O auditório da faculdade estava mais cheio do que o normal naquela manhã. A professora Vanessa havia avisado com antecedência que as apresentações orais de Direito Constitucional seriam abertas para outros cursos e turmas. Era uma forma de incentivar a oratória e a argumentação jurídica — e também de preparar os alunos para um futuro em que falar em público seria parte da rotina profissional.
Kelly vestia um blazer preto elegante sobre uma camisa branca, com o cabelo preso em um coque impecável e uma pasta em mãos. Seus olhos estavam calmos, mas atentos. Otávio, ao seu lado, usava camisa social azul-marinho, mangas dobradas até os cotovelos, barba feita, olhar determinado. O grupo deles — com Clara, João Pedro e Isadora — estava pronto. Tinham ensaiado a apresentação por uma semana, dominavam o tema: “Controle de Constitucionalidade e sua Efetividade na Proteção dos Direitos Fundamentais.”
Quando o nome do grupo foi anunciado, houve um leve burburinho no auditório. Muitos já esperavam um show à parte vindo daqueles dois — Kelly e Otávio estavam se tornando referência. E isso, embora gerasse admiração, também começava a provocar outro sentimento em alguns: o incômodo de serem sempre ofuscados.
Kelly foi a primeira a falar. Sua voz encheu o auditório com firmeza e elegância. Começou com uma introdução sobre o papel do Supremo Tribunal Federal e os mecanismos de controle difuso e concentrado. A cada citação doutrinária, a cada jurisprudência usada com precisão, era como se ela hipnotizasse a plateia. Tinha domínio técnico, postura confiante e uma didática que deixava tudo mais claro até para os alunos que estavam ali apenas para acompanhar.
— “O controle de constitucionalidade não é apenas um instrumento jurídico. É a espinha dorsal da nossa democracia. É nele que repousa a garantia de que nenhum ato ultrapasse os limites do Estado de Direito,” — ela concluiu, recebendo aplausos espontâneos, mesmo antes de passar a palavra.
Otávio assumiu em seguida, e não deixou por menos. Com sua voz grave e serena, abordou casos emblemáticos julgados pelo STF, fez conexões entre o controle judicial e os momentos políticos do país, e provocou reflexões com perguntas inteligentes à plateia.
— “Quando o Judiciário extrapola, há ativismo. Quando se omite, há negligência. Onde está o equilíbrio? Quem fiscaliza o fiscalizador?” — ele lançou, fazendo os alunos murmurarem entre si.
Clara, João Pedro e Isadora também brilharam, complementando com análises e slides bem elaborados, e fechando com um resumo coeso e técnico. No final da apresentação, o aplauso foi geral — inclusive da professora Vanessa, que sorria com o canto dos lábios.
— “Esse grupo demonstrou domínio, argumentação lógica e excelente oratória. Parabéns. Exemplo a ser seguido.” — disse, olhando para os demais alunos.
Enquanto voltavam aos seus lugares, os amigos os cumprimentavam sorrindo. Clara deu um leve soquinho no braço de Kelly.
— “Você nasceu pra isso, mulher. Sério. Me arrepio ouvindo você falar.”
— “E você, Otávio, só faltou subir no Supremo direto e pedir uma vaga,” brincou Isadora, fazendo todos rirem.
Mas entre os sorrisos e elogios, outros olhares eram mais frios. Alguns grupos da turma cochichavam, bufavam baixo. Um deles, mais à frente, trocava olhares carregados de inveja.
— “Ai, lá vem a queridinha da Vanessa de novo,” uma garota sussurrou, cruzando os braços.
— “Acha que é advogada já, só porque fala bonito,” completou um rapaz, contorcendo os lábios em desprezo.
Kelly ouviu parte dos murmúrios, mas não se abalou. Estava acostumada com isso desde os tempos de escola. Mas agora era diferente. Agora, os olhares que importavam estavam ao seu redor: seus amigos, sua professora, seu namorado.
Otávio, atento, percebeu o desconforto da amada, e segurou sua mão discretamente debaixo da mesa.
