na direção dele como uma tempestade. — Eu não valho nada?! Quem não vale NADA é essa aí! E você? Você é um CORNO! E nem percebeu! A escola inteira sabe, menos você, palhaço! Foi como uma bomba. Amanda, cega de ódio, avançou pra me bater. Mas eu já esperava. Segurei o braço dela no ar com firmeza, girei o corpo e a joguei no chão com força. O baque ecoou no corredor. Ela gritou. — VOCÊ NÃO TINHA O DIREITO! Gritei de volta, com os olhos ardendo: — EU PASSEI A TER O DIREITO, AMANDA! Depois de TUDO que eu fiz! Depois de todas as vezes que eu aguentei calada, que eu me anulei, que eu me ferrei por você! E agora você me trai, me trata como lixo? ACHA QUE EU IA ENGOLIR ISSO CALADA? Ela se encolheu no chão, tremendo de raiva e vergonha. Gabriel estava paralisado, sem conseguir dizer uma palavra. O silêncio caiu como uma bomba. E foi só então que percebi… Todos estavam olhando. Os alunos. Os professores. E bem ali, parada na porta, com os olhos arregalados e a expressão chocada, estava a diretora.
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