— “Você foi perfeita,” murmurou ao pé do ouvido. “Eles podem até tentar, mas nunca vão apagar o que você é.”
Kelly sorriu, sentindo o calor do orgulho no peito. Não importava o que falassem. O que ela tinha não era apenas inteligência — era entrega, verdade, paixão. E isso, ninguém podia fingir.
O resto da manhã transcorreu sob um clima de tensão velada e elogios contidos. Enquanto os demais grupos apresentavam seus temas — alguns visivelmente despreparados, outros apenas medianos —, Kelly e Otávio permaneceram atentos e respeitosos, mesmo percebendo os olhares desconfortáveis ao redor.
Na saída do auditório, a professora Vanessa os chamou.
— “Kelly, Otávio... posso falar com vocês dois um minutinho?”
Eles se entreolharam e se aproximaram. Os outros alunos se afastaram aos poucos, indo em direção ao pátio da faculdade. Vanessa, com um sorriso tranquilo, apoiou uma das mãos na prancheta e disse:
— “Vocês têm um talento raro. Não só dominam o conteúdo como sabem expor com clareza e segurança. Eu estou organizando uma seletiva para um projeto de extensão de debates jurídicos, e gostaria muito de ter vocês representando a turma. Pensem com carinho. Seria uma oportunidade de ouro, especialmente para quem já pensa em seguir na área constitucional.”
Kelly sentiu o coração acelerar. A proposta era tentadora. Otávio também sorriu, empolgado.
— “Vamos pensar com carinho, professora. Obrigado pela confiança,” respondeu ele, firme.
Vanessa assentiu e se despediu, deixando os dois sozinhos no corredor.
— “Você escutou isso?” — Kelly perguntou, quase sem fôlego.
— “Escutei. E tudo o que ela disse é verdade, Kelly. Você é brilhante.”
Ela sorriu, os olhos marejando.
— “Você também é. A gente está indo bem, não está?”
— “A gente está voando,” ele disse, e a puxou pela cintura, ali mesmo, num canto discreto, roubando um beijo doce e orgulhoso.
Mais tarde, naquele mesmo dia, o casal decidiu comemorar de forma mais reservada. O jantar fora foi adiado para o fim de semana, mas em casa, os dois criaram o próprio universo de comemoração.
Kelly colocou uma playlist suave para tocar enquanto Otávio preparava um vinho. A noite estava morna, com a janela aberta deixando entrar um vento leve. Sentados no sofá, conversavam sobre o futuro, sobre o projeto, sobre as possibilidades. Riam, se provocavam, se admiravam.
Quando Otávio puxou Kelly para o colo, ela se acomodou sem hesitar, os lábios encontrando os dele com naturalidade. A conversa virou sussurro, o carinho virou necessidade. Lentamente, ele a levou até o quarto, sem pressa. O corpo de Kelly era seu refúgio, sua recompensa, seu santuário.
Deitou-a com cuidado, beijando o topo da testa, os olhos, o pescoço, cada parte da sua pele que tanto conhecia. Ela suspirava, fechava os olhos, entregando-se sem medo. As mãos de Otávio percorriam suas curvas com devoção, e sua boca explorava cada centímetro como se a redescobrisse, como se cada toque confirmasse que tudo o que estavam vivendo era real.
Naquela noite, não foi só desejo. Foi celebração. Cada gemido, cada entrelaçar de corpos, era uma promessa silenciosa: de crescimento, de parceria, de amor. Moviam-se juntos com ritmo e intensidade, como se não houvesse mundo além daquela cama. Como se, em cada ato, reafirmassem que ali, um ao lado do outro, era o lugar certo para estar.
Horas depois, deitados lado a lado, nus sob os lençóis amassados, Kelly repousou a cabeça sobre o peito dele, ouvindo as batidas calmas de seu coração.
— “Obrigada por me fazer acreditar em mim todos os dias,” ela murmurou.
— “Você sempre acreditou, amor. Eu só te lembro do que você já sabe,” ele respondeu, beijando o topo da sua cabeça.
E ali, entre suspiros e silêncio, adormeceram.